A Noiva! nasce com ambição. E isso é visível desde os primeiros minutos. Maggie Gyllenhaal não queria apenas revisitar um clássico, queria ressignificá-lo. A proposta parte de uma inquietação antiga da diretora ao perceber que, em Bride of Frankenstein, a personagem que dá título à obra quase não tem voz. Aqui, a intenção é clara: devolver essa voz. O que torna o filme interessante também é o que, em certos momentos, o faz tropeçar.
Há uma coragem inegável na releitura. A diretora não tem medo de mexer em algo que o público já conhece, nem de assumir um discurso firme sobre identidade, pertencimento e escolha. Só que essa firmeza, às vezes, vira insistência. O filme quer tanto deixar claro o que está dizendo que acaba repetindo, apontando e explicando o que já estava evidente. Em vez de fortalecer a mensagem, isso diminui o impacto.
Ainda assim, é impossível ignorar o quanto a proposta é instigante. A metalinguagem funciona bem no começo. Jessie Buckley interpreta Mary, Ida e Penny ao mesmo tempo, criadora e criatura dividindo a mesma mente. A ideia é forte. Há algo fascinante nessa dinâmica em que a autora passa a conviver com sua própria criação, agora dentro de um mesmo corpo. O conflito interno poderia render camadas emocionais ainda mais profundas. O problema é que essa divisão mental, que surge como elemento central, vai sendo usada apenas quando o roteiro precisa. Em alguns momentos, quase esquecemos que as duas coexistem. A sensação é de uma ideia excelente que não é explorada até o limite de suas possibilidades.
Essa irregularidade acompanha o filme em outros pontos. No início, quem domina a narrativa é Frankenstein. Christian Bale assume a tela com intensidade e carisma. Seu personagem vive o drama da rejeição e da busca por companhia. São cenas fortes, talvez as mais emocionais do longa. Só que, ao mesmo tempo, estamos assistindo a um filme que promete ser da Noiva. Essa troca gradual de protagonismo causa estranhamento no começo, mas depois faz sentido. A própria trajetória da personagem é sobre sair da posição de coadjuvante da própria história. Quando finalmente assume o centro, isso conversa com o discurso do filme. O problema não é a transição em si, mas o tempo que leva para que ela aconteça. A sensação é que o filme demora a decidir de quem é essa história.
A crítica social também caminha nessa linha. O filme fala sobre a mulher poder escolher quem quer ser, poder rejeitar o papel que esperam dela. Isso aparece no subtexto, nas situações e até na forma como a personagem rejeita o rótulo de “noiva de alguém”. Há momentos em que essa crítica surge de maneira orgânica, integrada à trama. O monólogo central, por exemplo, tem função dentro do universo e impulsiona a virada da personagem. Ali, o discurso encontra propósito dramático.
Mas em outros trechos, o filme parece desconfiar da própria sutileza. Ele explica o que já estava claro. Reforça o que já tinha sido entendido. Essa repetição cria uma contradição interessante: a diretora demonstra segurança ao abordar temas delicados, mas ao mesmo tempo parece receosa de que o público não compreenda sua intenção. Essa tensão entre confiança e insegurança é o que dá ao longa seu aspecto irregular.
Outro ponto que evidencia essa busca por identidade é a mistura de estilos. O filme passeia pelo drama existencial, pelo romance gótico, pela sátira social e até por momentos de estrada. Em vez de simplesmente mudar de tom, ele costura essas fases como se fosse a própria criatura de Frankenstein, feita de partes diferentes. Em alguns trechos isso funciona muito bem. O humor ácido e as situações bizarras dão leveza e tornam a experiência divertida. Em outros, a mudança brusca de clima quebra o envolvimento e faz parecer que estamos vendo filmes diferentes disputando espaço.
Quando o longa abraça o exagero, o estranho e o gótico, ele ganha força. A ambientação nos anos 30 cria um contraste interessante entre o conservadorismo da época e a energia quase anárquica da protagonista. A fotografia de Lawrence Sher reforça esse embate visual. Em alguns momentos, a atmosfera lembra uma versão menos caricata da Gotham de Tim Burton, com esse charme sombrio que mistura beleza e decadência.
Se há algo que sustenta o filme mesmo quando ele se perde, são as atuações. Jessie Buckley entrega uma performance impressionante. Ela constrói uma mulher que não sabe quem foi, mas sente que precisa ser mais do que estão dizendo que ela é. Há fragilidade e força convivendo no mesmo olhar. Quando assume de vez o protagonismo, a transição é natural. Ela domina a cena sem esforço aparente. Já Christian Bale equilibra intensidade e ironia. Seu Frankenstein começa contido, quase introspectivo, e aos poucos abraça o caos com uma energia magnética. A química entre os dois culmina na cena da dança, um dos momentos mais marcantes do cinema nesse inicio de 2026. Ali, o filme encontra sua síntese perfeita: estranheza, talento e liberdade.
No fim das contas, A Noiva! é um filme que acerta mais do que erra, mas não sem tropeços. Sua ambição é admirável. Sua proposta é relevante. A diretora demonstra personalidade e coragem ao enfrentar um clássico e ao defender um ponto de vista claro. O que impede o filme de alcançar algo ainda maior é justamente a falta de equilíbrio entre dizer e mostrar, entre confiar na imagem e confiar na palavra.
Existe força, existe originalidade e existem momentos memoráveis. Quando deixa de tentar provar o que está dizendo e simplesmente vive sua própria estranheza, o filme brilha. Quando tenta ser maior do que já é, acaba se alongando além do necessário. Ainda assim, é impossível sair da sessão indiferente. A Noiva! pode ser imperfeita, mas sua ousadia e suas interpretações garantem que ela seja lembrada. E, talvez, essa seja sua maior vitória.