Talvez, não estamos preparados.
Os comentários que diversas pessoas, entendidas ou não em cinema, vem apresentando sobre o novo filme sobre Superman são que, esse é o melhor de todos os tempos sobre o grande herói dos quadrinhos norte-americano. Talvez classificá-lo como o melhor requer visões diversas, que, muitas vezes, tornam-se esquecidas, como os grandes admiradores tanto do personagem quanto dos filmes antigos da franquia. Tal olhar poderá persuadir sensações diversas e, é nesse ponto, que a discussão acerca de O Homem de Aço, torna-se bastante interessante.
Os fiéis amantes de Christopher Reeve e a antiga saga dos filmes antigos, iniciada por Richard Donner, nos idos anos 1970, explicitam uma limitada decepção. Não há Lex Luthor, Clark jornalista, a Lois Lane não é um produto caricato, sem cueca por cima das calças, e, principalmente, e, talvez o maior vazio, seja não escutar as trombetas incitantes da trilha de John Williams. Se, por acaso, persistem fãs da última versão, a de 2006, em que nem mesmo Kevin Spacey passa no teste, a decepção é vibrante em querer descobrir, de modo frustrante, o futuro do filho do herói, que passa muito longe no imaginário dessa vigente produção.
Os fãs específicos de Superman, dividem-se entre a necessidade de uma dinâmica mais concreta e objetiva, sem grandes intervenções kryptonianas na Terra, e a felicidade em verem a história bem contada, desenvolvida e articulada de forma acertada e bem distribuída. Muitos admiradores apostam no lado positivo, pelos confrontos fantásticos apresentadas no filme, que não deixam nenhuma batalha mitológica com grandes saudades. Na verdade, essa diversidade altamente “pluralista” que o diretor Zack Snyder conseguiu explorar é o que faz, desse, sem muitos questionamentos, um filme diferenciado.
Tudo está onde deve, ou seja, há grandes efeitos visuais, explosões daqui e dali, chão quebrando, muita pancadaria e tanto mais... e, surpreendentemente, essas não são as maiores qualidades do filme. Após um início altamente linear, completamente intencional, para não deixar o público, “perdido” de primeira, a vida na Terra do menino de Krypton é contada em recortes muito bem escolhidos e montados, com flashbacks delicados e artísticos. Dá gosto de ver qualidade em momentos não esperados.
A organização diferente aliada aos questionamentos muito realistas do jovem Clark descobrindo seus poderes, incitados pelas orientações de seus pais terráquios, que mesmo com as boas e velhas caras e bocas “canastronas” de Kevin Costner e a sempre maravilhosa Diane Lane, fazem os mais humanistas e humanitários engasgarem ou lacrimejarem levemente. Pela primeira vez, o espectador sai convencido das razões do Super-Homem amar o planeta e seus habitantes.
Sem contar na atuação interessante de Henry Cavill que não faz o tipinho “sou forte”, mas endereça-nos verdade em suas ações e gestos. Ele conseguiu juntar as personalidades do Homem-Aranha e do Wolverine em um só. Perceba da próxima vez, se o rosto do ator não possui uma ânsia tanto devastadora quanto romântica ao mesmo tempo. Ainda há, claro, Amy Adams, trazendo-nos uma Lois Lane diferente, mais humana e menos metida a engraçada como nas produções pretéritas. Não se pode esquecer, claro, de um Russel Crowe direitinho, mas de um Michael Shannon bem enjoadinho na trama.
Somando tudo isso, a essa temática bem exposta, lá estão as explosões e efeitos, para não decepcionar ninguém. Em termos cinematográficos, o filme é realmente muito bom. Afinal, mais uma vez, a ideia de Nolan em conseguir transformar o fantástico em perceptível, como já havia feito em seus Cavalheiros das Trevas, misturando a virtude do herói com reflexões sociais e humanas de maneira dura sem “pegar pesado”, é fascinante. Esse é o maior triunfo desse roteiro de David S. Goyer que já assinara os mencioados “Batmans”.
A tristeza ou alegria é ainda perceber a ânsia de morte desejada por nós aos vilões, enquanto o bondoso herói quer apenas salvar-nos. Fica claro que muitos saem do filme, pensando quando será o próximo e elogiando os belos efeitos, ou até mesmo quem sabe, alguns praguejando o protagonista na dor que o fez tornar vitorioso, chamando-lhe internamente de “idiota”. Essa era a intenção oposta do filme. Snyder nos alfinetou suavemente, questionando-nos a elevação pobre da essência positiva em comparação a uma progressão negativa de nossas próprias almas. Assim como a certeza de Jonathan Kent e o questionamento do homem de aço, talvez, não estejamos preparados para ele.