Estabelecendo seu universo com diversos e icônicos personagens em apenas quatro filmes, o Universo Cinematográfico da DC Comics sofreu pesadas criticas de uns e elogios de outros nos últimos anos – ao contrario da rival Marvel, que conseguiu fazer um filme solo de cada um dos principais personagens antes de Os Vingadores, que os reunia, a DC teve pouco tempo hábil para desenvolver motivações, sentimentos e características dos integrantes desta Liga da Justiça – mas, ainda assim, a concepção do roteiro deste filme dirigido por Zack Snyder, mas finalizado por Joss Whedon (diretor de Vingadores – A Era de Ultron) – devido à uma tragédia familiar na vida do primeiro – não poderia ser melhor, considerando está “pressa” para unir o grupo de super-heróis – este mais novo e esperado trabalho da Warner/DC acaba por surpreender por sua boa criação de personagens e da química que faz fluir toda sua trama – mas, infelizmente, deixa de dar atenção à alguns pontos cruciais para o funcionamento de filmes deste gênero.
Produção, roteiro e direção acabam se adequando as questões mais criticadas pelo público e críticos – como o tom narrativo sério demais ou a fotografia com o uso excessivo de filtros escuros, sugerindo um aspecto sombrio para a trama – algo que funcionava excepcionalmente na trilogia do Batman comandada por Christopher Nolan (que permanece como produtor executivo de Liga da Justiça) e de forma coerente em O Homem de Aço – mas que atrapalhou imensamente o andamento da história de Batman Vs Superman – tirando muito o impacto da produção, que era o ponta pé inicial para o encontro dos heróis aqui.
Sendo assim, temos em Liga da Justiça novos e melhores aspectos visuais, principalmente com relação a direção de fotografia e design de produção – as paletas escuras agora dão espaço para o colorido, condizente com os uniformes bem concebidos pela direção de arte – pecando apenas com relação ao uniforme do Flash, que mais lembra o uniforme do Jaspion do que o clássico colante dos quadrinhos ou das séries animadas e live action deste – mas vale citar a caracterização do Aquaman, através de tatuagens e não com o uniforme clássico que lembrava escamas de peixe e a boa funcionalidade (embora lembra as vezes o traje do Homem de Ferro) do corpo do Cyborg. Ainda beneficiado pelo uso de uma iluminação mais forte e colorida, a mise-en-scène do filme acaba sendo melhor do que a de Batman Vs Superman – apresentando alguns ambientes de batalha de forma mais fácil de entender – embora na cena do confronto do Lobo da Estepe com as amazonas e no clímax na cidade russa, por exemplo, tornem-se uma confusão visual enorme – infelizmente, vícios técnicos da direção.
Mesmo assim, Snyder ainda é capaz de criar momentos únicos e altamente significativos visualmente para uma adaptação de quadrinhos - como as cenas com câmera lenta para mostrar a super velocidade do Flash ou os planos do Batman observando a cidade do alto de prédios – é necessário aplaudir tais imagens, dado o poder icônico dos personagens e histórias recriadas, considerando a importância imensa que possuem para a cultura pop – algo que não havia sido filmado de maneira tão bela e evocativa antes no cinema.
Afinal, os famosos personagens estão diante de uma situação difícil: o mundo sofre com o aumento absurdo da violência após a morte do Superman (Cavill) – sentindo-se culpado pela morte do kryptoniano, Bruce Wayne (Affleck), junto de Diana Prince, (Gadot) ainda continuam a busca por mais super-heróis – conseguindo contato com Barry Allen (Miller), conhecido como o Flash, Victor Stone (Fisher), o Cyborg, e o habitante da cidade submarina de Atlântida, Arthur Curry (Momoa), o Aquaman, eles correm contra o tempo para os convencerem a entrar no time – já que o terrível alienígena Lobo de Estepe (Hinds) está vindo a terra com seu exercito de Parademônios, para conseguir reunir três cubos, que juntos, liberariam um poder sem precedentes para que ele domine todo o universo.
Dentro desta trama, conseguimos visualizar algo bom e outro ruim logo de inicio: a dinâmica do roteiro entre os heróis é extremamente bem realizada – repare como os poderes e habilidades de cada herói aparecem em harmonia, fazendo com que realmente se tornem fáceis de serem compreendidos e se tornarem funcionais para dar ritmo as cenas de ação – e ainda existe uma química entre todos os atores, que fazem com que seus dramas (mesmo que rapidamente explorados) os tornem seres que o espectador se importe – Flash com sua relação com seu pai presidiário; a relutância de Aquaman em confiar e ter fé no mundo e nas pessoas; o medo e repulsa por ter se tornado um ser meio humano meio máquina por parte do Cyborg – este, aliás, um personagem que deveria ter mais tempo para conhecermos, principalmente sua relação com seu pai (Joe Morton), que desenvolveu a armadura que salvou Victor da morte. As boas atuações destes três atores, de fato, ajudam o projeto – Jason Momoa, mesmo sendo um ator limitado, impressiona pela maneira irônica e bruta que age – quem diria que o Aquaman, tão desprezado e humilhado nos desenhos animados, se tornaria o membro mais “descolado” da equipe? E Ray Fisher faz algo bacana com seu Cyborg, mesmo tendo pouco tempo para o desenvolver – mas é o ótimo Ezra Miller (As Vantagens de Ser Invisível) que rouba a cena, com o humor e simpatia de seu Flash, tornando-o um dos pontos altos do filme.
Ainda sobre a parte boa, Ben Affleck volta a provar que é uma grande escolha como Bruce Wayne – seu Batman faz o papel ideal de líder da Liga – sabendo definir os planos de ataque e investigação do grupo – algo fundamental no legado do herói, que aqui demonstra realmente já ser um veterano no assunto. E Gal Gadot brilha mais uma vez ao conferir um misto de ingenuidade e inteligência em sua Mulher-Maravilha – mas, infelizmente, é aqui que notamos um sério problema do filme: a direção de atores de Snyder (e de Joss Whedon, eventualmente).
Pois chegamos a parte ruim: notem como a atuação de Gal não é tão expressiva e vibrante como era sobre a batuta de Petty Jenkins, no filme solo da guerreira Amazona – demonstrando não estar tão a vontade no papel, a atriz ainda é submetida a utilizar uma saia mais curta – assim como as guerreiras de Themyscira – evidenciando o sexismo nas criações visuais de Snyder – reparem também na piadinha do Flash com a Mulher-Maravilha – mesmo que reflita uma característica de Barry Allen (de sempre brincar com os outros com seu poder), é um momento de “humor” pífio e que pode ser mal interpretado.
Outro equivoco se estende para o vilão Lobo de Estepe, um personagem criado de uma forma extremamente unidimensional pelo roteiro, o relegando a ser apenas um capanga de um vilão bem maior – que aparecerá nas sequências, obviamente. Sem falar que um vilão que quer reunir artefatos para conseguir ficar mais poderoso é um dos clichês mais executados em filmes de fantasia ultimamente, demonstrando a pouca inspiração dos roteiristas – e a forma como mostra uma família russa se escondendo próxima ao local onde o vilão se estabeleceu não tem função alguma para a trama, mas está presente por quase todo segundo e terceiro ato – apenas para possibilitar uma certa tensão ao final. Fora isso, temos o trabalho pouco detalhado da captura de movimentos do ator Ciaran Hinds – em meio a ficar repetindo a exaustão frases vilanescas batidas, o ótimo ator tem pouco a fazer com um papel tão pouco caprichado em sua criação.
Tal abordagem supérflua, lamentavelmente, cai sobre o ótimo elenco de atores coadjuvantes: a Lois Lane de Amy Adams fica como apenas um “chavão” para uma solução do roteiro – que mais me pareceu com uma situação vista no Hulk de Ang Lee; o ótimo J.K. Simmons, como o comissário Gordon, pouco aparece; assim como o Alfred de Jeremy Irons, mesmo que este tenha mais alguns diálogos com Bruce; e Diane Lane, como Martha Kent, apenas é inserida para tentar emocionar por sentir falta do Clark de Henry Cavill – ATENÇÃO! SPOILERS NO PRÓXIMO PARAGRÁFO:
Cavill, aliás, prova como é um ótimo Superman – sua batalha, ao acordar da morte, com os demais integrantes da Liga, mostra como o personagem mais antigo do universo DC é realmente impactante ainda – tal momento é retratado de forma espetacular e já valeria o ingresso, principalmente ao inverter o poder da famosa frase de BvS, o “você sangra?” do Batman – este, inclusive, tem uma resolução interessante para o conflito que tinha no filme passado com Clark, ressaltando o inicio de uma amizade e lealdade presente nos quadrinhos. Mas é evidente como a presença do kryptoniano evidencia ainda mais como o Lobo de Estepe é um vilão fraco – no sentido literal também.
Agora um problema realmente inesperado era com relação a trilha-sonora de Danny Elfman – o veterano compositor se esqueceu que existe um limite em fazer homenagens ou referências: ele vai utilizar o tema da Mulher Maravilha que Hans Zimmer criou em BvS, mesclando com o tema que ele mesmo criou para o Batman do Tim Burton (em duas partes!), vai usar o tema de John Williams para Superman – O Filme e o tema de O Homem de Aço, também de Zimmer – fora que o que seria o tema da Liga da Justiça é algo tão genérico que parece idêntico ao que ele fez no segundo Vingadores – era melhor ter usado o tema do clássico desenho animado televisivo da Liga. Enfim, uma decepção.
A escolha de utilizar Elfman, inclusive, foi de Joss Whedon. O co-diretor demonstra decisões boas – como o pontual e eficiente uso do humor – mas este tom mais leve nos traz a um questionamento: não seria isso um ponto que tiraria a personalidade dos filmes da DC? Ou seja, será que os filmes se tornarem apenas escapismos comuns (como os Marvel) não tiraria a essência dos projetos? Não necessariamente. Primeiro que não há problema em apenas entreter. Segundo que o tom mais descompromissado possibilita que Liga da Justiça jamais seja um filme arrastado (como Batman Vs Superman era) – as cenas de ação são muito bem ritmadas – e, no geral, bem coreografadas, mas, infelizmente, existe alguma falta de capricho em disfarçar o excesso de pixels visíveis nas cenas de voo do Cyborg, nos movimentos dos Parademônios do Lobo de Estepe ou da batalha das amazonas no inicio, evidenciando o excesso do uso da tela verde – mesmo problema visto no filme solo da Mulher Maravilha, quando o CGI parece CGI, e não algo “real”.
Ainda abrangendo os aspectos temáticos, o filme começa com um vídeo-flashback, representando uma criança filmando com um celular uma ação do Superman nas ruas – o menino pergunta ao herói o que ele via de bom na humanidade e Cavill demonstra não saber o que responder – acreditei estar diante do começo de um filme que poderia debater questões sobre a importância dos humanos quererem conviver melhor em sociedade – mas o roteiro simplesmente se esqueceu disso, apenas focando, mais a frente, sobre a necessidade de reconhecimento por parte dos integrantes da Liga – algo que, segundo o filme, inspiraria as pessoas do mundo a serem, de fato, melhores.
Liga da Justiça acaba por se adequar as criticas que os filmes anteriores de seu universo sofreram – é mais movimentado, menos tenso e sombrio – tem mais cara de revista em quadrinhos mesmo – faltou apenas um roteiro mais coeso para criar um vilão marcante e um maior cuidado com seus efeitos digitais – mas, ainda assim, é suficiente para firmar o futuro da franquia, possibilitando melhores episódios à frente – contando com bons atores dentro do time de super-heróis, só esperamos que o futuro da DC nos cinemas não seja só uma variação dos Vingadores com o Superman, Batman, Mulher Maravilha, Cyborg, Flash e Aquaman no lugar.