No Limite do Amanhã
Quem nunca assistiu um filme onde não se via os cortes na montagem? Quem nunca assistiu um filme que a narrativa fluiu de modo que nem se percebeu as sutis mudanças de ângulos? Outros tantos, tem no inverso, uma forma menos usual, mas que também funciona. Vários filmes tem na pós produção a oportunidade de redenção. Em especial, na ilha de edição, que é, onde a mágica acontece.
No Limite do Amanhã é um filme de 2014, uma adaptação do romance All You Need is Kill (tudo que precisa é matar, em tradução livre), de Hiroshi Sakurazaka. Dirigido por Doug Liman, estrelado por Tom Cruise e Emily Blunt, com a atuação sem necessidade de retoques de Bill Paxton como Master Sergeant Farell.
Nessa ficção, a Europa é tomada por alienígenas nominados Miméticos. Seres extremamente violentos e letais, que são organizadas socialmente como uma ‘’mente coletiva’’, coordenados por um elo com o líder, chamado Omega. Quando procurei o significado dessa palavra, vi que tinha tudo a ver com as principais características desses aliens: acomodação, adaptação, reprodução. Esta última, no sentido de repetição. Tudo se encaixava.
Bill Cage, personagem de Tom Cruise, é um ex publicitário americano, engajado no exército dos Estados Unidos, contudo, foi trabalhar para o exército inglês. Ele é posto contra sua vontade na linha de frente da última batalha na ‘’Operação Queda’’, contra os Miméticos, na invasão à França para registrar os acontecimentos em batalha. Entretanto, durante a entrada, que acontece na praia, ele é morto junto com um dos miméticos alfa, e ao ser banhado pelo sangue do alien, ganha o poder de repetir o mesmo dia. Tendo como uma espécie de instrutora e par romântico, Rita Vrataski (Emily Blunt) que passou pelo mesmo ocorrido que Cage, o looping (repetição) diário. Eles tentam encontrar uma forma de, ao repetir o mesmo dia, aprender uma estratégia eficaz, para vencer essa invasão.
Se tem um tipo narrativa que facilmente perde a atenção de qualquer espectador num filme é a repetição. Mas existe um antídoto para equilibrar o jogo, mantendo a atenção do espectador, inclusive, tornando essa repetição mais interessante. Essa é uma das ferramentas mais usadas para dinamizar esse tipo de narrativa de filmes de ação. A elipse (cortar, apagar) é muito usada em quase todos os filmes, é uma forma de omitir algumas partes desnecessárias do filme, dando dinâmica ao mesmo. Não vemos muitas vezes, por exemplo, as personagens indo ao banheiro, tomando banho, sacando dinheiro, ou se alimentando. A não ser que seja uma cena importante comercialmente ou importante para a trama. Para ficar em apenas um exemplo de elipse nesse filme: durante o treinamento de Bill Cage por Rita Vrataski em um ambiente que simula a luta contra os miméticos, ele sofre algum tipo de ferimento grave. Daí, Vrataski o mata para que o dia seja ‘’reiniciado’’. Consequentemente, todo o resto do dia é elipsado (cortado, apagado). Cage apenas acorda no mesmo lugar de sempre, tendo que recomeçar a mesma jornada, e nós não vemos o resto do dia passar, para só então, chegarmos a cena onde ele acorda. A outra ferramenta usada nesse filme é a mudança constante e sistemática da imagem. Sem este recurso, seria quase que impossível, assistir tal longa metragem. Tudo isso somada a muita cena de ação. Para se ter uma ideia, em média um filme troca de imagem a cada 4 segundos. Nesse filme eu contei a média de 3 segundos, chegando em alguns pontos críticos de ação de uma média de 2 segundos. Isso mantém o espectador totalmente tenso e preso na trama. Essa técnica de cortes rápidos e frenéticos remonta do período do desenvolvimento da montagem cinematográfica soviética do cinema russo, lá no início do século XX. Esse filme, sem dúvida, é um daqueles que a montagem foi fundamental para tolerância do espectador e na compreensão da narrativa. As sequências apresentadas nas imagens é o que define o sentido do filme. Mais do que aquilo que se encontra espacialmente no filme.
A montagem é o processo da criação que dá sentido a um filme. Técnica que quebra as relações do cinema com o teatro. Criando sua própria linguagem. Se estabelecendo como uma arte com vida própria. Bem utilizada, é capaz de nos fazer apreciar longos planos-sequência ou nos entreter com os rápidos cortes como em No Limite do Amanhã.