Birdman, de Alejandro G. Iñárritu, e a irônica necessidade de seu cinismo.
Esplêndido! Uma crítica ferrenha à arte de seu tempo e domínio. Birdman não se sobressai apenas pela fantástica e segura direção de Iñárritu e nem mesmo por suas também fantásticas atuações. O filme vai além disso. O que torna Birdman, a meu ver, esse prato tão cheio ao espectador, é sua sinceridade cínica. Essa "humildade" descarada e - por que não? - corajosa de expor, por meio de uma abordagem metalinguística, os meandros que compõem o Cinema e a Dramaturgia contemporânea – mesmo ele sendo parte integrante dessa indústria tão solapada por sua própria "arte" –, é o que faz deste um filme tão importante aos dias de hoje. E, não parando por aí, Birdman também explora criticamente o nosso papel não apenas como meros espectadores sem importância, mas como indivíduos constituintes da sociedade, sobre os rumos que tomamos e sobre a necessidade (e o que isso representa para nós) de sermos importantes, relevantes... Lembrados.
Iñárritu conduz o filme com um virtuosismo de encher os olhos. É realmente mágico. Planos sequências e planos longos se ligam constantemente, dando vida a curiosa história de Riggan Thomson. Longe de serem simples aparatos atrativos, o modo como os planos foram utilizados por Iñárritu, assumem claramente um papel em sua narrativa, dando ainda mais voz à subjetividade de sua trama e, principalmente, de seu protagonista. E boa parte desse acréscimo narrativo se deveu a forma ímpar que Alejandro omitiu os cortes entre cada um desses planos, dando, com essa constância, um tom de exaustão e inquietude à vida de Thonsom. Contando, ainda, com um jogo de câmera que aparenta dançar em cena, circundando seus personagens, uma maravilhosa fotografia e sua trilha sonora bastante curiosa (e não menos importante), Birdman se estabelece também como um trabalho de técnica irremediável. Eu diria que Birdman – correndo propositalmente o risco de sofrer algumas correções semânticas – é uma colcha de retalhos do mesmo pano, um amálgama de si mesmo.
O roteiro – escrito a oito mãos – é, assim como cada segmento que o compõe, um espetáculo a parte. Seu texto é recheado de referências ao atual cenário cinematográfico, onde embasa suas críticas ao quadro blockbusteriano e a função que a crítica especializada desempenha nesse meio. Ao abordar a realidade externa à dramaturgia, onde, no filme, se aloja o papel do virtual na existência do sujeito; atando as divagações de seu protagonista junto a Birdman, seu alter ego; contando também com os diálogos milimetricamente elaborados, que os personagens tecem durante o filme, o longa traça todo um panorama sobre a nossa vida enquanto plateia, a vida dos atores (e como nós a imaginamos), o universo onde nos inserimos e os papéis que nós, concomitantemente, encarnamos e desempenhamos uns nas vidas dos outros. Birdman, ainda imerso em sua crítica tenaz ao cenário hollywoodiano de cinema, dá ao desfecho de sua projeção o caráter mais ambíguo de todo o filme, ao ironizar o modo repetitivo e complacente que Hollywood, na maioria dos casos, encontra para encerrar suas histórias: os finais felizes. E o final, a propósito, além de uma das cenas mais belas e sutis de Birdman, é também uma de suas sacadas mais geniais. Portanto, acredite: ter o que pensar é o que não vai faltar ao espectador que se dispor a assistir esse filme. Já num pequeno aparte a respeito das atuações, só me restam os mais óbvios elogios. Todo o elenco principal merece uma ressalva particular e fica difícil, dessa forma, encontrar adjetivos e sinônimos o suficiente para elogia-los. Competência e brilhantismo foi o que não faltou nesse filme. E, sem que eu esqueça: me foi de uma alegria muito particular ver Michael Keaton na melhor e mais inspirada atuação de sua carreira.
Em tempos onde o Cinema perde, lenta e gradativamente, sua identidade, sua força reflexiva e, sobretudo, sua diversidade criativa, Birdman se apresenta não apenas como um dos melhores filmes de 2014, mas também como uma espécie viva de consciência, que, através de suas críticas, suas metáforas, da forma como brinca com a fantasia e a realidade, de toda sua composição, tenta dar um lampejo de luz tanto em sua própria casa, quanto àquele que faz mover as engrenagens que dão vida a essa tão amada Arte: você.
Birdman ou (Obrigatório).