Alex Garland trouxe uma abordagem distinta da proposta por Jeff VanderMeer em sua obra original, transformando Aniquilação em uma experiência cinematográfica que vai além da mera adaptação. O filme não se limita a uma narrativa linear ou explicativa; ao contrário, mergulha o espectador em um ambiente de mistério e transfiguração que remete ao conto A Cor que Caiu do Céu, de H. P. Lovecraft. No entanto, enquanto Lovecraft trabalha com o horror do desconhecido como algo essencialmente ameaçador, Garland subverte essa noção, apresentando o estranho não como destruição, mas como um processo natural e inevitável. Desde a flora exuberante de DNA misturado até o urso que imita gritos humanos (que roubou noites de sono de muitos espectadores, assim como eu), cada elemento dentro da Cintilação é uma prova de que a transformação não é um castigo, mas uma inevitabilidade. A grandeza de Aniquilação reside justamente nessa abordagem: o filme não busca dar respostas definitivas, mas envolver o espectador em um processo de assimilação e metamorfose, tal como acontece com Lena (Natalie Portman) e seu marido.
A cinematografia contribui imensamente para essa imersão. A fotografia de Rob Hardy captura a beleza perturbadora da Área X! Enquanto a trilha sonora de Ben Salisbury e Geoff Barrow amplifica a sensação de estranheza e fascínio. O ápice sonoro do filme, na sequência final, transforma a experiência em algo quase transcendental raramente visto ou sentido no cinema atual.
Garland entrega um espetáculo introspectivo, imersivo e filosófico, que não se contenta em apenas provocar medo ou maravilhamento, mas questiona a própria noção de identidade e mudança. Aniquilação não apenas desafia nossa percepção da realidade, mas nos transforma junto com ele – tal como a Cintilação, que não destrói, mas refaz.