O Contador tinha um ótimo trailer. Daqueles enigmáticos, que deixam você com vontade de ver o filme, mas sem contar muito da história – como é comum acontecer. Felizmente - já que o contrário tem sido bem frequente - o filme faz jus ao trailer. Vi muitos comentários sobre o filme, apontando defeitos que, ao contrário, eu considero qualidades. Uma delas é o filme não se focar exclusivamente no personagem principal, o contador do título. Não há “sub-tramas”, como alguns apontaram, mas personagens que são construídas e apresentadas ao mesmo tempo que a história principal de Christian Wolff, vivido por Ben Affleck.
É preciso analisar um filme pelo que ele se propõe a ser. O Contador não é nenhum John Le Carré em matéria de história de espionagem, mas nem pretende ser. O filme é assumidamente um “filme-pipoca”, com os aspectos fantasiosos, inverossímeis e incongruentes típicos de um filme de ação e aventura made in Hollywood. O roteiro, no entanto, não subestima o Q.I. do espectador (Graças a Deus!), e nem torna incompreensível todo aquele papo sobre contabilidade que rola entre os personagens. São detalhes necessários na trama, mas aos quais não é dado importância exagerada. Outro ponto positivo é que, apesar de ser um filme de ação, o roteiro não exagera na presença e duração de cenas de luta, tiroteios e correrias. Há poucas cenas tipicamente de ação, que são entremeadas por cenas mais intimistas, dando bastante espaço para diálogos e interpretação dos atores.
A falta de expressividade de Ben Affleck – um ator bastante limitado – neste caso caiu como uma luva para o personagem. Assim como Arnold Schwarzenneger para viver o robô de O Exterminador do Futuro. Não é possível falar em “interpretação” de Ben Affleck. Esta “falta” de interpretação era perfeita para compor o personagem, um autista. Quem realmente rouba a cena é Jon Bernthal, no papel de Brax adulto. J. K. Simmons precisa urgentemente se reinventar, correndo o risco de interpretar sempre o mesmo personagem, o tipo durão e antipático, que o consagrou em Whiplash.
Embora o roteiro tenha suas falhas e vez por outra perca o ritmo, a direção inegavelmente talentosa de Gavin O´Connor consegue segurar o filme até o final.
A principal falha do roteiro é, pretensiosamente, se propor a apresentar ao final não apenas 1, mas 4 surpresas (!) (não leia se não tiver visto o filme !). A mais importante para a trama (que revela quem está ordenando os assassinatos) é bastante previsível e, por isso, frustrante. Outra (que revela quem é o policial da cena inicial, de quem só vemos os pés) é interessante, mas não há tanto impacto assim. As outras 2 é que são realmente boas, e servem para juntar as pontas aparentemente soltas na trama. Uma delas, em especial, é costurada de forma genial e inesperada.
Há exageros no filme, principalmente no excesso de talentos e habilidades de Christian Wolff, quase o tornando um super-herói de terno e gravata. Não é pedir demais sonhar que os realizadores poderiam ter imaginado este “super-herói” vencendo os “vilões” apenas com sua inteligência, sem apelar para suas habilidades com armas e lutas marciais, o que tornaria o filme bem mais interessante e inteligente do que já é, diga-se de passagem. O autismo moderado de Christian quando criança dá lugar a um adulto que aparenta ser apenas tímido, introspectivo e antissocial, carregando alguns tiques. O seu autismo, quando adulto, é apresentado quase exclusivamente por um prisma positivo: sua habilidade fora do comum com a matemática, típica dos portadores da Síndrome de Savant.
Não há dúvidas que os produtores pretendem fazer de O Contador uma franquia. O que justificaria a extrema dedicação em apresentar o personagem de Christian, sua infância, seus traumas, etc. As bilheterias definirão se haverá sequencias ou não. Onde o filme poderá aparar os defeitos do “primeiro capítulo” ou trair as suas qualidades, tornando-o um produto comum.