Roger William Corman nasceu em Michigan em 1926. Iniciou-se em Hollywood, como produtor em 1953, e como cineasta em 1955, com filmes baratos (baixo custo) e rápidos (realizados em pouco tempo), os quais hoje chamaríamos de classe B. Um exemplo clássico é O corvo, ou então A pequena loja de horrores. Foi o responsável pela grande retomada e divulgação dos contos do escritor Edgar Allan Poe e pela ascensão meteórica de nomes como Cristopher Lee, Vincent Price e Boris Karloff. Foi Corman o primeiro a reconhecer o talento e dar oportunidades a John Landis, Francis Ford Coppola, Martin Scorcese, James Cameron, Tim Burton, Ron Howard, Joe Dante, Peter Bogdanovich e Jonathan Demme.
Devido à grande liberdade que proporcionava aos seus assistentes, deu chance à expressão de tendências individuais, e bastante heterogêneas entre si, como os cineastas nomeados acima e, na sua sucessão, nomes como Oliver Stone (Platoon, Apocalipse Now, Alexandre, etc) e Steven Spielberg (Amistad, A cor púrpura, etc), os quais, por sua vez, são responsáveis pela geração de cineastas como Ang Lee (Brokeback Mountain).
Quando temos acesso a este panorama mais amplo, temos também clareza da teia de relações que se estabelece entre todos estes cineastas e vislumbramos o nó que os une: a filiação a Roger Corman.
O jovem Spielberg, dará grande ênfase à temática social, o que o aproxima muito de Oliver Stone e Ang Lee. Na época em que ele ainda não havia alcançado o sucesso comercial, através dos efeitos especiais e da temática cósmica, ele dirigiu Amistad, onde demonstra o seu lado mais sensível, humano e engajado. Anos depois, tão rico e aclamado que não precisava mais fazer filmes para agradar às corporações dos grandes estúdios, recuperou este seu lado mais brilhante e mais nitidamente artístico, ao realizar A cor púrpura.
Trata-se de um retrato pungente e datado da sociedade do sul dos Estados Unidos, sob a ótica dos negros (libertos da escravidão mas não do apartheid social que se seguiu a ela) e que nos mostra a perpetuação das relações de posse/propriedade, especialmente dos homens em relação às mulheres.
A cena em que a cantora do bar pede perdão ao pai, pastor protestante, através da música, onde o coro da igreja batista e a banda do cabaré ecoam juntas, e ela canta um spiritual travestido em blues, é uma das mais belas já filmadas por Spielberg.
A jovem está cantando no bar e, ao longe, escuta o coro da igreja. Ela então se põe a caminho da igreja, sem deixar de cantar, e os músicos do bar a seguem, sem deixar de tocar... Ela caminha ao redor do lago, a paisagem é bucólica... Conforme se aproxima da igreja do pai, tanto ela quanto o coro da igreja aumentam o volume da voz... Ela passa em revista o hinário batista e, do nada, está cantando um spiritual de arrependimento e de contrição. O pai derrama lágrimas...Ambos se abraçam no centro da igreja (que é também o centro da cena e da tomada) e todos que estão dentro do cinema, assistindo a tudo isto, choram copiosamente...
Apenas presenciei choro tão copioso, intenso e tão unânime numa platéia de cinema quando assisti, muitos anos depois, O segredo de Brokeback Mountain.