"As necessidades de muitos superam as necessidades dos poucos". A frase, cunhada de forma clássica por Leonard Nimoy em "A Ira de Khan" (1982) e já repetida pelo "Neo-Spock" Zachary Quinto em um momento de extrema urgência, prova-se equivocada, quando ilustramos não-apenas o tema recorrente da série Jornada nas Estrelas quanto o bom trabalho de J.J. Abrams que, ao incluir easter-eggs e remakes da incorruptível série dos anos 60 e mesclá-los com recursos e tons de drama e comédia inéditos, consegue reunir fãs velhos com os recém-formados. Para observar o poder do jovem diretor americano, um nerd provado, basta sentar-se na sala de cinema. Senhores de idade, alguns devidamente uniformizados com as vestes ceremoniais de Jean-Luc Picard e James Kirk, participam da história tanto quanto os jovens que os acompanham. Isto é a essência do trabalho de Abrams desde o reboot da série em 2009, e continua em "Além da Escuridão - Star Trek".
As luzes da sala se apagam, e o que segue pelos próximos 133 minutos é uma celebração de tudo que torna esta série, um marco na ficção científica, tão relevante. Temas de amizade e exploração do desconhecido são unidas a um sentido de urgência e humor muito inédito, que lembra até mesmo as obras daquele que certamente é um deus para J.J., Steven Spielberg. Até mesmo problemas atuais são retratados, como o terrorismo presente no vilão John Harrison, interpretado por Benedict Cumberbatch.
Cumberbatch mostra-se cada vez mais um dos principais atores ingleses desta nova geração. Se um grande vilão da série já dizia que "o espaço é frio", toda esta frieza pode ser percebida com suas palavras, proferidas com clareza e certeza, através de uma voz profunda e que parece ecoar pelos corredores da USS Enterprise e ricochetear para fora da tela. A campanha de marketing do filme pode girar em torno de Harrison, mas este ainda vem acompanhado do característico mistério de Abrams e de perigo, assim mostrando-se uma ameaça à altura do espírito sem-preocupações de Kirk. O filme gira em torno, muitas vezes, da luta entre esta equipe já-estabelecida e determinada e este vilão, que parece inspirar confusão até nas mentes daqueles que já sabem onde o personagem está, e borrar as linhas entre o certo e o errado.
O certo e o errado ganham destaque também com a história de Spock (Zachary Quinto) e Kirk (Chris Pine), que ganha desenvolvimento natural do primeiro filme e abala totalmente as estruturas de todos, desde a primeira cena do longa. Pine ainda reflete muito das características de um personagem de outra das influências do diretor, o guerreiro estelar Han Solo e sua meninice, mas passa por mudanças. e Quinto faz seu Spock conflituado entre deixar suas emoções humanas fluirem ou reprimi-las e respeitar o que a Frota Estelar deseja. Ambos amadureceram como atores, mostram cada vez que seus personagens ainda não pararam de crescer, e podem aprender muito um com o outro. Esta amizade pode acabar por tirar tempo em tela de alguns dos personagens mais queridos da série, como a tenente Uhura (Zoe Saldana) e o "médico, não engenheiro" McCoy (Karl Urban), mas estes ainda tem seu importantíssimo papel no desenvolvimento da trama. Vemos o quanto Abrams, mesmo confessando não ser um Trekker de coração, entende que o núcleo de uma boa história da Enterprise é o time e o modo com que esta grande família funciona.
E como funciona. Desta vez, todos as introduções são dispensadas, e somos jogados direto na ação. O filme acerta em aspectos técnicos que apenas aumentam a grandeza e o escopo da jornada (literalmente), como a fantástica trilha sonora de Michael Giacchino, que não tem problemas em misturar até mesmo a simples melodia de um piano a uma cena extremamente emocional, logo no início do filme, e o 3D, que destaca a profundidade dos elementos espaciais de forma extremamente competente, levando em conta que esta é uma conversão para o formato estereoscópico, com segmentos filmados originalmente no formato IMAX (vale a pena assistir na imensa tela).
Talvez a vontade do roteiro de Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof de manter-se revivendo o material original e evitar algumas vezes o novo (como fez o filme de 2009) prove-se desanimadora para alguns e até mesmo inimiga da imprevisibilidade, aliada dos autores e do diretor, mas a obra ainda carrega uma montanha-russa emocional que consegue conquistar até mesmo quem está escutando a antes-mencionada frase de Spock pela primeira vez. Além da Escuridão vai realmente além, e acaba como uma grande celebração desta fantástica franquia, que logo comemorará 50 anos de existência.
Diário pessoal do capitão: data estelar -309548.9895040589. Desta vez agindo em nome de muitos E poucos, a antes-tripulação, agora-família da USS Enterprise parte em novas aventuras, procurando novas formas de vida, explorando novos mundos, indo aonde nenhum homem jamais esteve, e principalmente, conquistando cada vez mais novos públicos.