Normalmente não tenho paciência para musicais e devo confessar que se não houvesse nenhuma indicação ao Oscar para este filme, eu dificilmente pararia para assisti-lo. Embora nem sempre certeira, as indicações ainda servem como parâmetro de qualidade.
As atuações são excelentes, principalmente do trio Jackman, Crowe e Hathaway, especialmente desta última que contagia com sua desesperança (a palavra desespero não soaria tão apropriada) ao cantar a linda canção "I Dreamed A Dream". Seus soluços fariam uma pedra chorar. Eu chorei. Mais de uma vez. Além dessa, há também uma outra música muito boa, cantada em duas versões como a primeira. Os versos de "Look Down" caberiam em uma boa canção de heavy metal (com adaptações, claro). Hugh Jackman também não decepciona como cantor, mas Russell Crowe não tem o alcance vocal necessário. Não chega a desafinar, mas penso se a escalação de outro ator não seria mais correta.
Além disso, vem a história. O romance de Victor Hugo é reflexivo, podre, miserável. Há sofrimento do início ao fim, mas também muita dúvida, questionamentos e atos altruístas de ambos os lados, perseguidor e perseguido, numa caçada de gato e rato que se prolonga por anos. Não há um vilão. O próprio vilão é a vida (e eu gosto de estórias assim). Não é a toa que um dos maiores (senão o maior) prêmios da literatura receba o nome de seu autor.
Apesar disso, é preciso lembrar que o filme é adaptado do musical da Broadway, não do livro original. Mas, como musical, tem um ponto positivo que normalmente outras adaptações de livros não tem. Ao ler um livro, temos plena ciência do pensamento das personagens, enquanto ao ver um filme isso é muito difícil. Com Javert e Valjean cantando o que sentem, essa aproximação entre cinema e literatura é bem mais eficiente.
No entanto, mesmo com uma estória tão boa por trás, ainda fica chato e moroso em algumas partes. A participação de Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, como alívio cômico não encaixa muito bem e o personagem de Eponine, quando moça, não consegue cativar, apesar de tudo que a moça faz. A história de amor entre Cosette e Marius também é rápida demais. A premissa do amor à primeira vista pode até funcionar, mas é arriscada. E nesse caso, tira pontos do filme no geral.
Pra finalizar, temos a revolução como pano de fundo. Embora com cenas marcantes e inesperadas (não vou contar do que estou falando), o contexto histórico fica muito mal explicado para quem não conhece a fundo a história da França. Num veredicto geral, o filme fez jus a suas indicações e vale muito a pena ser assistido (mais de uma vez), mas algumas partes poderiam ser limadas, não em busca de dar mais agilidade à trama, mas, como num CD, para torná-lo ainda mais indispensável.