O filme “Que Horas Ela Volta” (2015) trata de uma família que mora em São Paulo. Os conflitos entre os personagens --conflictos óbvias e não óbvias-- criam as tensões dramáticas do filme. Os personagens são Val, uma mãe que deixou sua filha, Jessica, para viajar para São Paulo para aceitar trabalho como babá de Fabinho. Seus patrões ricos, Dona Bárbara e Dr. Carlos, pais de Fabinho, estavam felizes com Val por treze anos, até que sua filha Jéssica chega na casa para prestar vestibular. De repente há problemas quando Jessica recusa a seguir as regras da casa. Ela insiste em ter o quarto de hóspedes, não aceitando o quartinho de sua mãe. Ela come com a família, contra o costume. Ela entra na piscina, um lugar proibido. O resultado é uma turbulência que reúne todos na casa em um redemoinho.
A ideia principal no filme é que as linhas rígidas entre classes são anacrônicas e ferem tanto os ricos quanto os pobres. As pessoas mais miseráveis no filme são Dona Bárbara e Dr. Carlos, as pessoas com dinheiro. A cena mais chocante do filme é quando Dr. Carlos, procurando uma fuga da tortura da sua vida, propõe casamento a Jessica. É um choque, um raio que sai do nada. Jéssica não sabe o que dizer, ela não tem palavras. Jessica tem provavelmente dezoito anos e Dr. Carlos cinquenta e poucos. Ele tem esposa, filho, casa, carreira, uma vida feita — e ela quase nada, quase ainda uma criança. É uma loucura, mas o mundo do filme é uma loucura também.
Então, no contexto de uma sociedade louca, eu vou a sugerir um final alternativo louco. Simplesmente é isso: Jessica diz a Carlos sim. Por causas econômicas e sociais, ela perdeu sua mãe por treze anos. Pelas mesmas causas, ela não pode estar com seu filho. Ela não sente amor por Carlos mas sente amizade. Bem. Existem piores negócios. Neste final, Jéssica diz a Carlos que há condições: 1) sua mãe mora na casa no quarto de hóspedes, 2) o filho de Jessica mora com eles, 3) todos podem usar a piscina, 4) todos podem comer qualquer sorvete. No casamento, Jéssica convence Carlos que a mãe da noiva não vai servir comida ou aspirar a igreja. Dona Bárbara assiste o casamento com seu psiquiatra com quem ela “ficava” muitos anos. Embora bêbada, Bárbara se comporta bem porque Jéssica tinha prometido ensinar Fabinho a passar no vestibular. Na última cena, Fabinho joga Val na piscina, Jéssica empurra Carlos na água e salta depois, o cachorro empurra Fabinho, e Bárbara, bêbada, cai na piscina e puxa o psiquiatra com ela. É uma bagunça de braços e pernas, e por uma tarde todos esquecem as regras sociais.