Olha, taí um filme que consegue ser original nos dias de hoje, onde "nada se cria", tão difícil isso... O que eu mais gostei nesse filme é como o tempo futurístico foi inserido nos pequenos detalhes, com uma simplicidade incrível e, acima de tudo, crível. É no pequeno ponto colocado no ouvido pra se comunicar, é no video game de hiper-realidade, ou na nova maneira de ser escrever nos computadores mais rápido: por voz. E são vários os detalhes singelos aqui e ali pra que possamos comprar aquela ideia. Dito isso, difícil não se apaixonar por Samantha. E mais difícil ainda é negar a grande metáfora do roteiro para simbolizar a falta de contato ou aproximação a qual estamos caminhando, a substituição do "humano" pela "máquina". Clichê? Talvez, mas importante. O futuro de "Her" é tão palpável que nos faz acreditar que é perfeitamente possível que aquilo venha acontecer realmente. Afinal, uma voz tenológica que viva conosco, para que nossos vazios existenciais sejam preenchidos, num mundo em que até robôs são diariamente aperfeiçoados, nem é algo tão absurdo de se pensar assim.
Há dois momentos que acho muito especiais, e muito bem filmados ou pensados, além do belíssimo final: 1) a primeira cena de amor entre Theodore e Samantha, em que Jonze simplesmente resolve cortar pro breu total, simbolizando a falta de toque, a falta da presença, muito provavelmente pra que nos colocamos no lugar de Samantha naquele momento, enquanto no resto do filme só vejamos o ponto de vista humano, o Dele. 2) a sequência em que Theodore perde o contato repentinamente com o computador, e corre em desespero, pra depois descobrir uma verdade que lhe dói a alma. É o momento em que o roteiro nos joga na cara, de vez, a superficialidade daquela relação. Um tanto quanto chocante.
No mais, é duro aceitar que Joaquin Phoenix foi tão pouco reconhecido nessa brilhante atuação. Spike Jonze faz questão de focalizar apenas o personagem durante muitos momentos em cena, e dá muitas e muitas chances pro ator brilhar. Desde os closes, até o fato dele segurar o filme, ao menos imageticamente, praticamente sozinho, é tudo muito refletido pra dar grandes momentos a ele. Por outro lado, Amy Adams dá um show de minimalismo. Aliás, ela está se especializando nisso: pegar personagens codjuvantes simples e fazer um trabalho maravilhoso, todo calcado num naturalismo invejável... é uma das grandes da geração atual, sem dúvidas.