Quando acenderam as luzes da sessão em que eu estava assistindo Alien: Covenant não consegui acreditar que tinha acabado de assistir uma obra vinda de um diretor que já nos proporcionou obras-primas como Blade Runner, Thelma & Louise, Os Duelistas ou o próprio Alien original – mas acreditei se tratar de algo vindo de um cineasta que conseguiu decepcionar com coisas do nível de Até o Limite da Honra ou Robin Hood – a verdade é que eu torcia para que fosse no mínimo um entretenimento apenas “ok” – como a prequel deste filme, Prometheus, ou até mesmo o superestimado Gladiador – sei que me arrisco ao falar assim deste último.
Enfim, Alien: Coventant. O pior filme da franquia Alien. E não é preciso pensar muito para constatar isso – por mais que as partes 3 e 4 tenham sido desastrosas, ao menos, havia alguma boa intenção de criar algo diferente por trás – o que, em nenhuma escala, ocorre com este novo longa da série. O roteiro incrivelmente sem originalidade de John Logan e Dante Harper não é nada mais do que uma cópia do original de 1979, mesclando/adicionando a melhor coisa que sobrou de Prometheus: o androide David de Michael Fassbender. É ele que abre a história, em uma cena com seu criador, o Dr. Weyland (Guy Pearce, sem a maquiagem de idoso que estava no filme anterior e, inclusive, ainda sem explicar o porquê de usar um ator jovem para interpretar um personagem tão velho), que, aparentemente, dava os primeiros “ensinamentos” a David – o tal momento é um flashback na verdade, em meio aos créditos iniciais – que se finalizam tentando resgatar a abertura do clássico, com as letras formando o titulo e a trilha original.
Se passando cerca de 10 anos depois dos eventos de Prometheus, a trama situa-se no ano 2104, onde a nave estelar Covenant viaja no espaço em direção ao planeta Arigae-6 em uma missão de colonização, com cerca de 2000 passageiros a bordo e em direção a este mundo com condições de vida para os humanos. Em certo ponto antes da chegada, o computador central da Covenant detecta um sinal – não identificado, mas de possível socorro, em um planeta próximo – e que também aparenta ter condições de vida. Seduzido pela hipótese de iniciar a colonização logo ali – evitando uma viagem mais longa – o capitão atual (já que o anterior faleceu em um acidente pouco antes de despertarem do hipersono), Oram (Crudup), decide ir até o tal planeta, mesmo contra a vontade da Dra. Daniels (Waterston), esposa do falecido ex-capitão. Chegando lá, encontram a nave que a Dra. Shaw (Rapace) e David fugiram do planeta do filme anterior – e vão descobrir também que estranhas criaturas habitam e atacam tudo que encontram no desolado planeta em que chegaram.
O roteiro até tenta continuar a discussão filosófica iniciada em Prometheus de ir em busca de nossos criadores (e tentar entende-los) quando foca em Walter (interpretado por Michael Fassbender também), o androide da Covenant, mais especificamente quando este encontra David – resultando, infelizmente, em alguns diálogos decepcionantes – do tipo “eles são gentis, basta serem gentis com eles”, se referindo aos ainda em formação Aliens, que nos já sabemos que NUNCA serão gentis, por tudo que fizeram nos filmes anteriores e com histórias passadas no futuro de Covenant – enfim, essa é só a ponta do iceberg das falhas do filme.
Se Prometheus pecava por começar interessante e descambar para soluções comuns da metade pro final, Covenant é comum do inicio ao fim – não existem surpresas (há a tentativa de uma bem cretina ao final), não há nada que justifique ser tido como uma ficção científica que faça pensar – o que torna ridículo as cenas que tentam mostrar como os nativos do planeta recém descoberto foram mortos – aliado ainda a conduta extremamente sem sentido que David adquiriu – dá onde realmente vem seus ditos sentimentos? Ou sua capacidade de julgar a raça humana e ser juiz e executor ao mesmo tempo? Mesmo sendo até curioso notar as diferenças de comportamento entre os dois androides – Walter não é arrogante como David, por exemplo – aparentemente, com o roteiro escrito as pressas, não houve tempo para desenvolver bem isso.
Mas a falta de originalidade atinge o resto dos personagens – e com mais força ainda. A Dra. Daniels de Katherine Waterston é uma personagem incrivelmente fraca e (não achei uma palavra melhor) chorona – soando irritante muitas vezes, já que é impossível sentir pena dela pela morte do marido se o roteiro o matou antes mesmo de nos o conhecermos – tornando difícil sentir a dor da personagem – que, de resto, tenta (é claro) ser durona igual a Ripley de Sigourney Weaver, em uma composição que nunca foge do comum – não por culpa da atriz, creio eu. E o Oram de Billy Crudup, que tenta impor respeito dos demais tripulantes apenas por se sentir inferior – o que o leva a tomar decisões precipitadas e se mostrar (mais um) medroso – daquele tipo de personagem que se torna um “tanto faz” para a narrativa. Os demais (não leia as próximas linhas se ainda não viu o filme) são apenas criações para morrer mais tarde – com exceção do Tennesse de Danny McBride, que compõe, no terceiro ato, uma certa relação de amizade interessante com a Daniels – mas é só – e, vale lembrar, Alien e Aliens, O Resgate se sobressaiam muito com relação a criação precisa de personagens, que, de fato, despertavam no público uma vontade de torcer por eles – coisa que NENHUM consegue em Covenant.
Parece que a falta de fôlego em contar uma boa história afetou tanto Scott que ele deixou de lado até as cenas de ação e tensão – se o visual da criatura do Alien se mostra comum – nada muito diferente dos filmes passados – é ainda mais triste notar os movimentos um tanto estáticos em algumas passagens – numa aparente falta de capricho por parte dos animadores digitais, que deixam os aliens um tanto... infantis, ou com um aspecto que nos remete a isso – e acaba não impressionando também pela concepção pouco original do design interior (idêntico ao de Alien, O Oitavo Passageiro, mas isso não é um problema) e exterior (lembrando muito a nave de Interestelar e/ou Gravidade até) da Covenant – até mesmo as reconstituições das ruínas do planeta encontrado se mostram bem comuns – nada diferente de ruínas do império romano – jamais se aprofundando em continuar a história dos Engenheiros, vistos em Prometheus.
Com poucos sustos e surpresas – com uma violência moderada até mesmo para a série – é decepcionante notar como Scott conduz de forma pouco inspirada uma cena que remete ao clássico momento onde o Kane de John Hurt “concebia” o alien – sim, tem tentativa de susto com pulo na cara do “facehugger”, o alien ainda pequeno tentando “procriar”. Mas nada que me deixou tão envergonhado quanto a cena em que um certo personagem tenta medicar um outro, infectado pelo vírus alien – com direito a trapalhadas do tipo escorregar no sangue, prender o pé na porta, chorar de um lado pro outro perguntando o que fazer... enfim... uma das muitas tentativas frustradas de fazer suspense – assim como uma quase patética cena do alien interrompendo o sexo de dois personagens no chuveiro – no pior estilo Sexta-Feira 13. Sem falar na solução final que simplesmente é a mesma coisa de outros três filmes da franquia. Triste.
Ridley Scott acaba por manchar seu currículo e a franquia Alien, fazendo um filme tão comum e banal que é difícil acreditar que tenha sido realizado por um cineasta tão experiente. O fato de já ter feito grandes filmes no passado elevou demais seu convencimento de que é um “diretor brilhante” – prova disso é ter aproveitado tão mal Michael Fassbender e seu personagem, que eram a melhor coisa de Prometheus, realmente. Covenant não tem “melhor coisa”. Só resta um final pedindo uma continuação – de forma desleal, já que tenta “enganar” o espectador, que dificilmente estará disposto a esperar a próxima desventura de seus personagens tão mal elaborados e pouco marcantes.