O fim do Mundo, segundo Lars Von Trier
O filme conta a história do fim do mundo e o comportamento humano diante essa situação de morte iminente. Um planeta chamado Melancolia está prestes a colidir com a Terra. Nesse meio tempo Justine está se casando e sua irmã Claire lhe prepara uma grande recepção num castelo. Entretanto, o que aparentemente deixaria Justine feliz, acaba deixando-a num mar de dúvidas e arrependimentos logo em sua festa. São pequenas coisas que acabam levando-a ao ponto extremo do cansaço de fingir felicidade em função das pessoas ao redor. Sorrisos por conveniência, discursos familiares e de trabalho, tensão jogada pra baixo do tapete, enfim, tudo maquiando bem a cerimônia de recepção, a fim de mostrar que todos ali estão cumprindo seu dever de estarem felizes.
Devido à fragilidade emocional, e também por sua instabilidade, Justine é mostrada na segunda parte do filme já sozinha e numa profunda depressão. O casamento não dá certo e ela agora está com a família da irmã.
O fim do mundo, que de modo geral causaria pânico e tristeza nas pessoas, em Justine acaba causando um fortalecimento, uma sensação de alívio por saber que o fim está próximo, que finalmente sua tristeza/dor desaparecerá. Por isso, ela aceita de braços abertos o que está por vir.
Lars, na segunda parte do filme, faz um contraste incrível sobre o comportamento das pessoas, sobre como elas são realmente. O que afeta mais uma pessoa a outra.
Claire, a irmã de Justine, que passa a primeira parte do filme agindo de forma séria, firme e sensata, ao descobrir que em poucas horas tudo, incluindo ela, deixará de existir, entra em desespero. Claire tem marido e filho, o que lhe dá segurança e motivo para seguir sempre em frente, mas com o fim do mundo, ela perderia tudo que lhe faz ser.
Dessa forma, quem toma o controle devido a calma aceitação do fim, é Justine. Lars diz que a reação de Claire representa a maioria das pessoas, já Justine, que se abala com acontecimentos aparentemente banais e sem grande significado, não se preocupa com o fim de tudo.
Outro personagem que vale a pena citar é Kiefer, marido de Claire, que passa o filme todo como o homem da ciência e sempre confiante, tem um final trágico e um comportamento muito mais desesperado que o das duas mulheres, apesar de contido e silencioso.
A trilha sonora do filme, pra deixá-lo ainda mais tenso e aflito, mesmo que não haja grandes discussões ou cenas de explosão e gente gritando pelas ruas (que é o que estamos acostumados a ver quando se trata de filme-sobre-o-fim-do-mundo), é o prólogo da ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner. Quem conhece a música mas ainda não assistiu o filme, já começa a entender e imaginar como ele é e como nos sentimos quando estamos de frente à tela.
Há ainda mais artes envolvidas nesse filme. O roteiro foi baseado na peça "As Criadas" de Jean Genet, que conta a história de duas empregadas que acabam matando a patroa. Outra citação de arte é uma das mais marcantes cenas do filme, onde mostra Justine com seu vestido de noiva sendo levada pela correnteza do rio, referência à pintura Ophelia, de John Everett Millais.
É interessante citar pelo menos uma das muitas metáforas que Lars utiliza em seu filme. É mencionado várias vezes ao longo do filme que no campo de golfe que há ao redor do castelo um total de 18 buracos, entretanto, já próximo ao fim do filme, Claire passa por um dos buracos do campo e nele está marcado "19". Segundo Lars, o buraco 19 seria o limbo.
É dessa forma serena que segue o fim do mundo. Sem grandes movimentações, acontecimentos ou notícias preocupantes. O mundo simplesmente acaba, e esse nem é o ponto principal do filme, que é alimentado unicamente pelo comportamento e reação de cada um diante o inevitável. Lars conseguiu mostrar que é possível falar sobre, e até demonstrar pânico junto com calmaria diante do que poderíamos considerar como a pior das catástrofes.