Duas, é a quantidade de vezes que a imagem de Hitler aparece no filme. Isso porque não se trata de uma história política que se passa por trás das trincheiras nem de uma lição moral sobre acontecimentos históricos. É um filme sobre palavras e sobre seres humanos. No lugar de tiroteio e campos manchados de lama e sangue, temos pessoas lutando suas próprias batalhas e se esforçando para sobreviver em meio ao contexto de uma guerra e suas consequências. E eu os asseguro: vocês nunca assistiram um filme ambientado na Alemanha nazista como este.
Num cenário completamente branco, sobre as nuvens, ouvimos a voz de nossa narradora pela primeira vez. E num cenário completamente branco, sobre a neve, temos o primeiro vislumbre de nossa protagonista. A partir daqui, elas vão caminhar lado a lado: a Morte e Liesel Mimenger tornam-se companheiras de jornada. E quando a Morte conta uma história, você deve parar para assistir.
A de Liesel começa em uma viagem de trem, em direção a uma pequena cidade. No caminho, ela é surpreendida por um desagradável acontecimento que leva ao roubo de seu primeiro livro. Liesel é uma menina que se vê obrigada a afastar-se da mãe comunista e viver com pais adotivos. E é na casinha da pequena cidade onde seus novos pais moram que ela aprende o valor das palavras e as contradições do ser humano que tanto intrigam nossa narradora.
A ambientação e a caracterização dos personagens são os maiores trunfos do longa, combinadas à qualidade do elenco e aos sutis detalhes e efeitos utilizados para a passagem do tempo.
A primeira parte do filme é bastante lenta e caminha em ritmo de apresentação, envolve o espectador no novo mundo de Liesel como se dissesse: “acomodem-se, sintam-se em casa, essa é sua nova rua, esses são seus novos pais, Rosa e Hans Hubermann, e essa é sua nova vida, agora preparem-se para o que está por vir”. Mas não esperem que as mudanças venham acompanhadas por explosões e ação de guerra. Elas vêm por meio de pessoas, como o judeu Max e sua capacidade de entender os anseios de Liesel. Como já dito, acima de tudo, é um filme humano! Portanto, são as caraterísticas emocionais que sobressaem na trama vista pelos olhos da Morte a observar a vida de uma criança.
Devo admitir que, em diversos momentos, senti falta da narradora. Suas palavras são tão comoventes e pertinentes que o espectador fica a ponto de se afeiçoar a ela, até o momento em que ela aparece em sua melhor forma, afinal, estamos em pleno auge da Segunda Guerra Mundial. Talvez uma maior exploração da narração fizesse com que as cenas fossem melhor estruturadas e os acontecimentos mais bem encaixados uns nos outros. Apesar disso, A Menina que Roubava Livros é extremamente sensível e apresenta a guerra sob uma perspectiva completamente diferente. As muitas frases de efeito (e apelidos carinhosos) não diminuem a importância dos diálogos, que asseguram que o espectador possa rir e, ao mesmo tempo, refletir a vida em meio à guerra.
“Se seu olhos pudessem falar, o que eles diriam?”, pergunta Max a nossa protagonista. Diriam “Os humanos me assombram”, fazendo minhas as palavras da Morte, “mas também me encantam”. E toda essa contradição se mistura aos livros, a um menino com cabelo cor de limão, a um judeu especial, à Morte, ao amor dos pais adotivos, a uma menina corajosa e aos gritos de “Eu odeio Hitler. Ele tem cara de bunda!” para dar vida a um filme delicado, emocionante e com não uma, mas milhares de guerras eclodindo dentro de cada pessoa.
A crítica continua no blog, com ênfase na adaptação.