Baseada no livro homônimo escrito por F. Scott Fitzgerald, a boa notícia para aqueles que aguardavam a adaptação cinematográfica “O Grande Gatsby”, do diretor australiano Baz Luhmann, é que o filme mantém a essência principal da obra literária na qual se baseia, na medida em que a história nos é relatada pelo ponto de vista de Nick Carroway (Tobey Maguire, numa ótima atuação), com destaque para o fascínio e atração que a personagem sente pelo mundo habitado por seu vizinho Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio, também em uma ótima atuação).
Desta maneira, uma das coisas que fica subentendida pata a plateia, logo de cara, nas primeiras cenas de “O Grande Gatsby”, é que o fascínio e a atração que Nick Carroway sente não é pelo universo repleto de luxo e ganância cujo maior representante é Jay Gatsby. Ele se sente, na realidade, intrigado pela figura do próprio vizinho, que é alguém que, ao mesmo tempo, sempre aparece distante, porém muito próximo de Nick. Em consequência disso, apesar do filme dar destaque total ao milionário interpretado por Leonardo DiCaprio, a verdade é que a grande jornada do longa é a vivida por Nick Carroway.
Por meio do contato que ele estabelece com as personalidades e, principalmente, com o estilo de vida de Jay Gatsby, Tom Buchanan (Joel Edgerton, excelente), sua prima Daisy Buchanan (Carey Mulligan) e Jordan Baker (Elizabeth Debicki), assistimos às muitas transformações pelas quais irá passar Nick Carroway. No decorrer dos 142 minutos de “O Grande Gatsby” assistimos a um jovem perder completamente a sua inocência e ingenuidade e passar a ter, não só uma visão mais cínica de mundo, como também ter a noção completa de que a felicidade não está diretamente ligada a uma realidade que é, em sua aparência, perfeita – principalmente se ela tiver alguns toques de obsessão e de tragédia.
Neste ponto, é importante fazermos um adendo. “O Grande Gatsby” se passa na década de 20, quando a economia norte-americana estava em pleno progresso e oferecia oportunidades perfeitas de crescimento para tipos ambiciosos como Jay Gatsby, que tinham acabado de servir ao país na Primeira Guerra Mundial. Nick Carroway representa o outro lado dessa história: aqueles que deixavam suas pequenas cidades em busca da chance de crescimento pessoal e profissional nas grandes metrópoles urbanas. Para Nick Carroway, tudo era novo e por isso conseguimos entender o porquê de ele se envolver tanto com um mundo de roupas elegantes, de abuso de álcool e de festas de arrombas – que é típico da alta sociedade.
Por isso mesmo, “O Grande Gatsby” é um filme que se destaca pela competência de sua parte técnica. Trabalhando com colaboradores habituais como a sua esposa Catherine Martin (que é figurinista e diretora de arte) e com o compositor Craig Armstrong, o diretor Baz Luhrmann nos entrega um filme que tem um estilo exagerado – com aquelas diversas inadequações temporais típicas da filmografia do australiano – que mostra muito bem que, por trás de tanta pompa e circunstância, existia, na verdade, um enorme vazio, que era representado pela solidão de Jay Gatsby após todas aquelas festas terminarem. Apesar disso tudo, fica sempre embutido, em cada cena do filme, a sensação incômoda de que o longa teria alcançado um resultado bem melhor caso tivesse um roteiro mais coerente.