Entre tantos reboots e sequências descartáveis que chegam aos cinemas ano após ano, Corra Que a Polícia Vem Aí! surge como uma verdadeira surpresa em 2025. Em um cenário em que as comédias parecem ter perdido força, seja pela saturação do gênero ou pelo domínio de grandes produções “cabeça” e tramas mirabolantes, este filme prova que ainda é possível arrancar gargalhadas genuínas e devolver ao público aquela sensação de leveza que só o riso proporciona.
O novo capítulo da franquia não tenta negar suas origens. Ao contrário, entende que seu maior trunfo está justamente no respeito à trilogia estrelada por Leslie Nielsen. A ideia inicial de trazer um reboot completo, cogitada em 2013, teria descaracterizado a essência do humor absurdo da saga. Na época, Ed Helms chegou a ser cotado para protagonizar uma nova versão, mas o projeto não foi adiante. Anos depois, Seth MacFarlane assumiu como produtor e entregou a direção a Akiva Schaffer, que se mostrou a escolha ideal para conduzir uma continuação que dialoga com a nostalgia, mas ao mesmo tempo adapta o estilo para os tempos atuais.
E aqui está o primeiro grande mérito: o filme não tenta copiar Nielsen. Seria impossível repetir o estilo único do ator, e qualquer tentativa nesse sentido soaria artificial. Em vez disso, a produção aposta em um humor que homenageia o original, mas se permite atualizar as piadas, equilibrando referências ao passado com um ritmo que conversa com o público contemporâneo. O resultado é uma comédia que não soa ultrapassada nem se perde em exageros modernos, encontrando o tom certo entre a reverência e a reinvenção.
Akiva Schaffer, ainda pouco conhecido do grande público, mostra maturidade ao conduzir a narrativa. Mais do que um simples diretor de comédia, ele entende o tempo das piadas, sabe trabalhar o contraste entre situações absurdas e personagens que reagem com a maior naturalidade possível. Ao lado dos roteiristas Dan Gregor e Doug Mand, constrói um humor variado: há piadas faladas, que funcionam pelo timing dos diálogos; o humor físico, sempre presente e que atinge momentos memoráveis; e o “deadpan”, aquele estilo em que os personagens encaram o caos sem qualquer expressão. Essa combinação dá dinamismo ao filme e garante que praticamente todas as cenas tenham algo a oferecer, mesmo quando uma piada ou outra possa se perder em referências mais voltadas ao público norte-americano.
Mas nada disso funcionaria sem um elenco que entendesse o espírito da proposta. E é justamente aí que Corra Que a Polícia Vem Aí! acerta em cheio. A escalação de Liam Neeson, anunciada ainda em 2022, parecia improvável à primeira vista. Conhecido mundialmente por papéis de ação, o ator poderia facilmente cair na caricatura ou soar deslocado em um filme cômico. O que acontece é justamente o contrário: Neeson revela um timing surpreendente para a comédia, explorando sua imagem séria em situações absurdas e arrancando risadas a cada nova expressão. O contraste entre sua persona habitual e o clima insano da trama transforma sua performance em um dos pontos altos do longa.
Se Neeson é a espinha dorsal da comédia, Pamela Anderson é a grande parceira que ele precisava. A atriz, que poderia ser subestimada em um papel desse tipo, entrega uma performance divertida, segura e cheia de química com o protagonista. A dupla forma uma combinação inesperada, mas incrivelmente eficaz, que se torna uma das forças motrizes do filme. As cenas em que ambos dividem a tela são responsáveis por alguns dos momentos mais hilários e memoráveis da obra.
Um dos poucos lamentos fica por conta de Paul Walter Hauser, que aparece menos do que deveria. Seu estilo combina perfeitamente com o tom da produção, e sua presença poderia ter acrescentado ainda mais ao humor coletivo. Ainda assim, o que vemos em tela é suficiente para reforçar a versatilidade do elenco e a inteligência das escolhas criativas.
É interessante notar como o filme consegue ser, ao mesmo tempo, despretensioso e significativo. Despretensioso porque não carrega nenhuma ambição além de divertir – e faz isso com eficiência rara nos dias de hoje. Significativo porque mostra que ainda há espaço para boas comédias no cinema atual, desde que haja uma visão clara e respeito ao material de origem. Enquanto tantos estúdios apostam em sequências automáticas, movidas apenas pelo lucro, Corra Que a Polícia Vem Aí! lembra que uma continuação pode sim ter propósito e entregar algo de qualidade.
O longa também se beneficia de sua estrutura enxuta: com cerca de 90 minutos de duração, não há espaço para enrolação. O ritmo ágil, aliado ao roteiro objetivo, faz com que a experiência seja prazerosa do início ao fim. É o tipo de filme que mantém o espectador envolvido, sem perder tempo em tramas complexas ou subtramas desnecessárias. A simplicidade é sua maior virtude, e justamente por isso consegue ser tão eficaz.
No fim das contas, Corra Que a Polícia Vem Aí! é mais do que um retorno de uma franquia clássica: é uma afirmação de que a comédia, quando bem feita, ainda tem o poder de unir plateias e arrancar gargalhadas sinceras. Akiva Schaffer mostra que é um diretor para ficar de olho, Liam Neeson prova que pode – e deve – se aventurar mais vezes na comédia, e Pamela Anderson conquista um dos papéis mais divertidos de sua carreira.
É raro sair do cinema com a sensação de ter assistido a uma comédia realmente boa. Mais raro ainda é perceber que essa diversão veio de um gênero considerado em crise. Corra Que a Polícia Vem Aí! não apenas diverte: ele devolve ao público a alegria de rir sem pretensão, de esquecer os problemas por uma hora e meia e simplesmente aproveitar o absurdo. E é exatamente disso que estávamos precisando.