Descobrindo Heróis.
Existe uma tênue linha que separa as produções live-action com as animações lançadas diretamente para o mercado de home-vídeo. Grande parte dessas diferenças estão relacionadas com o contexto narrativo e, principalmente o visual, já que a alegoria geralmente presente nas animações não se encaixa muito bem em atores de carne e osso. Mas e quando diversos elementos se juntam para contar uma história com dois dos mais famosos personagens das HQ's?
O começo de Batman vs Superman: A Origem da Jutiça deixa claro que teremos um filme sombrio, dramático e que questiona as habilidades dos heróis no combate ao crime devido a suas consequências para a sociedade. A maior evidência disso está no fato de que o filme começa justamente mostrando as consequências do embate entre Kal-el e o general Zod, que inclusive resultou em dezenas de mortes na cidade de Gothan. Henry Cavill volta ao papel de Clark Kent / Superman, que aqui está sendo acusado pelas numerosas mortes de civis desde sua aparição como "herói", chegando a ser chamado de falso-deus. Batman (Ben Affleck), por sua vez, decide confrontar o herói voador porque também sofreu perdas e presenciou a luta "alienígena" com a impotência de um ser humano comum.
Sem muito o que fazer do ponto de vista físico, o governo dá início a um suposto julgamento de Superman, isso tem por objetivo determinar até onde ele poderia ir para salvar as pessoas. Em certo momento, presenciamos uma frase que elucida bem esse contexto: "Todos veneram as coisas que o Superman faz, mas nunca pensaram em dizer o que ele deveria fazer", esse contra-ponto em questionar se os métodos usados pelo herói soa interessante até certo ponto, pois o roterio tem dificuldades em sustentá-lo, dada a sua grande relevância na história. O homem morcego também não é um sujeito idolatrado em Gothan, pois suas ações são violentas e geralmente questionadas pela mídia. Essas dúvidas quanto a eficácia de grandes heróis chamam a atenção do divertido e conhecido Lex Luthor (Jesse Eisenberg), como sempre irônico e um estrategista que faz uso da todos os artifícios disponíveis para alcançar o que deseja, independente das consequências ou métodos utilizados. E ainda temos espaço para Diana Prince (Gal Gadot), ou Mulher-Maravilha, que apesar da pouca participação em cena, ainda sim responde por bons e enigmáticas situações que deixam Bruce Wayne a ver navios pela curiosidade.
Pra quem acompanha as animações da Warner, sabe que o roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer faz grande uso de temas pre-estabelecidos. Há forte presença de elementos de Deuses e Monstros, A Morte do Superman, Trono de Atlântida, Cavaleiro das Trevas e por aí vai, todos eles quase metodicamente aplicados e costurados na narrativa, muitas vezes confusa pelo excesso. Mas isso não significa um problema por completo, principalmente para quem aprecia entretenimento com o objetivo de diversão, já que o diretor Zack Snyder ainda compila boas sequências de ação a la Michael Bay, em especial a final que envolve o vilão Apocalypse. A utilização das capacidades físicas do Superman e Mulher Maravilha são colocadas em prática, além dos apetrechos do Batman que são essenciais no embate final que, diga-se de passagem, parece uma extração de grandes batalhas de animações da Liga da Justiça.
Outro ponto que certamente deixará fãs vibrando é a presença de alguns personagens da Liga da Justiça em um arquivo da LexCorp, trata-se de Arthur Curry (Aquaman), Barry Allen (Flash) e Victor Stone (Cyborg), integrantes certos na vindoura duologia da Liga da Justiça. E vale ressaltar que a foto da Princesa Diana que aparece em tais arquivos é justamente da produção Wonder Woman, prevista para 2017, tendo inclusive Chris Pine ao lado da amazona.
Além do volumoso grupo de figuras emblemáticas, temos também a participação de antagonistas importantes, tais como um Alfred (Jeremy Irons) com a perspicácia generosa de sempre, e ainda capaz de fazer uso da tecnologia como poucos; uma Lois Lane (Amy Adams) declaradamente preocupada com o seu amado, capaz de comprar briga até com o exército para provar a verdade; Perry White (Laurence Fishburne) meio desperdiçado como um editor chefe exigente mas complacente com seus funcionários; Senadora Finch (Holly Hunter) que funciona como o estopim das questões de defesa social e contra a violência.
Apesar do volumoso conjunto de informações costuradas como sub-tramas em BATMAN VS SUPERMAN - A ORIGEM DA JUSTIÇA, o filme ainda consegue resultar em algo divertido, principalmente pela presença de dois dos mais famosos e imparciais super-heróis existentes. Embora o roteiro falhe por conta de vários furos narrativos e interpretações muitas vezes alegóricas, ele surge como um presente para os fãs, seja das HQ's ou apenas admiradores dos personagens. De fato está longe do que se propôs logo no começo da produção, mas também seria um exagero rotulá-lo como algo ruim.