Bird Box - 2018
Caixa de Pássaros é um filme original Netflix baseado na obra escrita por Josh Malerman em 2014. Dirigido por Susanne Bier (Serena), roteirizado por Eric Heisserer (A Chegada) e estrelado por Sandra Bullock, Trevante Rhodes, Jacki Weaver, Rosa Salazar, Danielle Macdonald, Lil Rel Howery, Tom Hollander, BD Wong, Sarah Paulson, Colson Baker e John Malkovich.
O longa nos leva para um mundo pós-apocalíptico onde Malorie (Sandra Bullock) e seus dois filhos buscam refúgio atravessando um rio em um barco. Em todos os momentos eles precisam ficar com os olhos vendados, porque com um simples olhar as pessoas ficam extremamente violentas sendo levadas a cometerem suicídios.
Eu fiquei bastante empolgado quando comecei acompanhar o anúncio do filme, juntamente com os trailers e até os cartazes expostos nos relógios da cidade. Tudo me levava a acreditar que poderia ser um ótimo thriller de terror e suspense, e lendo a sinopse esse fato ficava cada vez mais em evidência. O longa tem uma premissa muito boa, já começa despertando a nossa curiosidade e nos instigando a querer respostas sobre o que de fato está acontecendo, tinha todos os ingredientes necessários para se tornar um ótimo filme e tinha tudo para dar certo, porém não deu.
Eu não li o livro e pelo o que eu vi em alguns comentários, o livro parece ser melhor que o filme (ou talvez não), e de certa forma eu já esperava por isso. Assim como no filme "Serena", me parece que a diretora Susanne Bier não é muito boa com adaptações. Bird Box cria um clima interessante para sua história, nos conduz para um ambiente intrigante, cuja fotografia funciona com perfeição sobre uma floresta acinzentada e densa pela névoa. E assim como no ótimo filme "Um Lugar Silencioso", que não se podia fazer barulhos, aqui não se pode olhar, dessa forma que o roteiro cria um situação bastante interessante, aguçando a audição e o tato, ou seja, as únicas armas para a sobrevivência.
Assistindo Bird Box fica impossível não associá-lo com o péssimo filme do Shyamalan "Fim dos Tempos", onde também aconteciam mortes gratuitas pra tentar impactar o público. O fato de não ter uma explicação plausível sobre o que aconteceu no planeta e o que, ou quem leva as pessoas a cometerem tais atos não me incomodou, mas não me entregou o que eu esperava. O filme parte do nada para lugar nenhum, sem falar que todo clímax se perde ao ficar entrando em constantes flashbacks pra tentar explicar toda história. Foi algo que me incomodou e subestimou a minha inteligência, sem falar que todo elenco foi reunido e jogados dentro daquela casa pra simplesmente morrerem, totalmente clichê.
O roteiro de Eric Heisserer é mastigado demais, explicadinho demais, de certa forma até sem necessidades. É outro ponto que Susanne Bier falha, ao tentar se explicar toda hora, muita das vezes até repetindo cenas e falas, como se ela e o roteirista duvidassem da nossa capacidade de inteligência, nos tirando a graça da surpresa. Podemos associar como se aquelas criaturas (ou o que quer que seja) fossem algum tipo de alegorias a algum problema pelo qual as pessoas estavam passando no momento, como a depressão, ou alguma outra do tipo. Mas feito de uma forma muita vaga, muito rasa, sem coesão, sem nos fazer se importar com as mortes, sem criarmos empatia por ninguém, nem mesmo a própria Sandra Bullock consegue arrancar esses sentimentos de nós.
Outro ponto que me incomodou demais em Bird Box foi o elenco, completamente e totalmente desnecessário! E olha que temos ótimos nomes, mas nenhum faz diferença, sendo que todos foram jogados lá para unicamente morrerem, como se por algum motivo isso fosse nos impressionar. Temos a Sarah Paulson, uma ótima atriz que nos entregou uma atuação estupenda em "12 Anos de Escravidão", mas aqui ela é totalmente mal aproveitada, totalmente aleatória, sem falar que o tempo de tela dela foi o que mais me impressionou. O grande John Malkovich é outro que chega a ser cômico a sua participação em Bird Box, sem necessidade nenhuma, outro completamente mal aproveitado. Assim como a Jacki Weaver, o Lil Rel Howery, a Danielle Macdonald e até o rapper americano Machine Gun Kelly, todos mal aproveitados e mal escritos por culpa do péssimo roteiro. Talvez o único que conseguiu levar seu personagem mais adiante, criando até um certo vínculo com a Sandra Bullock, foi o ator Trevante Rhodes (Moonlight: Sob a Luz do Luar), mas também não podemos esperar grandes coisas.
Sandra Bullock está bastante esforçada no filme, podemos ver o quanto ela se doa para a sua personagem, em até certo ponto fica muito interessante, ela consegue nos entregar uma boa atuação. Contracenar com crianças de 5 anos e em grande parte do tempo com os olhos vendados não deve ser fácil, ainda mais tendo que tomar uma postura mais rígida e mais dura em algumas cenas. Como a própria Sandra Bullock destacou em entrevistas em sua recente passagem pelo Brasil, colocando a sua própria experiência como mãe de duas crianças pequenas. Na minha opinião Sandra Bullock entrega um bom trabalho, nada fora do comum, ou surpreendente, algo que já não tenhamos visto, mas é a única que ainda se salva. Sem falar nas duas crianças fofas, que sim, por elas criamos empatia e torcemos o tempo todo.
Mais uma vez eu me decepciono com um filme da Susanne Bier, acho que criei expectativas demais e no final o que sobrou não foi o resultado esperado. Sem falar que o próprio final do filme é outro ponto controverso, não gostei da forma tão otimista e amorosa como foi entregue - tantas mortes pra nada?! [22/12/2018]
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⚠ TEM SPOILERS ⚠
Bem, na época em que escrevi este texto acima eu não tinha lido o livro e toda minha opinião foi unicamente baseada no filme.
Revendo o filme hoje e já ter lido o livro, minha opinião mudou em partes:
Sobre o livro:
É impressionante como a história é boa, é bem narrada, é muito envolvente, com uma leitura gostosa, fluida, que te prende em cada página aguçando a sua vontade de ir cada vez mais além. Naturalmente eu já conhecia a história (ou a forma como ela foi adaptada), mas nem por isso a própria história soa desinteressante. Muito pelo contrário, o mistério está muito bem presente, assim como o suspense, o medo, a agonia, a angustia, pois sofremos juntos da Malorie tudo que ela passa e enfrenta em sua verdadeira jornada em busca de sobrevivência em um mudo caótico e totalmente desconhecido.
Sobre a adaptação cinematográfica:
O filme obviamente é adaptado do livro de Josh Malerman, tem ali a sua essência, a sua ideia, a sua premissa, porém o filme segue por um outro caminho, modificando grande parte da história em relação ao livro.
Muita coisa (muita mesmo) do livro foi deixado de fora, o que naturalmente sempre acontece na maioria das adaptações. Porém, o que me incomodou é que o filme usa muito a sua liberdade criativa e modifica pontos cruciais da história em relação ao livro. Nesse ponto eu discordo veementemente dos responsáveis pela adaptação, porque uma coisa é você usar a sua liberdade criativa e modificar alguns pontos durante a história, outra coisa é você mudar a trajetória da história, de alguns personagens, retirar personagens que no livro é extremamente importante no contexto, e foi tudo isso que aconteceu aqui.
O personagem Dom, que no livro é extremamente importante na virada da história em relação ao Gary (Tom Hollander), no filme ele simplesmente não existe, o Gary tem as suas próprias atitudes e decisões. Aqui eu já considero um erro grotesco na adaptação. O caso do personagem Douglas (John Malkovich), que no filme ele está vivo o tempo todo dentro da casa, tirando assim o grande impacto que a sua história teria sobre os sobreviventes que ali estavam, já que no livro ele já estava morto e tinha toda uma história por trás. O Gary mesmo é totalmente diferente do livro, seu personagem no filme não faz o menor sentido, pois ficou faltando a explicação do porque ele agia daquela forma, já que no livro isso tudo é muito bem explicado.
A parte final em que o Tom (Trevante Rhodes) sobrevive e segue com a Malorie e as crianças não existe no livro, ele é morto na casa junto com os outros. Esta parte foi umas das várias mudanças em relação ao livro, porém aqui eu já achei interessante, pois deu mais coragem e ambição para a Malorie seguir acreditando na possível sobrevivência com as crianças.
Outro ponto:
No meu texto acima eu tinha mencionado o elenco estrelado que foram mal utilizados e jogados na casa unicamente para morrer. Até então eu não sabia que grande parte das suas trajetórias são tiradas do livro, portanto eles realmente estão ali unicamente para morrerem mesmo. Agora o que eu acho desnecessário, é o fato de tentarem comprar o nosso interesse com nomes famosos dentro do cenário hollywoodiano, onde se encaixa até a própria Sandra Bullock. Mas ok né, isso já é costumeiro quando se trata de vender um material cinematográfico até então desconhecido.
No geral eu prefiro a forma como a história é contada no livro, até por obviamente ser mais detalhada e abrangente. Por sinal, a história só é muito boa porque é muito bem contada em cada página. Onde eu acho um acerto a forma como foi diversificada ambas às histórias mesclando passado e presente. O livro também testa o poder da sua fé, da sua crença e da sua ambição pela sobrevivência. Além de levantar vários questionamentos durante toda a leitura; questionamentos esses como: durante toda a minha leitura eu ficava pensando naquela odisseia da Malorie. Será que valia realmente todo aquele sacrifício para se manter vivo em um mundo em que você sabe que nunca mais será o mesmo? Até que ponto conseguimos manter a nossa mente saudável, lúcida, para não entrarmos em um estado de loucura e perda da sanidade? No que se apegaríamos? Em quem acreditaríamos? Ainda existe um Deus?
E aqui eu já acho um grande acerto tanto do livro quanto do filme, em não revelar o que aconteceu e quem são as criaturas, pois tudo envolto em nosso imaginário soa ainda mais temível e desconfortante.
A parte final do filme, em que a Malorie se perde das crianças na floresta e que tem aquela voz pedindo para as crianças tirarem a venda, também não existe no livro. Porém, eu achei uma parte bem feita de acordo com todo o contexto da história do filme (não do livro). Nessa cena a Malorie expressa todo o seu desespero de mãe e faz um belo discurso motivacional de sobrevivência para vida baseado no que ela e as próprias crianças viveram ao lado do Tom. Também gostei dessa mudança.
Considerações finais do livro:
O livro é excelente, tem uma história muito boa, muito bem contada, que nos faz sentir na pele toda a trajetória de sobrevivência da Malorie e suas crianças. Sem falar que a história no livro é muito mais pesada, com cenas muito mais impactantes e sufocantes. Posso destacar a cena do parto da Malorie e da Olympia, que é extremamente agonizante, daquelas que incomoda, que você chega a parar por um momento a leitura para respirar. Todos os acontecimentos durante e após esta cena é muito triste e doloroso.
Considerações finais do filme:
Hoje eu mudei bastante a minha opinião em relação ao que eu escrevi no texto de 2018 acima. Hoje, após ter lido o livro, eu não considero o filme como essa tragédia toda que eu havia considerado. Por mais que a adaptação seja muito falha e erre bastante em suas mudanças, eu acho que no geral o filme conseguiu contar a história do livro, conseguiu entregar a proposta do livro, conseguiu transmitir um pouco do suspense, do mistério e do terror do livro.
Dessa forma, antes eu considerava este filme como horrível, hoje eu já o considero como bom e aceitável dentro da sua proposta.
[22/12/2018]⭐⭐
[03/05/2024] ⭐⭐⭐