Repetindo a fórmula que vem aumentando a popularidade do mascarado na sétima arte nos últimos anos, Christopher Nolan volta para a franquia O Cavaleiro das Trevas, dirigindo o seu terceiro e último filme da melhor forma possível.
Após os acontecimentos de O Cavaleiro das Trevas (2008), oito anos se passaram em Gotham City — agora uma cidade pacifica — desde a morte do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), e desde que o Batman (Christian Bale) — culpado pela morte do promotor e pelo sequestro do Comissário Gordon (Gary Oldman) e de sua família — sumiu misteriosamente. Tudo muda quando Selina Kyle (Anne Hathaway), uma ladra sedutora, rouba a mansão Wayne e Bruce se vê no papel de investigar a ladra. Isso faz com que Wayne perceba que novas ameaças espreitam a cidade e a chegada de um novo vilão — Bane (Tom Hardy) — faz com que o milionário volte a assumir o manto do Morcego.
Infelizmente, apesar de Nolan fechar a trilogia com primor e chave de ouro, o último longa sofre um pouco da maldição do terceiro filme.
A começar pelo mordomo Alfred Pennyworth (Michael Cane), que na mitologia do Morcego (muito menos na trilogia de Nolan) nunca foi apenas um mordomo. Única figura paterna e "família" para Bruce Wayne, Alfred resolve abandonar, de mão beijada, o seu patrão na metade do filme, só por que este resolveu voltar para o mundo do crime.
Outro erro é o vilão.
Não Bane, mas sim Miranda Tate (Marion Cotillard), que acaba se revelando Thalia Al'Ghul, filha do primeiro vilão da trilogia, Rhas Al'Ghul. A personagem fora mal desenvolvida, ao longo da trama servindo apenas como braço direito e par romântico de Bruce Wayne. Quando ela se virou contra o vigilante foi impactante? Sim, mas a personagem fora mal desenvolvida, e Nolan a escondeu tanto para alimentar esse plot twist que atrapalhou a personagem. E, quando ela revela a sua verdadeira face, tem uma das mortes mais toscas do cinema hollywoodiano.
O Batman se prova outro erro aqui.
No terceiro longa, não vemos muito do herói. O motivo do por quê é até ótimo, contudo, o principal símbolo de esperança de Gotham City acaba virando um Godzilla da vida: só aparece no final para salvar a cidade. Contudo, isso de longe não é um dos maiores erros da trama.
Um erro que Nolan carrega desde o primeiro filme (Batman — Begins - 2005), são as coreografias de lutas. Péssimas, mal executadas, chegam a soar mecânicas, como se cada membro do personagem estivesse enferrujado e faz com que a performance de corpo dos atores (ou seriam os dublês?) fique péssima. Fora alguns capangas que, acredite se puder, Batman derruba sem mal tocar (?).
O longa dessa vez ganha mais um acréscimo: piadinhas toscas e diálogos de duplo sentido que chegam a arranhar nossos ouvidos, fora que não combinam com a estética do filme.
Todavia, talvez o furo de roteiro mais gritante seja o fato de que talvez que depois de tudo — além de ter sido traído inúmeras vezes —, após forjar a morte Batman foge, sem mais nem menos, para a Itália, com a ladra Selina Kyle.
Como aspectos positivos, esse filme carrega nas costas um enorme simbolismo, que compensa todos os outros erros. A começar pelo Batman, que com sua reaparição reforça o símbolo de esperança de Gotham City que Nolan veio criando nos últimos filmes. Aliás, ainda há a mensagem que o herói carrega nas costas e que aqui é mais gritante, e só aumenta a cada minuto do filme, por conta de suas reviravoltas pontuais e constantes.
Como atores, todos desempenham seus respectivos papéis perfeitamente, inclusive Anne Hathaway, sexy da melhor maneira possível — sem ser vulgar — no papel de Mulher Gato. Mas a novidade aqui é Tom Hardy no papel de Bane. Talvez a voz roufenha não impressione, mas ela brinca perfeitamente com brutalidade do brutamontes e todo o medo que exala. Definitivamente, não há como ver Hardy em Bane: o ator se dedicou tanto ao papel que virou personagem.
Apesar das cenas de luta mal coreografadas, talvez uma das melhores seja a do primeiro confronto de Bane e Batman, que agracia aos fãs de quadrinho com uma boa referência — o brucutu quebrando as costelas do morcego impiedosamente.
O nível de emoção que o longa atinge também é competente. Em seu terceiro ato, não há como se emocionar; arrepiar e chorar.
De Alfred chorando sobre o túmulo de Bruce ao espectador descobrindo que o milionário consertara o piloto automático do morcego: Nolan consegue ser tocante e delicado em cada cena, ainda mais com a companhia da triste trilha sonora de Zimmer.
Em questão de finalizar a trilogia, Nolan consegue cumprir o requerido: terminar uma franquia deixando o gostinho de quero mais! Felizmente, Cavaleiro das Trevas Ressurge nos deixa com muita água na boca, e a cena de John Blake (Joseph Gordon-Levitt)
descobrindo a Bat-Caverna
só deixa os nossos corações mais apreensivos ao sabermos que tudo aquilo está chegando ao fim.
Apesar de seus furos, Batman — O Cavaleiro das Trevas Ressurge consegue ser um dos melhores filmes de super-herói já feito. Não supera seu antecessor, mas fecha com magnificência a obra-prima de Nolan. Nada mais justo do que ocupar o cargo de "Poderoso Chefão" dos super-heróis. O triste é, realmente, que nunca teremos mais algo dessa franquia.
Nota: 8,5/10