“Noé” e a solidão da existência
Mário Bentes
Há pelo menos duas formas de abordar "Noé", filme dirigido por Darren Aronofsky e estrelado por Russel Crowe. A primeira, e dispensável, é avaliar a história do ponto de vista pragmático ou realístico – o que já soa tolo, já que estamos falando de uma conhecida parte da mitologia bíblica, a “Arca de Noé”. Seria diferente se fosse o caso de um filme histórico ou, ainda falando do aspecto bíblico como ponto de partida, se a película fosse baseada ao menos os trechos considerados históricos do livro sagrado das religiões judaicas-cristãs.
A segunda e mais importante é considerar a mitologia, seus elementos descritos na narrativa do livro de Gênesis, e compará-los com o roteiro escrito por Ari Handel e pelo próprio Aronofsky. Partindo desse princípio, é bom salientar que o épico nem de longe é – ou tenta ser – uma representação fiel do primeiro dos cinco livros do chamado Pentateuco. Sobram licenças poéticas e adaptações narrativas, como a inicial, em que somos apresentados ao contexto anterior do dilúvio divino.
De cara, somos lembrados da Criação e a personificação humana inerente a ela: Adão, Eva e os primeiros filhos. Um parêntese: nesse ponto, quem não tem muita afinidade com a narrativa bíblica poderia achar que Sete (Ou Seth ou ainda Set) nasceu na mesma ocasião em que Caim e Abel, sendo o caçula de três irmãos – e não tendo nascido, na “realidade”, apenas após a morte de Abel por Caim, como uma resposta de deus ao primeiro assassinato.
Mas a grande licença poética já colocada diante do público – para sustentar alguns atos do roteiro mais à frente – é a existência dos “Guardiões”. Inicialmente chamado de gigantes, eles são anjos que se lançaram dos céus para ajudar os homens, mesmo contra a vontade do todo-poderoso.
Como castigo, tornam-se parte das pedras onde caíram, em um efeito interessante do fogo flamejante de sua natureza de luz que se mistura às próprias rochas do solo. Condenados a uma existência petrificada, são hostilizados pelos próprios homens a quem queriam ajudar, salvo por um deles: Matusalém, o homem que, segundo a Bíblia, foi o que viveu mais tempo e é, obviamente, parte da ascendência de Noé.
Biblicamente falando, os anjos que desceram dos céus nesse período o fizeram para outras finalidades não muito nobres: na “verdade”, eles abandonaram o status de anjos adoradores de deus para tomar a forma de homens e se relacionar sexualmente com as mulheres da Terra. O resultado desse intercurso sexual não permitido pelo Criador apareceu justamente nos filhos. Eles sim, gigantes que espalharam a maldade e que acabariam levando Jeová a destruir a então pequena humanidade por meio de um dilúvio.
Um deus ausente
Outro elemento que foge ao padrão de Gênesis é a “ausência” da figura divina enquanto personagem. Se, por um lado, há um Criador presente e falante nos primeiros tempos das escrituras, vivo como os demais na mitologia e demonstrando por meio de palavras o que deseja, em Noé temos uma versão inescrutavelmente silenciosa, para não dizer omissa. O personagem deus é quase uma sombra, uma lacuna para onde os homens olham e nada veem; suas manifestações são tão sutis que mesmo Noé, no filme, apresenta momentos em que brada e clama para ouvir suas respostas.
Não é diferente o caso do antagonista da trama, Tubalcaim (bisneto de Caim, segundo a Bíblia), que pela mitologia faz parte da linhagem maldita do bisavô assassino e, por suposição, não teria a necessidade de ouvir a voz de seu Criador. Mas ele tem e demonstra isso. Nota-se certo discurso hegemônico a respeito de deus: ele não responde aos homens, ele os abandonou à própria sorte após a queda de Adão e Eva e sua expulsão do Jardim do Éden. Ele permanece em silêncio.
Tubalcaim e os Guardiões têm a mesma função no roteiro de Handel e Aronofsky: eles são os ingredientes que ajudam o filme a ganhar movimento e agilidade, preparando o terreno para um confronto que não existe na Bíblia:
sabendo do que vai acontecer – o dilúvio –, Tubalcaim lidera os governados da imensa cidade de Enoque (nome do primeiro filho de Caim; não confundir com outros Enoques das escrituras) para tomar a arca construída por Noé e sua família, com a ajuda inesperada dos anjos petrificados
.
Tal modificação na trama é mais que licença poética, é uma necessidade; já que o Gênesis leva muitas páginas em uma maçante descrição da genealogia de Adão, incluindo a de Caim – o que não ficaria nada interessante do ponto de vista fílmico. A desnecessária – e que mais parece que foi a forma que os roteiristas e o diretor encontraram de inserir Anthony Hopkins no projeto – é a presença meio fora de ordem de Matusalém, bisavô de Noé.
Sua função primordial foi realizar um toque divino no ventre da esposa de Sem, tornando-a capaz de gerar filhos
.
À imagem e semelhança
Mas, se de um lado a presença de Matusalém é restrita, as consequências de seu ato junto à esposa de Sem dão uma invertida no roteiro, ou, ao menos, no personagem de Noé. Na Bíblia, Noé é escolhido por deus por sua bondade e retidão. E, portanto, merece viver na nova Terra que se levantará das profundezas do mar sem fim. Embora se apresente assim no começo, logo o protagonista da versão cinematográfica se converte
em um fanático que não vê limites para obedecer às ordens de cima
.
A pouco tempo do momento derradeiro, ainda temos tempo de ser apresentados à realidade dos homens da linhagem de Caim, sua natureza visceral e desprovida de aspectos de sociedade civilizada.
Acampados nas imediações da área onde Noé e sua família erguem a grande embarcação, tentando descobrir a melhor hora ou ocasião para vencer os Guardiões e tomá-la, eles mostram que podem fazer de tudo para ter alimento. Em meio ao caos, vender as próprias filhas para ter carne ou outro alimento é algo mostrado como sendo parte daquela realidade.
Nesse ínterim, constatamos que não há diferenças entre Tubalcaim e Noé, porque ambos recorrem a tudo o que for necessário para atingir seus objetivos.
Talvez por notar em si essa mesma característica, Noé, já na arca, conclui que a escolha dele e sua família por deus não aconteceu para salvá-los; mas para executar uma tarefa específica: construir a arca e salvar os animais. E que todos eles – Noé, esposa e filhos –, deverão morrer uma vez concluído o plano divino.
Eles não morrem, evidentemente, já que seria uma desvirtuação forte demais em relação à obra em que o filme se baseia. Noé compreende, da pior forma, que o próprio deus colocara as rédeas de tudo e suas mãos, seja pelo livre-arbítrio ou pura omissão. Mas a sobrevivência é um saldo que nada justifica toda uma equação composta de variáveis como sangue, violência e morte. No fim, é como se tudo o que chamamos humanidade fosse o resultado de lutas tribais ou como se fôssemos pequenos grupos de formigas rivais que se autodestroem enquanto lutam desesperadamente para se equilibrar sobre uma folha ao vento.
E se deus destrói aquilo que cria, ou não se move para evitar a destruição, o homem também o fará e permanece fazendo. De novo, e de novo, independente de quantos dilúvios se derramem sobre a Terra. Porque, independente da retidão de uns e da maldade de outros, sempre teremos as rédeas da existência, ainda que lancemos a responsabilidade nas costas de um Criador. Sempre seremos nós os responsáveis pelo fim – ou pelo recomeço.
Seja como for, estaremos irremediavelmente sós.