Assistindo a “12 anos de escravidão” eu percebi o quanto a luta de nós gays é parecida com a luta dos negros contra a escravidão.
A cada chibatada recebida pela atriz Lupita Nyong'o eu me lembro de um xingamento recebido durante toda minha vida. Uma chibatada é igual a escutar: Seu viadinho nojento. Uma chibatada é igual a escutar: sua bicha louca.
Eu cresci tomando chibatadas. Mas ao contrário dos negros, que eram açoitados e depois recebiam o apoio da família, eu cresci recebendo chibatadas até dos meus irmãos, dos meus amigos, do meu pai.
E essas chibatadas doíam tanto quanto a chibatada que corta a carne.
No filme, um negro liberto é sequestrado e colocado novamente à venda como escravo. E Cada vez que leio sobre algum retrocesso em relação à negação de direitos civis a gays eu sinto como se minha liberdade tivesse sido tomada. Quando li que o Deputado Feliciano iria assumir a presidência da comissão de direitos humanos, quando li que a Rússia aprovou um lei anti-gay, quando li que um país africano agora condena gays a prisão, eu me senti como Solomon Northup, acorrentado novamente, humilhado, indignado.
Você, que é contra o casamento gay, que acha que tem um direto divino em ser contra os avanços em relação aos nossos direitos, que apoia Feliciano, Bolsonaro, etc, você não é nada diferente daqueles que açoitavam os negros em tempos de escravidão.
Você que acha que tem o direito de ser contra nós, você é igual àqueles senhores que compravam gente, que estupravam negras, que separavam mães de filhos.
Você que acha que tem o direito de não gostar de nós, você é igual àquele capataz que tem o direito de espancar um negro por que quer.
Você que acha que crianças não podem ver dois homens se beijando é igual à mulher do fazendeiro escravista, que não açoitava os negros com suas próprias mãos, mas achava que não havia nada de errado em alguém os espancar.
E vendo o filme, eu pedi a Deus que pessoas que fizeram o que fizeram com os negros não recebessem a misericórdia divina, que pagassem de alguma forma, assim como desejo a pessoas que negam os direitos civis a gays, que acham que casais gays não devem adotar crianças, que acham que nós gays devemos continuar a ser tratados como cidadãos de segunda categoria, que essas pessoas sejam punidas de alguma forma por Deus.
Quando Brad Pitt aparece no filme como um defensor dos direitos dos negros, quando ele diz que negros e brancos são iguais, me senti como deve se sentir alguém que está se afogando mas consegue chegar a superfície e dar uma respirada profunda de alívio. Na mesma hora, comparei Brad Pitt a Jean Wyllys, maior defensor dos direitos civis gays do nosso País. E nessa hora eu tive esperança. Esperança de que estamos seguindo em frente e que nosso caminho em direção à igualdade não tem volta.
Ainda temos muita estrada pela frente, e assim como os negros, vamos ter todos os nossos direitos assegurados. Meus irmãos, meus amigos e meu pai já não me chicoteiam mais, graças a Deus,se tornaram pessoas maravilhosas, mas continuo pedindo a Deus, pra guardar àqueles que são diariamente açoitados pelos grossos chicotes do preconceito.