A primeira vez que ouvi falar em Flores Raras foi quando ele foi apresentado no último Festival de Tribeca, em Nova York, e Glória Pires recebeu muitos elogios dos críticos por sua interpretação. Foi preciso esperar um pouco até o filme chegar ao Brasil. Mas bem menos que os 17 anos que a produtora Lucy Barreto levou para ver realizado seu projeto, sempre esbarrando no preconceito em relação a uma história de amor entre duas mulheres. Neste tempo todo, uma coisa estava definida: a presença de Glória Pires no papel de Lota. Vendo o filme, não se pode imaginar outra atriz brasileira melhor para interpretá-lo. Quanto ao papel de Elizabeth Bishop, a atriz Miranda Otto não passaria pela minha cabeça, mas seu desempenho, igualmente, não poderia ser melhor.
Flores Raras talvez tenha se beneficiado do seu longo tempo de "gestação". Neste tempo todo, o roteiro foi escrito e re-escrito muitas vezes, para chegar à forma enxuta final, onde não é possível conceber que alguma cena sequer seja excluída, ou pareça desnecessária. Além disso, é sem dúvidas o melhor trabalho até hoje do diretor Bruno Barreto. Direção segura, que conseguiu arrancar 3 ótimas interpretações do trio principal, além de uma caprichada reconstituição de época, bela fotografia, excelente trilha sonora e até o uso surpreendente e competente de recursos digitais.
Bruno Barreto provavelmente sabia o que tinha em mãos, como produto acabado, por isso o filme está focado em conquistar o mercado internacional. Basicamente falado em inglês - justificando-se ao retratar como uma das personagens principais uma famosa personalidade americana - o filme tem estreia marcada para os Estados Unidos em novembro, onde pretende reavivar as excelentes críticas que recebeu quando exibido em diversos festivais pelo mundo, e não esconde suas pretensões de entrar na corrida das premiações. Apesar de seu tema difícil, cercado ainda de muitos preconceitos, Flores Raras consegue abordar este amor entre mulheres de uma forma natural, elegante e sensível. Os dramas e as alegrias pelos quais passa o relacionamento de Lota e Elizabeth é comum a todo tipo de relacionamento amoroso e as dificuldades estão mais ligadas a suas diferenças culturais. Há muita verdade e entrega nos papeis por parte das atrizes, facilitando o envolvimento de quem assiste, que livre de preconceitos poderá se emocionar realmente com a história. Além do mais, o filme não pretende abordar e discutir a questão do homossexualismo e sim contar uma boa história, onde a pedra de toque parece estar mais focada na questão da perda e sua aceitação.
É interessante notar o desenvolvimento, a evolução das personagens. De início, de aparência e atitude tão frágeis, Elizabeth demonstra ao longo do tempo um preparo maior para lidar com a perda e as transformações da vida - muito provavelmente porque já havia vivido isso na infância, como mostra o filme. Lota, ao contrário, tão firme, determinada e aparentemente tão auto-suficiente, acabará sucumbindo aos revezes da vida, demonstrando uma fragilidade insuspeita.
O filme não possui a mesma densidade dramática que Brokeback Mountain - cujo mote era não se permitir a felicidade frente às convenções da sociedade - ou Direito de Amar - cujo mote era permitir-se um novo relacionamento após a dor da perda. Flores Raras está mais para a linha de Milk - A Voz da Igualdade, onde o mais importante é a história de pessoas interessantes que, eventualmente, são homossexuais, mas sem ser este o interesse principal do filme. Li um crítico comentar que este talvez seja o principal mérito do filme: ao abordar esse assunto não levanta bandeiras ou soa panfletário.
Lota de Macedo Soares ou Elizabeth Bishop foram mulheres talentosas e reconhecidas pelo seu trabalho numa época em que a maioria quase absoluta das mulheres buscavam ser apenas boas esposas ou donas-de-casa. Por si só, descobrirmos a história individual e o talento de cada uma dessas mulheres já seria motivo suficiente para tornar o filme interessante. Flores Raras consegue, a seu modo, proporcionar ao espectador aquele prazer de assistir um bom drama que somente ocorre, às vezes, dentro da sala de cinema. E demonstra, inequivocamente, que o cinema brasileiro atingiu a sua maturidade.