“Interestelar”, filme dirigido e co-escrito por Christopher Nolan, se passa num futuro que pode não estar muito distante de nós. Nele, o planeta terra foi completamente exaurido de boa parte de suas reservas naturais e as fontes de alimento, da mesma forma, estão escassas. As pessoas vivem sob uma nuvem constante de poeira que pode muito bem também ser uma metáfora utilizada pelo diretor e roteirista para nos mostrar o quão incerto é o destino da humanidade e a certeza da própria continuidade da espécie e da nossa existência.
É nessa realidade que Cooper (Matthew McConaughey) tenta criar seus filhos Murph (interpretada, nas diversas fases de sua vida, por Mackenzie Foy, Jessica Chastain e Ellen Burstyn) e Tom (interpretado por Timothée Chalamet e Casey Affleck) com a ajuda de Donald (John Lithgow), pai de sua falecida esposa, numa fazenda cuja especialidade é a plantação de milho. Um detalhe importante a ser notado em Cooper é que, no passado, antes do planeta terra ter entrado na sua decadência, ele foi treinado pela NASA como piloto de naves espaciais.
É justamente essa qualidade particular de Cooper que será fundamental para que ele se junte a um grupo de astronautas – Brand (Anne Hathaway), Doyle (Wes Bentley) e Romilly (David Gyasi) – numa missão cujo objetivo é verificar a existência de possíveis planetas que possam receber a população mundial, garantindo, desta maneira, a continuidade da espécie humana. Essa missão tem como base um trabalho que já está sendo desenvolvido por outros astronautas, todos mentes brilhantes, que já estão em determinados planetas verificando a possibilidade dos mesmos serem habitados por humanos.
Um dos pontos positivos do roteiros escrito pelos irmãos Jonathan e Christopher Nolan é o fato de eles terem inserido na história de “Interestelar” um elemento que é fundamental para o sucesso de qualquer filme: compaixão – aquele sentimento que nos faz sentir empatia com os seres que estão em tela, de forma a nos colocarmos no lugar deles e nos sentir parte daquela história. Tome-se como exemplo, a storyline de Cooper, que é muito poderosa, no sentido do sacrifício que ele faz em prol da garantia do futuro dos seus filhos – a quem ele nunca mais poderá ver, caso a sua missão termine de uma maneira errada.
Entretanto, isso não é fundamental para a experiência que é “Interestelar”, o qual é mais um dos filmes em que os irmãos Nolan introduzem uma série de conceitos interessantes que contribuem para o chamado “cinema inteligente” que eles praticam. Eles não facilitam a vida para a plateia, uma vez que, para compreender tudo aquilo que eles querem passar, será necessária uma boa dose de atenção, bem como várias visitas a esse filme.
Nós, seres humanos, estamos bem mais familiarizados com duas dimensões: o tempo e o espaço. Isso, no sistema solar, não existe, uma vez que, ali, são várias as dimensões existentes – e todas convivendo entre si, ao mesmo tempo. “Interestelar” nos desafia a tentar compreender todas essas variáveis, de forma a que possamos ultrapassar todos os limites existentes dentro da nossa mente, abrindo um conjunto infinito de possibilidades de interpretação. Isso só é possível, pois o filme se passa num ambiente como o espaço sideral, onde a exploração não conhece fronteiras.
Neste sentido, esqueça, portanto, tudo aquilo que lhe falaram ou que você leu sobre “Interestelar”. Embarque nessa jornada de peito aberto, pronto para experimentar a viagem que Christopher Nolan nos propõe – se possível, muitas e muitas e muitas vezes, nos mais diversos tempos, nos mais diversos lugares e das mais diversas formas. Tenha certeza de que as portas para a percepção do que o filme se propõe a nos falar e a nos levar serão abertas.