Não é de hoje que Hollywood tem virado os olhos para produções com “temáticas” bíblicas. O filme de Aronofsky , Noé, foi o primeiro deste ano a fazer uma releitura do patriarca da arca. O novo filme do Sr. Ridley Scott (Blade Runner, Alien, Gladiador, Prometheus) foi criticado por ter um elenco caucasiano para levantar 140 milhões de dólares para a produção. Êxodo não é um filme de origens, ele retrata um Moisés (Christian Bale) adulto, vivido em combates, além de ser recheado de críticas pontuais ao cristianismo, sua interpretação de Moisés está pautada em estratégias militares, ele faz do patriarca (homem mais manso da terra) um verdadeiro guerrilheiro, distorcendo a figura de Profeta e Pastor de ovelhas. Scott preferiu fazer uma releitura do livro de Êxodo de forma mais politizada do que, propriamente, a saída do povo do Egito. Em seu filme, “Êxodo – Deuses e Reis”, os egípcios são o império vigente e os hebreus os terroristas, daí usar de vários recursos digitais para aproximar as flechas incendiárias que os judeus atiram contra as embarcações no Nilo, as imagens que se veem nos noticiários dos mísseis do Hamas cruzando os céus de Israel. O diretor e seus 4 roteiristas (Adam Cooper, Bill Collage, Jeffrey Caine, Steven Zaillian ) utilizam de todo os subsídios alegóricos para explicar uma possível origem dos conflitos entre Israel e Palestina.
Voltando para o lado bíblico, Scott faz uma representação da “Sarça ardente”, apenas como um fogo mítico, uma das passagens mais respeitadas pelos cristãos em Êxodo 3, onde Moisés tem seu encontro com Deus no monte Horebe e vê uma pequena árvore em chamas. Nesse momento temos a visão do diretor sobre Deus, para ele (Ridley Scott) Deus é a figura de uma criança birrenta e petulante, que muitas vezes se mostra impaciente e vingativo. Nesse ponto o longa destila sua critica as religiões, através de um Moisés perturbado por visões, a ponto de deixar sua família e “lutar com Deus” (significado de Israel), dessa forma, ele questiona "Acredita-se em Deus porque Ele existe ou Ele existe porque se acredita n'Ele?".
Mesmo distorcendo o texto e contexto bíblico, Scott faz uma grandiloquente “Dez Pragas do Egito”, ou seriam 8 (Para o diretor), baseadas cientificamente em uma série de calamidades ambientais, onde as “águas em sangue” não passam de grandes e ferozes crocodilos que atacam os egípcios tingindo a água em sangue e puxando as outras pragas de forma concatenada.
Apesar de questionar o divino e partir para o Sionismo, Scott faz um bom filme seguindo sua tendência, com belas batalhas campais e coreografias afiadas, além de um figurino pomposo da época. Pode ser frustrante para algumas pessoas a entrega da tábua dos 10 mandamentos e a abertura do Mar Vermelho, pois são encenados com a sobriedade de um ateu, diante dos quais os exageros de Cecil B. DeMille em “Os Dez Mandamentos” parecem verdadeiros milagres da imagem.