De vez em quanto, uma vez por ano, pelo menos, aparece um filme que me faz lembrar por que eu gosto tanto de cinema, por que eu gosto de falar e escrever sobre filmes. Um filme especial e diferente. Um filme que me prova que ainda existem pessoas na indústria cinematográfica dispostas a fazer arte. Pessoas dispostas fazer algo relevante, original, memorável. E "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" é um filme desses. Do primeiro ao último segundo desse filme, eu estava absolutamente hipnotizado por ele. E eu vou tentar explicar todos os motivos disso.
Começando pela direção, "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" foi dirigido para parecer que o filme inteiro parecesse composto de um único take. Sim, é possível imaginar em quais partes do filme pede haver (ou não) alguns cortes, mas Iñárritu faz um ótimo trabalho em escondê-los, usando incríveis técnicas de filmagem. O filme é visualmente lindo e nunca para, é de tirar o fôlego. E o mais incrível é que ele conseguiu me deixar sem fôlego sem que nenhum tipo de ação, mas o fato de parecer um take só, a empolgante trilha sonora e as incríveis performances realmente me deixaram eufórico do início ao fim.
E falando em performances, "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" é repleto de atuações excelentes. Michael Keaton dá a melhor performance de sua carreira. Edward Norton dá o seu melhor em anos. Emma Stone dá uma performance verdadeiramente surpreendente. No filme, ela tem um monólogo de nos deixar de boca aberta. E nem é apenas o monólogo que nos impressiona, mas também os segundos de silêncio logo após dele e a expressão no rosto da atriz.
No começo do filme, Michael Keaton e Edward Norton têm uma cena que me deixou absolutamente hipnotizado. E não só por causa de suas incríveis performances, mas também por causa do brilhante diálogo e da escolha dos atores, pois eles interpretam, basicamente, versões exageradas de si mesmos. Michael Keaton era famoso na década de novembro por interpretar o Batman e, hoje em dia, está meio esquecido. E Edward Norton é famoso por ser um ator muito difícil de lidar. E o mais incrível é que o roteiro não faz parecer que eles estão fazendo paródias de si mesmos, e sim interpretando verdadeiros personagens que se parecem com eles.
Além disso tudo, o filme tem muito o que falar a respeito da indústria cinematográfica atual, sobre atores, sobre a mídia e, principalmente, sobre criticismo. No filme, Michael Keaton tem um monólogo sobre criticismo que é um soco no estômago de qualquer crítico. E eu não gosto de me ver como um crítico, eu sou apenas um cara que ama cinema e gosta de falar sobre filmes, mas esse monólogo expõe a verdade nua e crua sobre críticos que não se importam com a estrutura de um filme, e sim apenas com encontrar uma boa frase para colocar na capa ou no pôster do filme ou na sua crítica. Críticos que só se importam com criar polêmica e não gostam de nada.
E essa mesma cena nos dá muito o que pensar sobre atores também, principalmente a visão que temos dele. O fato de um ator fazer parte de uma bem sucedida franquia de filmes de super-herói faz dele menos ator ou talentoso do que outros? E o fato de um ator participar de filmes artísticos faz dele mais ator ou talentoso que outros? E quem dá aos atores esses rótulos? Eles mesmos? Nós? A mídia? Os críticos? O filme nos dá a uma perspectiva muito interessante e reveladora sobre a visão do ator no meio disso tudo, o que eu achei incrível.
E o último ponto que eu gostaria de abordar sobre esse filme é a trilha sonora. A trilha sonora de "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" é composta basicamente de um constante e infinito solo de bateria. E em um certo momento do filme, Michael Keaton está andando na rua e passa por um daqueles músicos amadores, sabe? Então, levando em consideração algumas coisas que gente já havia visto, como quando o seu personagem está ouvido a voz do Birdman na cabeça, aquilo nos leva a perguntar: isso é apenas a trilha sonora do filme ou o personagem de Michael Keaton está imaginando que a sua vida tem uma trilha sonora, como um filme?
No final das contas, esse é, até então, o meu filme preferido de 2014. Inteligente, engraçado, instigante e original, "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" é brilhantemente escrito e dirigido e excelentemente atuado. Uma experiência inesperada e inesquecível, que pode não apenas agradar o público comum, mas também ficar gravada na cabeça de apaixonados pelo cinema por semanas. E como se isso tudo não fosse o suficiente, o filme ainda nos dá muito o que pensar sobre criticismo e a indústria cinematográfica atual. E é por isso que eu dou ao filme uma perfeita nota 5 de 5.