Este é um legítimo "filme para adultos". Adolescentes de quaisquer idades não devem assistir este filme.
Não sei quantos aqui passaram pela experiência de acompanhar proximamente a decadência, a morte em vida de um ente querido. Não sei quantos aqui imaginam quão solitária pode ser a existência dos pais, após os filhos terem ido embora para cuidar da vida. Enfim, não sei quantos aqui têm consciência do significa o amor ao companheiro numa relação de décadas, num mundo tão marcado pelo imediatismo, pela exigência generalizada da perfeição (de corpo e de alma) e pelas aparências rasas. Michael Haneke nos faz questão de nos relembrar o significado dessas coisas num filme realista, chocante e profundamente emocional - já que a aparente frieza dos atores abre espaço para que sintamos o drama que escurece suas vidas. O filme é lento, sim. Mas isso é absolutamente necessário, para que tenhamos o tempo para nos possamos ficar imersos na nova realidade que se imporá ao casal.
Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva - que apareceram também em diferentes segmentos da "Trilogia das Cores", de Kieslowski - fazem aqui, provavelmente, as maiores interpretações de suas longas carreiras. Ele, como o marido que se devota integralmente à esposa, após ela ter sofrido um derrame cerebral; ela, a esposa que vai sendo aos poucos desconstruída pela doença, sem que pouco ou nada seu marido possa fazer, a não ser amá-la e cuidar dela até o fim.
Palmas também para Isabelle Huppert, que faz o papel da filha independente há tempos longe de casa, e que se sente absolutamente impotente para fazer o que for por conta de sua separação dos pais. Ela simplesmente não consegue entender a situação, porque ela é jovem demais para ter tido essa vivência. E seus pais - por amor - simplesmente não querem envolvê-la nesse turbilhão que desestrutura completamente suas vidas.
Inclusive, em um dos diálogos que ela tem com o pai, ele fala: "Suas preocupações não me ajudam em nada. Não me entenda mal, não é uma crítica. Não tenho tempo para suas preocupações."
O final do filme é chocante, embora não necessariamente surpreendente. E nos coloca a questão que volta e meia vem à tona: o que é preferível, uma vida indigna ou uma morte digna? A resposta fica em aberto, e depende tão somente de cada um de nós.