O filme O Doador de Memórias, baseado no livro de mesmo nome de Lois Lowry, "pega" o público de várias formas e, à semelhança de Divergente e Jogos Vorazes, a esperança e a luta vêm dos adolescentes. Uma das boas sacadas é o uso de imagens em branco e preto do início (dominação total) para a gradual introdução de cores (que significa a tomada de consciência, o não ser massificado; o insurgir-se contra o "status quo"). Não é mais uma história sobre adolescentes, mas, ao contrário, com uma narrativa coerente e bem estruturada, traz uma crítica ao autoritarismo, ao privilégio de informações e a toda e qualquer forma de manipulação. Muito bem colocada, também, a questão do empobrecimento cultural, emocional e existencial, em nome de uma "perfeição social", que está muito distante disso, apontando as várias falhas do sistema. A violência sempre presente e a necessidade de sufocar e eliminar qualquer tentativa de insubordinação, o que vale dizer, a perda do poder do que domina. O filme retrata uma sociedade futurista que aboliu tudo o que poderia não ser bom: emoções, família consanguínea, pluralidade profissional, sexo, etc... Tudo é massificado: o modo de falar, as residências, o alimento, os eletrodomésticos, as roupas. Ninguém escolhe a profissão, que é exercida desde a designação (por volta da adolescência) até a velhice. Os idosos vão para um lugar distante e inacessível. Bebês têm um futuro duvidoso, em nome de regras pré-estabelecidas. A sociedade é isolada de várias maneiras, inclusive geograficamente. Há um limbo desconhecido após os limites da cidade. Os protagonistas, principalmente Jonas (Brenton Thwaites) é o pivô da insurreição, pois já sendo diferente, se opõe ao regime ditatorial. Sua parceira, Fiona (Odeya Rush) também começa a perceber que há algo errado e o auxilia. A irmã de Jonas, Lilly (Emma Tremblay), também é diferenciada, ficando para a chefe Elder (Meryl Streep), a incumbência de manter a sociedade "equilibrada".