Rian Johnson pode ser considerado desde já um cineasta muito corajoso. Afinal, assumir uma das maiores franquias da história do cinema não é uma tarefa que qualquer um faria com habilidade e competência – tendo de um lado os fãs xiitas da saga e do outro uma galera que apreciou ótimo O Despertar da Força, que trouxe para as novas gerações toda a intensidade que o universo de Star Wars é capaz de transmitir, Johnson consegue, com sua direção e roteirização criativa, dinâmica e inovadora, mas ao mesmo tempo mantendo-se fiel ao espirito original do que George Lucas lançou há 40 anos atrás, fazer de Os Últimos Jedi um passo importantíssimo para o futuro desta franquia que mudou o cinema – a junção do novo com o antigo nunca soou tão poderosa antes, fazendo deste filme um dos melhores da saga – mas com alguns escorregões que discutirei à frente.
Aplicar ousadia em filmes já muito bem estabelecidos para o grande público é um risco – ao mesmo tempo que se apegar demais a mesma formula poderia ser um problema: enquanto J.J. Abrams foi (injustamente) acusado de fazer do episódio VII ser uma suposta cópia de Uma Nova Esperança, Johnson é rebatido (injustamente, também) pelos fãs que consideraram sua abordagem diferenciada demais do universo original dos filmes. A resposta para a condução dos dois diretores em cada um de seus longas é bem simples: Abrams simplesmente usou uma estrutura já utilizada para introduzir novos (e belos) personagens – ao passo que, agora, Johnson expande este universo, deixando de resumir a saga em apenas, Skywalkers, Darth Vader e “bem versus o mal” – mesmo que a trama apresente características que lembrem certos pontos dos episódios V e VI – Star Wars, como sabemos, além de ser uma fantasia riquíssima, representa várias questões pertinentes em nossas vidas – sejam aspectos de moralidade, assuntos sociais e questionamentos ideológicos – surpreendente em passar, em certos momentos, questões que nos trazem a exploração capitalista sobre pessoas mais carentes ou até mesmo na realidade de nosso mundo, onde heróis e vilões se confundem quando o assunto é guerra ou aquisição de armas.
Em Rogue One, Gareth Edwards soube muito bem introduzir tais fundos de maneira bem discreta, mas eficiente – e fico muito feliz em dizer que Johnson também faz isso aqui – mas notem como seu trabalho é mais complexo, dado o número de personagens de Os Últimos Jedi ser consideravelmente maior. Sabendo dosar a emoção, ação e até o humor, o cineasta nos apresenta, logo de inicio, aos rebeldes, cada vez mais acuados no espaço pelas tropas da terrível Primeira Ordem, comandada pelo maligno Snoke (Serkis) – enquanto isso, muito longe dali, em um longínquo planeta, Rey (Ridley) finalmente encontrou Luke Skywalker, escondido e se sentindo culpado pelo fato de Kylo Ren (Driver), seu ex-aluno na antiga escola Jedi, ter ido para o lado sombrio da Força. Com o tempo se fechando contra os rebeldes, Poe (Isaac), Finn (Boyega) e a jovem Rose (Train) – junto de BB-8, é claro – tentam sabotar a nave do líder supremo Snoke, indo atrás de um homem (Del Toro) que pode desabilitar as defesas do imenso cruzador galáctico – ao mesmo tempo que a Almirante Holdo (Dern) assume o comando da rebelião no lugar da General Léia (Fisher).
Notem como uma trama destas poderia ser terrivelmente inchada nas mãos de um David S. Goyer da vida – mas não, o roteiro de Johnson é bastante consistente em focar em cada personagem com precisão – dando uma atenção essencial e dinâmica para cada um – mesmo que em pouco tempo, a Rose de Kelly Marie Train se mostra uma personagem interessante justamente por conferir uma certa reflexão sobre como os interesses de poderosos pesam na vida de certas etnias ou pessoas mais humildes, além de mostrar para o inseguro Finn de John Boyega uma maneira mais eficiente de encarar sua vida após tantos anos sendo oprimido pela Primeira Ordem, quando era um Stormtrooper – e a maneira espontânea como o Poe Dameron do eficiente Oscar Isaac constrói sua personalidade, ao tentar compreender aos poucos o verdadeiro significado de liderança bate de frente com a personagem de Laura Dern, que, se a principio parece fria e arrogante, torna-se quase emblemática – como conferido quando ela protagoniza uma das cenas de batalha mais espetaculares (mas bela e triste, ao mesmo tempo) de toda a saga!
E na relação entre a Rey da super simpática Daisy Ridley com Luke temos momentos que definem a personagem tão bem aceita em O Despertar da Força – ela agora começa a entender sua função no universo para ajudar os rebeldes – e a tão esperada presença de Mark Hamill não decepciona: o ator, que em 1977 ainda demonstrava uma certa insegurança – normal para qualquer ator iniciante – mostra-se agora um ótimo profissional – ainda mais que o roteiro sabe perfeitamente explorar um lado da própria personalidade do artista – o humor; logo de cara, na conclusão daquele momento final do episodio anterior, ele já demonstra isso – e também quando começa o treinamento Jedi de Rey – mas vai além disso – sua privação e tendência a solidão são extremamente bem fundamentadas e compreensíveis, passando longe de soluções convencionais – e é aqui que o poder de ousar de Johnson faz efeito.
Sem tomar rumos previsíveis, a trama de Os Últimos Jedi não tenta jamais cair para o óbvio – o enfoque na Léia da saudosa Carrie Fisher é realmente surpreendente, principalmente para quem se questionava sobre algo levantado no final de O Império Contra-Ataca e em O Retorno de Jedi - se revelando em uma das cenas mais emocionantes e belas do longa – devidamente dedicado à grande atriz falecida no final do ano passado – sim, eu chorei nesta parte! Mas devo destacar, em questões de atuação, o desempenho de Adam Driver como Kylo Ren, transformando seu personagem no mais multifacetado e complexo que a saga já mostrou até então – ao contrario de Darth Vader, Ren é indeciso entre o lado da luz e o da escuridão – sua frustração em não conseguir convencer Rey a ir para seu lado e a forma como é maltratado pelo Líder Supremo Snoke revelam sua real faceta, deixando-o como o personagem mais visceral e intenso de todo o filme.
Mas, entretanto, fica claro que o roteiro tem uma certa dificuldade em garantir o bom entrosamento de outros personagens e as situações que eles poderiam gerar – enquanto o General Hux do excelente Domhnall Gleeson tem pouco a fazer além de demonstrar desprezo por Ren, o Snoke de Serkis torna-se um personagem quase sem importância – mesmo que desta vez o CGI usado para sua caracterização seja melhor construído – embora ainda funcione como um elemento surpresa em certo ponto. Outro fato que pode nos deixar um tanto triste é o pouco aproveitamento de Chewbacca (mais para o humor, apenas), C3PO (Daniels) e R2-D2 (Jimmy Vee, substituindo o falecido Kenny Baker). E o “hacker” vivido pelo grande Benicio Del Toro poderia ser até excluído do filme – refletindo a pouco funcional parte da trama no planeta Canto Bight, onde Finn e Rose tentam conseguir a ajuda do suspeito e misterioso homem – tal parte, revela-se com uma certa relevância, mas ela impede que outros momentos mais importantes sejam focados – ainda que bem ao fim revele sua importância, que só seria realmente vista nas continuações – aliás, o fato do filme segurar certas informações (principalmente sobre o passado de certos personagens) também acaba por decepcionar e aborrecer em certas partes – é bem visível como existem diversas “informações falsas” durante a trama – ou que pelo menos soam assim.
Ainda assim, as decisões estéticas e estruturais que Johnson toma durante a condução de toda a trama jamais fazem deste episódio VIII um filme aborrecido – o ritmo do longa é intenso e bem preparado – fazendo suas duas horas e meia passarem mais rápido – com técnicas simples, o diretor impulsiona a narrativa de forma bem natural – como ao inserir diálogos em cenas que acontecem antes do que está sendo mostrado, principalmente no treinamento na ilha de Luke e nos momentos importantes onde Rey e Kylo Ren fazem um tipo de “conexão mental”, revelando uma curiosa tensão sexual entre os dois – com uma montagem simples, mas relegando uma forma de atuar mais desafiadora aos atores (reparem no choro de Daisy em algumas dessas partes), tais momentos preparam uma conclusão que impressiona por não cair no lugar comum, tornando Rey e Kylo ainda mais interessantes e ricos em suas personalidades e características.
E sobre os aspectos técnicos em geral, só posso dizer que mantém a qualidade exemplar de toda a franquia – direção de arte riquíssima, ainda aproveitando-se para ser mesclada com os belos efeitos digitais, como feito em O Despertar da Força – vide as criaturas de cristal do planeta Crait ou a forma como as X-Wings sobrevoam as naves da Primeira Ordem – além de planos detalhados onde pode-se ver os atores em meio as naves, sem parecer falso ou evidente o uso do CGI – coisa também vista na forma como os movimentos do adorável BB-8 são bem recriados – fazendo dele um coadjuvante indispensável – com importância real na trama.
Além disso, a misce-en-scene de Johnson é bastante abrangente em deixar as cenas de ação sempre com planos abertos, possibilitando uma visão clara de toda a movimentação – sejam as batalhas de naves ou os combates com sabres de luz – bem coreografados – e a fotografia de Steve Yedlin enriquece o filme com cenas belíssimas, que remetem a algo novo, mas ao mesmo tempo clássico da saga – a batalha no planeta Crait revela-se quase uma pintura clássica, com as planícies brancas em meio ao fundo avermelhado da terra, com efeitos com a luz do sol que impressionam pelo realismo, ainda mais quando dois personagens finalmente irão duelar – tudo bem acompanhado pelos fantásticos efeitos sonoros (uma indicação ao Oscar é quase certa) e pela magnifica (ah, vá?) trilha-sonora do mestre John Williams, que não precisa apelar para fazer qualquer fã se emocionar com suas composições clássicas do tema, se mesclando com outras novas e também envolventes.
Mesmo que seu roteiro sofra com situações e momentos possivelmente descartáveis, Os Últimos Jedi ainda é uma experiência fantástica, capaz de emocionar e conquistar novos adeptos no universo da franquia, sem jamais ofender o passado – é um filme ousado, criativo e com um diretor e roteirista totalmente disposto a nos surpreender e envolver, com está trama repleta de ricos e complexos personagens, sejam os novos ou antigos.
Assim como Luke descreve a Força em certo momento, Star Wars é vida e pertence a todos, e não só a aqueles fãs que não conseguem abrir a mente para algo inovador, desafiador e emocionante como este episódio VIII o é.