Adaptações cinematográficas, são sempre uma grande incógnita. Os fãs esperam um filme fiel ao livro, e os produtores desejam algo que seja acessível ao grande público. Nesse “embate” quem sai perdendo são sempre os fãs. “A Menina que Roubava livros”, ao contrário do que se imaginava é bastante fiel ao livro. Porém, talvez seja essa fidelidade, o maior problema do filme.
Narrado por Roger Allam, que também faz o papel de “morte”, à adaptação da obra de Marcus Zusak, se passa durante a Segunda Guerra Mundial, onde uma jovem garota chamada Liesel Meminger (Sophie Nélisse) sobrevive fora de Munique através dos livros que rouba. Ajudada por seu pai adotivo (Geoffrey Rush), ela aprende a ler e partilhar livros (proibidos na época), com seus amigos, incluindo um judeu (Ben Schnetzer) que vive na clandestinidade em sua casa, e Rudy (Nico Liersch), colega de classe da mesma. Além de sofrer com a adaptação à nova família, ela ainda tem que lidar com sua temperamental mãe adotiva (Emily Watson).
A excelente ideia do livro, de colocar frente à frente à morte e Liesel, é mal aproveitada pelo filme. No total são 3 encontros entre ambos, por menorizados no filme, com narrações em off, sem qualquer apelo dramático. Dessa forma, é difícil compreender o porque do tom adotado pelo narrador (já que o filme adotou outro estilo). Ainda que seja sarcástico e de humor negro, a sensação é a de que se ela não existisse, não faria diferença nenhuma para o resultado final. Subaproveitar um argumento como esses, é o menor dos problemas com o roteiro.
Para termos de comparação, o filme de Brian Percival, lembra muito “O Menino do Pijama Listrado” de Mark Herman. Ambas as obras se passam durante a Segunda Guerra Mundial, e tem como protagonistas jovens, que são obrigados à amadurecer por causa da guerra. E nesse ponto cabe um elogio à Sophie Nélisse. Sua atuação, ainda que sofra com problemas no roteiro, é realmente ótima. Ela consegue expressar muito bem todo tipo de emoção, sem exagerar, sempre no tom correto, conseguindo fazer frente à outros tantos ótimos atores no elenco. Porém, o tom melodramático adotado por Percival é o mesmo de Herman, e por isso, ambos pesam a mão no principal ato do filme, à conclusão, prejudicando não só às atuações, bem como a própria história.
Se por um lado, tudo seja muito bem conduzido ao longo de boa parte do filme. Parece que o final, foi feito de forma acelerada. Ao invés de aproveitar seus dois principais talentos em tela, Geoffrey Rush e Emily Watson, Percival simplifica e atenua o impacto de seus acontecimentos. Dessa forma, é evidente que a direção e roteiro foram para lados opostos. A metáfora sobre a paz, se perde na mera literalidade das palavras, sem qualquer efeito no filme.
No que tange o aspecto técnico, “A Menina que Roubava Livros” é realmente incrível. A fotografia muda de acordo com o ambiente e época do ano (cinza e azul no inverno, branco e amarelo no verão). O som, na maior parte das vezes pianos, modificam totalmente à percepção de algumas sequências (não é a toa que foi indicado ao Oscar). E o figurino, extrapola muitas vezes o que nós vemos. A cor das peças simbolizam sentimentos, emoções e acima de tudo, expressam opiniões (tal como a roupa utilizada por Ilsa Hermann).
O Best Seller de Markus Zusak, tinha tudo para ser uma das melhores adaptações literárias, mas esbara justamente nos mesmos erros de outros filmes. Um lindo argumento sobre a paz, acaba perdido dentro de tanto melodrama. Nessa linha de raciocínio ”A Menina que Roubava livros” não passa se um transposição sem alma, do que temos no livro. O cinema, ainda tem muito que aprender nesse tema. A guerra, seja ela qual for, não pode se limitar à contar histórias de vida ou morte, e sim questionar: do que realmente se trata viver ?