Em muitas vezes, a grande ruína da experiência cinematográfica com um filme específico que está sendo tão alardeado no mundo todo é a expectativa, que vai crescendo, crescendo, crescendo... a ponto de não caber mais em qualquer lugar. Justamente pelo amor da critica, esperamos uma coisa incrível, com ecos de obra-prima, perfeição do cinema, quando na verdade, está longe disso. É o caso. Se eu tivesse esperado nada de Boyhood, certamente teria gostado mais e relevado as decepções que tive com o filme.
Não que seja um filme ruim, aliás, pra mim sequer chega ao patamar de um filme regular. É bom, com alguns momentos muito bons, e o problema é que é só isso, diante de um hype que o eleva a um dos grandes filmes da história do Cinema. O que pega é que a premissa é, de fato, maravilhosa. Mas dava pra fazer um roteiro mais bem trabalhado. Alguns diálogos chegam a soar irreais quando ditos por alguns dos personagens, e, pra um filme que procura retratar com fidelidade uma geração inteira, isso é um pecado muito grande. Certas situações, idem.
Mas, no que ele tenta, acerta bastante. Linklater insere pequenas insignias para demonstrar em que mundo aqueles personagens vivem, num tempo e espaço muito específico, mundo esse que se confunde com o meu próprio. Muitas daquelas coisas foram vividas por mim (talvez por isso eu tenha me decepcionado com o roteiro menos sagaz do que eu esperava), vide as leituras de Harry Potter - com direito a lançamento do Enigma do Príncipe, meu livro favorito da saga! -, a moda Britney Spears, ascensão de Lady Gaga e, posteriormente, do indie, representado no filme pela minha música favorita do Foster the People, Somebody That I Used to Know, e, por que não, até as eleições presidenciais que deram a vitória a Barack Obama! E isso é lindo demais, a cada referência reconhecida no filme não tinha como não conter um sorriso. É um filme sobre essa geração. Ainda que, pra mim, não seja um definitivo.
Refletindo após a sessão, percebi que a atuação de Ellar Coltrane foi uma das coisas a me tirar do filme, aliado ao roteiro que nunca o faz ser um personagem realmente interessante de se acompanhar, pelo contrário até. Mas não tem como culpar Linklater por isso, pois ele, quando criança, era um talento que só! Foi ficando mais robótico com o passar do tempo, infelizmente, e fazendo Mason ser uma figura muito linear e limitada. Se ao menos o personagem não fosse um bobocão, vistas grossas poderiam ser feitas, mas não é. Aliás, o fato de Mason ir ficando cada vez mais palerma ao longo do filme é o que leva, automaticamente, o foco à sua mãe, e finalmente entendi porque tanta gente dizia que o filme deveria se chamar "Motherhood", e porque o estúdio pensou em submeter Patrícia Arquette como protagonista nas premiações, quando ela é uma coadjuvante clara: sua personagem é muito mais interessante. Daí que Arquette a abraça com toda a força pra criar uma persona que jamais perde o tom ao longo de 12 anos, num trabalho ainda mais impressionante que o de Ethan Hawke, por estar presente em absolutamente todas as fases, ao contrário do pai de Mason. Os demais atores são irritantes e têm performances fracas ao longo da trajetória de Mason, como os namorados bêbados da Mãe e seus respectivos familiares. Isso sem falar em Lorelei Linklater, que vai ano e vem ano e nunca muda suas expressões faciais para expressar absolutamente todas as emoções pelas quais Samantha passa, isso sem falar naquele risinho que ela parece estar segurando quase sempre.
Pode ser que o problema de Boyhood comigo seja uma implicância bem específica, pode ser que não; pode ser a própria montagem quase industrial, como pode ser que não; ou a duração longa, que é sim, bastante sentida... mas pode ser que não. Entretanto, jamais negarei que é, sim, um bom filme. Não tem como negar. O projeto tem muito coração de todos os lados, cenas lindas, ainda que não arrebatem, e uma direção completamente apaixonada de Linklater, que consegue, inclusive, salvar muitos momentos do roteiro. Na condução das cenas, fotografia, trilha-sonora, som, escolhas, Richard Linklater merece nota 10, e aí me agarro para manter a nota do filme num patamar premiável. Mesmo tendo tido problemas com a obra, o saldo foi positivo.