Indicação mais do que merecida ao Oscar, O Amante da Rainha é um filme poderoso. Principalmente, por contar uma história real, de forma crua e, acima de tudo, cruel.
O drama retratado é bastante complexo, e a forma com que Carolina vai se envolvendo, ou melhor, se deixando envolver por Struensee é magistral. Aliás, aqui, cabe elogiar os aspectos técnicos do filme que beiram a perfeição. A reconstituição da época é tamanha que a imersão no filme chega a ser inevitável. Desde cenários, figurinos e até trilha-sonora, tudo está milimetricamente calculado para transportar para o período histórico em questão, e faz bem. Algumas escolhas que Nikolaj Arcel faz ao dirigir o longa também são muito felizes, sempre se distanciando dos personagens, mas nunca perdendo a carga emocional existente ali. E não tem como não se elogiar a montagem, que faz a união, por diversas vezes, de duas situações ocorrendo em locais diferentes (como por exemplo quando Caroline se vê obrigada a se deitar com Christian e Struensee sabe disso).
Muito bem pensada também a ideia de iniciar o filme com planos longos, claros e iluminados, quando tudo estava bem, e ao longo da narrativa, quando o caos começa a ser instaurado, tudo escurecer, dando lugar às cores frias, um ambiente escuro e roupas mais discretas.
Os protagonistas estão competentíssimos, Alicia Vikander tem cenas de se aplaudir, mas quem se destaca mesmo é Mikkel Boe Følsgaard na pele do rei maluco. Nunca, jamais, em tempo algum deixando a atuação cair na caricatura, ele constrói um personagem cheio de desmotivações e muito frágil com bastante sutileza.
Talvez, o problema com O Amante da Rainha, que chegou a me incomodar em alguns momentos, tenha a ver com o desenvolvimento da história, e a forma com que seus personagens se colocam dentro dos conflitos. Dr. Johann Struensee por exemplo, está sempre ali no limite da coerência. Não chega a cair no blefe, mas em diversas passagens ensaia uma derrapada. Pelo menos é mantida a ambiguidade em sua personalidade, e é interessante que não haja um olhar completamente positivo em cima de suas ideias iluministas. Um ponto positivo e tanto do filme é mostrar que os ideais podem ser bons, mas se mal aplicados, a coisa pode ficar bem pior do que estava antes.
Enquanto isso, Carolina cai, literalmente, na coerência. Ela passa por mudanças de humor ao longo do filme, que, sinceramente, só poderiam acontecer com uma pessoa bipolar. Da frieza à incapacidade de controlar os seus atos (ao, por exemplo, dar um tapa na cara de Christian e proibi-lo de ver a filha... oi?), passando pela melancolia excessiva ou impulsividade. E é uma pena que o roteiro não sustente uma linha narrativa decente, mesmo que tente a todo custo retomar os momentos iniciais em suas cenas finais... E que cenas finais!!!
A impressão que fica é que O Amante da Rainha poderia ser uma obra-prima, e, infelizmente, perdeu essa chance. Mas não deixou de ser um grande filme. A última cena, esperançosa e muito bem fotografada (assim como TODO o filme, e diga-se de passagem) passa uma mensagem. E a humanidade nas figuras do filme, do inicio ao fim, prevalecem, apesar das pressões em torno. Mensagem essa, necessária. Cabe a cada um interpretá-la à sua maneira.