A trama do filme “Mama”, dirigido e co-escrito pelo espanhol Andrés Muschietti, tem origem num curta-metragem também escrito e dirigido por ele, chamado “Mamá”, lançado em 2008. Nesse curta, acompanhamos a jornada das irmãs Victoria e Lili, que buscam fugir de casa após perceberem que sua mãe não se encontra no local. Esse é o tipo de premissa bastante estranha, pois não é natural que duas filhas queiram fugir da sua mãe. Porém, o que “Mama” permite ao espectador (até mesmo porque a estrutura narrativa de um curta-metragem é muito diferente da de um longa-metragem) é adentrar na realidade assustadora e agoniante dessas duas irmãs, de forma a percebermos que o desejo de Victoria e Lili é perfeitamente normal.
O roteiro escrito por Neil Cross, Andrés Muschietti e Barbara Muschietti trabalha bastante com o conceito da obsessão, de acordo com a acepção desta palavra dentro da doutrina espírita. Desde a primeira cena de “Mama”, que retrata o sequestro de Victoria (Megan Charpentier) e Lilly (Isabelle Nélisse) pelo próprio pai (Nikolaj Coster-Waldau), após este assassinar a sua esposa e o seu sócio, o que assistimos é a uma série de situações em que as personagens do longa estão, claramente, sofrendo uma influência prejudicial, seja de espíritos encarnados ou desencarnados. E esse será o fator fundamental para desenrolar toda a gama de acontecimentos que fazem parte de “Mama”.
Em sua essência, o filme é uma obra do gênero de terror, na medida em que a atmosfera criada pelo diretor Andrés Muschietti é envolta por algumas cenas deveras assustadoras, porém, na realidade, “Mama” é um thriller psicológico, pois o roteiro se dedica a um estudo daquilo que condiciona, não só o comportamento das duas irmãs (que se encontram muito facilmente subjugadas ao domínio exercido pela personagem que dá título ao filme, muito em parte por causa do encontro entre elas ter se dado num momento de vulnerabilidade emocional, em que a formação de pensamento delas ainda não estava totalmente processada), como também dos tios de Victoria e Lilly, Lucas (Nikolaj Coster-Waldau, no seu segundo papel no filme) e Annabel (Jessica Chastain), que nunca desistiram de procurar as sobrinhas (por razões que nunca ficam muito claras) e que tentam ajudá-las nessa difícil tarefa de readaptação a um mundo que elas deixaram para trás – não por sua própria opção.
Além de marcar a sua estreia no cinema norte-americano, “Mama” também representa a primeira incursão de Andrés Muschietti num longa-metragem, após dois curtas no currículo. Para tanto, o espanhol contou com um apoio de peso na sua empreitada: o produtor/diretor Guillermo del Toro, que, além de ser um entusiasta do gênero de terror/suspense, deve ter dado toda a liberdade criativa necessária para que Muschietti desenvolvesse seu filme da maneira como o idealizou. Com certeza, e isso está refletido em cada cena de “Mama”, o espanhol teve segurança necessária para fazer um filme que, apesar de se apoiar em clichês mais que batidos do gênero de terror/suspense e de ter alguns furos de roteiro, consegue cumprir o seu papel, na medida em que coloca a plateia num clima de apreensão e de medo que não termina após os créditos finais.