Alerta de Spoiler: Assisti à série principalmente por ser a primeira produção estrelada pelo meu ator favorito, Jake Gyllenhaal. A premissa me conquistou logo de início, assim como o elenco e a forma como a narrativa vai se construindo ao longo dos episódios. O suspense é bem dosado, os personagens são ambíguos e o desfecho vai se desenrolando de maneira envolvente… até pouco antes do final, quando é revelado o que realmente aconteceu. A partir daí, a série parece simplesmente perder a mão.
A revelação de que a adolescente teria sido a responsável pela morte da amante de Rusty soa extremamente inverossímil por diversos motivos. Primeiro, trata-se de uma adolescente, e em nenhum momento da série há qualquer indício emocional ou comportamental que sustente essa revelação. Ela não demonstra culpa, medo, arrependimento ou qualquer sinal de que esteve presente naquele dia ou envolvida em algo tão grave. Não há construção psicológica que prepare o espectador para esse desfecho, além de um breve momento em que ela menciona ter uma aula de psicologia sobre as consequências do trauma. Além disso, se o personagem principal, Rusty, tivesse qualquer suspeita de que sua esposa esteve envolvida no crime durante toda a trama, sua postura diante dela seria inevitavelmente diferente. Nada impediria que ele tivesse conversado com ela antes do julgamento final, especialmente considerando que ele admite ter amarrado o corpo da amante (que também não faz sentido algum considerando que até agora ele não tinha sido apresentado como um psicopata, mas sim como um apaixonado com baixa inteligência emocional). Esse conflito interno simplesmente não aparece em nenhum momento da série, o que enfraquece completamente a coerência do personagem.
Ao longo da narrativa, a série brinca com a dúvida de forma inteligente: constantemente somos levados a questionar se Rusty é ou não culpado. O mesmo acontece com Tommy, o investigador, que é retratado de maneira obsessiva, quase pessoal, dando a entender que há motivações além do dever profissional. Outros suspeitos surgem, pistas são espalhadas, e diversos pontos ficam propositalmente em aberto, o que, até certo ponto, funciona muito bem. No entanto, vários desses elementos acabam não levando a lugar algum. As mensagens misteriosas enviadas pelo filho da vítima parecem existir apenas para levantar suspeitas momentâneas, sem qualquer payoff real. A suposta paixão de Tommy por ela, a cena em que ela declara ao RH que tem medo dele, o fato de ele ser mostrado repetidamente como alguém emocionalmente envolvido… tudo isso é abandonado sem explicação satisfatória.
O mesmo acontece com o filho do Rusty que passa de bicicleta em frente à casa, joga a bicicleta fora e, aparentemente, fica apenas como mais um recurso para confundir o espectador. Não há consequência narrativa real, apenas pistas soltas que não se conectam ao desfecho.
E então, no final, a série escolhe atribuir o crime a uma adolescente, sem apresentar provas materiais plausíveis: ninguém encontra DNA dela na casa, ninguém a vê saindo de carro, e o enterro da prova-chave acontece sem qualquer questionamento logístico ou investigativo. Tudo isso compromete seriamente a verossimilhança da história.
O resultado é um final apressado, mal amarrado e frustrante, que contradiz a complexidade e o cuidado narrativo construídos ao longo da série. Acima de Qualquer Suspeita começa de forma promissora, mas tropeça justamente no momento mais importante, deixando a sensação de que o mistério foi resolvido não com inteligência, mas por conveniência de roteiro.
Por outro lado, é importante destacar um ponto extremamente positivo da série: a escolha do elenco. Achei muito interessante e necessário o fato de terem escalado pessoas negras em papéis centrais e de poder, como a juíza, advogados, além da esposa e da família do personagem principal. Essa representatividade é feita de forma natural, sem estereótipos ou discursos forçados, e contribui para enriquecer o universo da série. Esse é, sem dúvida, um acerto importante e digno de reconhecimento.