Há 4 anos, Neil Blomkamp estreava no cinema com uma sci-fi inovadora, muito bem dirigida e que o projetou pro resto do mundo de forma instantânea: seu filme, pequeno, conseguiu inclusive uma indicação ao Oscar de Melhor Filme. De lá pra cá, ele veio trabalhando em um filme com quase quatro vezes mais orçamento do que seu filme de estreia, e uma promessa de que nesse seu primeiro filme grande, fizesse um blockbuster tão consistente quanto Distrito 9. Mas parece que os maiores recursos fizeram mal ao talento do diretor, uma vez que Elysium é bastante falho, inconstante e, muitas vezes, até meio estúpido.
[CONTÉM SPOILERS]
Até certo ponto do filme ele se sustenta com uma história bastante promissora e intrigante, que separa a Terra em praticamente dois mundos, o dos ricos, com todo tipo de recurso, e o dos pobres, nas piores condições de vida possíveis. A missão da Direção de Arte de criar esses dois mundos distintos de forma que fossem extremamente fáceis de reconhecer também foi bastante bem sucedida. O primeiro erro mora no fato do filme em momento algum nos apresentar aos habitantes de Elysium. Fora alguns figurantes aqui e ali, sabemos quem são eles de forma bastante superficial. E não dá pra ignorar a forma fácil com que os fugitivos da Terra conseguem entrar nas casas, SEMPRE vazias, sem que ninguém faça nada a respeito.
Se os problemas do filme morassem apenas nisso, estariam bom, mas este aqui é o típico filme-peneira: pra qualquer lugar que você olhe, encontrará algum furo ou alguma passagem que só existe pra dar ação ao filme. Aliás, as cenas de ação são um tanto quanto mal engendradas, rápidas demais. É como se a mão da direção tivesse ficado bastante frouxa nesses confrontos. Os personagens, aliás, são extremamente pouco desenvolvidos. Existem os bons e os maus, e nada separando-os. Em Elysium estão os vilões, liderados por uma Jodie Foster que também parece não estar nada à vontade no papel. Já na Terra, vemos o protagonista da história, Max, que faz de tudo por sua vida ao longo de todo o filme pra, no final, sacrificar-se em nome de toda a humanidade. Até o vilão interpretado por Sharlto Copley - o melhor do elenco, inclusive - é maniqueísta ao extremo, e tem algumas ações nada condizente com a sua personalidade, como a cena em que ele resolve levar mãe e filha pra nave que, convenientemente, Max entraria momentos depois, para - como ele diz no final - "salvá-las".
Em certo ponto do filme, o roteiro simplesmente se esquece das regras estabelecidas anteriormente, e passa por cima de todas elas em nome da ação. A exemplo da cena que, mesmo depois de ninguém conseguir decodificar os códigos saídos da cabeça de John Carlyle, Spider apenas olha e já descobre do que se trata. Ou, quando no meio de seu clímax, a nave de Spider simplesmente entra na atmosfera da Elysium e pousa no satélite sem consequência alguma por isso. Spider, aliás, é um caso à parte. Fiquei extremamente decepcionado ao notar o tom caricato empregado por Wagner Moura ao personagem que estava defendendo. São poucos seus momentos em que ele não descamba pro "overacting". O tom de voz escolhido por ele pro Spider também é bizarro e a inserção dos xingamentos em português em alguns momentos do filme é muito deslocada. Uma pena, porque todos nós sabemos o potencial imenso que Wagner Moura tem.
O desfecho do filme é tão mal engendrado que fica até difícil de comentar qualquer coisa. O fato é que vendo Elysium, principalmente na sua hora final, fiquei pensando bastante que estava diante do Prometheus de 2013, porque ele sofre de problemas bastante parecidos com os que o filme de Ridley Scott tem. Um projeto com uma premissa espetacular, que prometia bastante e no fim não passa de uma ficção com sérios problemas de montagem, roteiro e desenvolvimento. O filme vai passar batido, literalmente. E é uma lástima, principalmente para nós do Brasil, por termos dois atores nossos no elenco (por causa do espanhol presente no filme, diga-se de passagem, já que pra norte-americano, os latinos são todos iguais), e dois atores bastante competentes. O negócio é esperar pelo próximo filme de Bloomkamp ser mais parecido com Distrito 9 do que com esse aqui.