Um protagonismo sobrenatural e elétrico.
A Noiva de Frankenstein? Não!
Apenas A Noiva de suas próprias e livres decisões.
Em uma produção montada a partir de pedaços de ação, ficção gótica, romance e suspense policial, imergimos em uma narrativa moderna.
O que acontece quando alguém é trazido de volta à vida sem o seu consentimento, em um período em que seu corpo pode transitar por aí, mas sua voz não é respeitada.
A Noiva é uma obra intensa e disforme, tão sublime quanto a individualidade das peças que a compõem.
O filme de 2026, dirigido por Maggie Gyllenhaal, se diferencia de uma releitura clássica de Frankenstein.
A obra aborda em uma ficção inédita, a incorporação da leitura sobre a pessoa autora da obra original, Mary Shelley, e de uma crítica a um contexto social atual até hoje em uma produção artística baseada em metalinguagem.
Como uma colcha de retalhos que mescla conceitos do passado e do futuro, a narrativa reúne o ponto de vista interno do mundo de sua ficção com uma protagonista e narradora em 3ª pessoa, onisciente e oriunda da realidade da qual você e eu fazemos parte.
A radicalidade da obra provoca, incomoda e energiza todos aqueles que a assistem, espectadores que também se tornam coadjuvantes desse movimento.
Em A Noiva, no cotidiano da famosa e eletrificante cidade de Chicago nos anos 30, com suas boates, gangsters e cinema musical, nos deparamos com uma chama atemporal, composta pelos próprios dizeres de Mary Shelley diretamente do além, a luta pela emancipação feminina e uma alta dose de Punk Rock.
Na nova obra inspirada no clássico, a velha Criatura de Frankenstein (Christian Bale) existe na cidade moderna e assume a posição de coadjuvante enquanto o protagonismo passa para a atriz Jessie Buckley (Hamnet), bem como a autora da obra original do século XIX, Mary Shelley, e todas as mulheres que tiveram silenciadas suas vozes e suas ações.
Mary, nascida em 1797 foi fruto direto de uma das iniciantes do feminismo na literatura, sua mãe Mary Wollstonecraft. Como autora da obra “Frankenstein: ou, o Prometeu Moderno”, por ser mulher, sequer pode ter seu nome na publicação de sua obra inicialmente.
Mulheres não podiam ter livros publicados.
Na obra de 2026, o mesmo acontece ao analisar a situação de Doutoras, Detetives e protagonistas de seus segmentos, que nunca poderiam ser mulheres, mas apenas adendos de homens aceitos na sociedade.
Na trama, a personagem de Jessie Buckley é trazida de volta dos mortos apenas para assumir seu lugar de “noiva” da famosa criatura de Frankenstein (Bale), solitária há anos e em busca por intimidade, amizade e uma companhia como ele.
A obra não poderia ser mais instigante em quebrar essa expectativa de modo rápido e enérgico como um raio no meio de uma tempestade.
Buckley interpreta de forma convulsiva e vigorosa um conflito interno. Como um corpo inteiro trazido de volta à vida pelo desejo da criatura de Frankenstein, feita de diferentes pedaços (Bale), A Noiva, reanimada apenas para esse propósito subserviente, emana independência e relevância até o final.
Enquanto muitas releituras do clássico foquem na perseguição da Criatura por seu propósito no mundo ou então na vingança por sua criação como propósito de seu criador, A Noiva não dá a mínima para propósito nenhum e só quer seguir com sua vida e liberdade.
Em uma sequência de euforias em um ritmo quase bipolar, essa liberdade da protagonista inflama um propósito social fundamental no desenvolvimento de sua trama sobre justiça contra um famoso criminoso e direitos das mulheres na sociedade, grande provocação do filme ao nosso contexto atual.
Ainda que possuída, de certa forma, e sob influência da voz da autora do livro clássico, Mary Shelley, além de um receptáculo para a alma de outras mulheres cujas vidas foram tiradas sem razão na trama do filme, A Noiva (Buckley), ostenta a busca por sua própria personalidade e satisfação de seus desejos com ousadia e sem levar desaforos.
Sem se preocupar em agradar ninguém, a protagonista de A Noiva atiça cada vez mais as mulheres que se identificam com seu posicionamento, sem falar na admiração daquele que foi seu “demandante”.
Embora a Noiva rejeite logo no primeiro instante ser apenas a companhia de seu “noivo”, o grande contentamento, proteção e respeito deste por ela (mesmo que com sua intenção por posse) os envolve em um romance louco, estilo Bonnie e Clyde, que desencadeia companheirismo, descobertas pessoais e a eclosão de um movimento feminista essencial.
O personagem de Bale (apelidado de Frank) é uma interpretação inovadora da Criatura. Vivendo em uma época jamais antes retratada com esse tema clássico, Bale incorpora a cordialidade e os trejeitos contidos e reprimidos de séculos antigos com uma mescla de revolta e autoexpressão moderna.
Mas se Frankenstein antes foi o protagonista movendo as histórias pelos seus desejos e necessidades, agora é sua Noiva (Buckley) quem inicia de forma intrépida uma trajetória de conflitos e inspirações ao longo do país.
Com uma intermitência de dor, desejo, fuga e liberdade, a Noiva quebra a Quarta Parede com elementos clássicos e da modernidade, e promove tanto um filme para quem busca apenas entretenimento e ação quanto para quem precisa de uma crítica contundente.
Com um elenco de grandes atuações, contando com Penélope Cruz, Peter Sarsgaard, Zlatko Burić, e o próprio irmão da diretora, Jake Gyllenhaal, o filme é um mix de cenários e figurinos fiéis à realidade da época, com músicas e estilos de edição e fotografia que misturam os anos 80 com o século 21.
Só uma mente lúcida e analítica dirigiria uma obra tão original, louca e criativa como essa.
O filme que traz críticas e presta homenagens tão fortes não é uma narrativa para agradar a todos.
A costura de subtramas ao tema central não deixa pontos sem nó, embora algumas linhas fiquem mais grosseiras e esparsadas do que outras.
Com referências ao original literário e às suas releituras no cinema, além de performances profundas, uma produção visual e sonora estimulante e provocações sociais tão modernas hoje como já foram no século XIX, A Noiva ganha por sua originalidade.
Outro raio não conseguiria dar vida a corpos de forma tão magistral como a direção de A Noiva fez.