Era uma vez...Era uma vez... De novo e de novo...Era uma vez a "Era do remake". Com as atuais refilmagens de clássicos e releitura dos contos de fadas, é perceptível a febre que tomou as salas dos cinemas, os seriados de tv, os livros.. Falar sobre Malévola, o novo filme com Angelina Jolie, produto original da poderosa “fábrica” Disney, sem compreender o contexto da realidade, ficaria sem sentido. Portanto, vamos mergulhar primeiro no filme e relembrar fragmentos infantis da nossa memória em que a Malévola era verde, muito perigosa, muito malvada e demoníaca. Aurora, bom a historia era da Aurora, sonhadora, dorminhoca, angelical, cantante e com cabelos esvoaçantes, assim era a bela adormecida.. Porem o recente filme do diretor Robert Stromber, decide mudar a protagonista, e convida o espectador a conhecer o mundo da vilã, repleto de seres encantados , narrando a sua historia, desde a pura e libertaria infância, na qual Malévola voava sem medo ,sem limites na imaginação(a vilã era uma fada com asas) e a dura transição para o mundo adulto.
Com uma decepção amorosa de “cortar as asas” e não o coração e nem os pulsos ,pois esse universo é Disney, Malévola fica amargurada e cai na depressão, escurecendo seu mundo fantástico e colorido. Vítima, ela cai em contradição com seu desejo de vingança, ao longo da história.
O filme tem seus méritos, oferece momentos de poesia, como uma suposta “alegoria das asas” da Malévola, a perda da liberdade, a desilusão, mesmo que clichê, funciona nesse universo. Os incríveis efeitos especiais, a caracterização da personagem, o figurino, a direção de arte, que contribui para se ter a sensação de estar em um sonho. Surge então a hipótese de que o visual do filme foi feito com a intenção de ser o olhar sombrio da protagonista, em que a floresta seria o seu interior, os seus sonhos, ate que eles entram em choque com o mundo exterior “mundo real”, e assim se sucumbe aos espinhos representando sua dor.
Ao entrar no deslumbrante mundo das fadas, os detalhes, as criaturas, o momento de levitação de aurora, o paradoxo da incredulidade no amor verdadeiro, em meio a tanto seres fantásticos difíceis de se acreditar, a sensação é prazerosa. E pode trazer algumas referencias do universo fantástico e dramático de William Shakeaspere, principalmente a ambiguidade e a complexidade do amor de Malévola.
Angelina Jolie cumpre o esperado com sua atuação, e com maquiagem incrível idealizada pelo ótimo Rick Baker, alias ela se diverte totalmente no papel lançando trovoes e jogando soldados nos ares com simples movimentos das mãos.
O filme consegue trazer a tona um tema com que nos dias atuais está banalizado, o “amor verdadeiro”, portanto bem colocado com certas doses de ironia. É uma historia de amor, é uma maldade bela, é uma inversão de valores, em que os bons não são tao bons assim e os maus também. Nesse ponto, o filme é agradável , tem um certo carisma e funciona como um bom divertimento com grandes chances de conquistar muito mais o publico feminino. Fica notável as cenas de fofura, com as fadas e a pequena princesa , e os sentimentos maternos que a “vilã” nutre por ela, lembrando que Angelina atua com a própria filha, nesse momento os suspiros femininos da plateia são constantes.
Contudo, voltando ao assunto anterior , a impressão que se tem no final, é ver o filme como apenas um produto, na realidade, tornando-se vazio, de conteúdo fraco, cheio de efeitos, cores, roupas, cenários mirabolantes, cenas de batalhas,seres fantasticos diversos, diretamente na prateleira do mercado cinematográfico. Existem outros filme com esses ingredientes “comerciais”, são sucesso de publico e crítica, porém a diferença é que os ingredientes são bem colocados, tem conteúdo, um roteiro caprichado, diálogos inteligentes, atuações marcantes, muita emoção, desenvolvimento dos personagens, etc .
Criar uma personagem feminina linda, poderosa, sem ter a cara verde, magra, com rosto anguloso, com personalidade forte, sensual, elegante, com maquiagem e figurino marcante pode ser um grande aliado para o mercado da moda e de cosméticos começar a lançar coleções para faturar muito, como já é o caso da MAC, Ellus, etc ,e outros editoriais já publicados pela internet. Fazer uma releitura pop com seres mágicos , batalhas medievais, dragões, com tons sombrios para a nova geração “hig tech” também é uma ótima ideia lucrativa para Disney. Adaptações como “A Branca de Neve e o Caçador” de Rupert Sanders, “Alice no país das maravilhas” de Tim Burton, seguem por esse mesmo caminho. É nesse limbo que o diretor estreante se perde, a historia fica sem muita emoção, com cenas rasas e sem impacto. É um desfile de efeitos, de belas imagens mas que não empolgam. Toda a atenção fica para Angelina Jolie, enquanto os outros são reles coadjuvantes mortais. É uma pena que o talento de Elle Fanning foi apagado com tanta magia e beleza. Até a relação com o seu próprio pai, príncipe e as fadas é superficial. Talvez o filme reflete bem o período que o cinema enfrenta, “Remake ostentação” ou nesse caso “Fadas ostentação”, em que a preocupação é lucrar e divertir sem pretensão, gastando milhões e milhões para isso, com muito “mais do mesmo”, e o que poderia ficar interessante, fica sem graça, repetitivo. Não a toa o talentoso Michel Gondry jogou suas indiretas, ou melhor, diretas, para essa nova era, com o filme “Rebobine por Favor”, porém o que se tem nesse filme é um elogio nostálgico e não banal. É uma forma criativa de reler o passado, com graça, com simplicidade e ironia, estimulando o “ fazer cinema” e ao mesmo tempo criticando as refilmagens megalomaníacas e desnecessarias.
Contudo “Malévola” já é um sucesso de bilheterias brasileiras com sua estreia, e apesar de seus deslizes cinematográficos, a “persona” de Angelina Jolie tem tudo para ser uma heroína do público , alias o filme destaca-se de seus antecessores que seguiram por esse caminho. Robert Stromber conhecido por seus belos trabalhos de production designer em “Alice no país das maravilhas”, “Oz Magico e Poderoso” e “Avatar”, já pode comemorar a sua estreia lucrativa como diretor.