Uma boa surpresa!
Um dos riscos que se corre em filmes de ação e' esvaziar as personagens de sua dimensão interior, que e' onde se cria uma empatia com o público. Nesta versão, somos presenteados com muito mais contexto quanto às origens da história, como o que se passou em Kripton antes do colapso final do planeta. A sequência em que Russel Crowe se arrisca para garantir que o filho se salve é visualmente maravilhosa e dramática, porque ele consegue dar intensidade e angustia ao papel, sem decepcionar os que precisam de adrenalina.
As cenas da família no interior do Kansas também são essenciais para a construção do caráter do herói, principalmente quando nos mostram a infância de Clark, quando o pequeno extraterrestre se via oprimido pelos próprios poderes, que não conseguia explicar ou controlar. O elenco está perfeito – novamente alicerçando a questão da empatia e da família, como poderoso núcleo gerador do caráter do herói. Ao se comparar o Homem de Aço tanto com seres com quem compartilha semelhança – humanos ou kriptonianos – o que faz dele um herói não é a invencibilidade, mas o equilíbrio entre força versus vulnerabilidade que por sua vez se ancora num cerne afetivo e no senso de responsabilidade e respeito diante da vida, do Universo.
Como se espera de uma associação entre diretor Zack Snyder com Christopher Nolan, o filme é bem mais sombrio: nas cores (não apenas do novo uniforme, mas de todas as tomadas), na trilha sonora (magnífica), na opção das personagens não projetarem a velha imagem artificial e estereotipada do Bem, do Belo e do Perfeito. Essa característica sombria dá homogeneidade ao filme e contemporaneidade à trama, já que a América de hoje não ilude mais ninguém (nem a si própria) com uma imagem de perfeição.
O próprio Henry Cavill, que encarna o Homem de Aço, tem um belo rosto de maxilar forte, mas é algo melancólico - mais apropriado ao seu drama interior do que o sorriso confiante e voz de barítono do super homem engomadinho do passado.
Como se trata da narrativa do herói em formação, é bem mais coerente e funcional ao arquétipo que sejam expostos seus conflitos e que o questionamento (humano?) sobre suas origens e a finalidade de sua existência se façam presentes. Aqui, o homem de aço , além de inexperiente como herói, não apenas toma decisões imperfeitas como também se vê impotente para, ao sanar um mal, evitar que outros males aconteçam. Isso e’ novidade em termos de Super Homem impecável e infalível, e expõe fragilidades da personagem que tornam sua existência mais rica e complexa. Em processo semelhante ao que acontece com o James Bond atual, ele se encontra fora de sua zona de conforto, o que e' bem mais "humano" e empático do que um justiceiro fortão e invencível.
As personagens, atualizadas, abandonaram seus estereótipos. Sem o hiper-polimento dos anos 60, todas apresentam certo grau de conflito, vulnerabilidade e responsabilidade em relação aos rumos da trama, que e' bem coesa. Lois Lane não e’ uma pin-up bancando a repórter. Ela é menos glamorosa e mais comum, mas sem deixar de fazer contraponto com o Homem de Aço porque por sua vez é muito mais “mãos `a obra” e realista, humana. Os pais adotivos americanos, gente boa do interior, imprimem `a criação do herói a solidez das pessoas que cresceram em comunhão forte com a terra, imbuídas de valores simples e claros, com senso de obrigação e propósito. Os vilões estão encabeçados dignamente por Michael Shannon e Antje Traue, em caracterizações perfeitas. A motivação dos vilões também se explica, a certa altura, levando a questionar se os futuros vilões conseguirão tanta densidade.
A narrativa é entrecortada por flash-backs sem perder o ritmo, mas isso pode levar parte do público a perder de vista varias sutilezas ou mesmo as justificativas internas da trama que conectam as cenas, principalmente os que se distraírem facilmente com as típicas explosões e afins. Alem disso, os desatentos ou puristas apegados demais `as referências literais do gibi clássico vão sentir falta de certos elementos tradicionais e não vão perceber que estão METAFORICAMENTE PRESENTES, dando mais viabilidade `a historia. Assistindo, achei ótimas as soluções para elementos emblemáticos, mas já consigo imaginar gente falando “Tá, mas como é que apareceu o uniforme?” e coisas do tipo.
Não se pode antecipar se, no desdobramento dos próximos filmes, o Henry Cavill vai segurar a onda e conferir a garra que a personagem precisa para chegar a um acordo quanto `a sua missão como ser extraordinário, mas nesse primeiro momento, sua abordagem é apropriada.
Minha única critica ao filme (devo ser a única no mundo) foi excesso de cenas de ação (sou da velha guarda). Vende bilheteria hoje, especialmente em 3D. Fico imaginando como foi difícil editar o filme e decidir entre o que cortar, o que manter. Alinhada a outras produções do gênero super herói, não deixa a desejar (muitos vão ver o filme só por causa disso). Hoje em dia, com tantos filmes nessa linha, chega-se a um ponto em que os efeitos especiais num único filme são tantos, que não produzem mais um clímax, mas uma espécie de platô, onde as explosões se sucedem sem causar assombro ou emoção. Mas tirar isso de Nolan seria amputar a identidade da produção.
Vou assistir de novo, e provavelmente vou encontrar mais qualidades que não estou contemplando na primeira vez. Confiram!