Nolan não decepciona.
Com Interstellar, ele entregou essencialmente aquilo que eu esperava e desejava:
1. Um elenco de peso com boas atuações;
2. McConaughey continua sólido, dando continuidade à fase excepcional que vive;
3. Roteiro intrigante e coeso, fazendo com que as quase 3 horas de filme passem rápido (quase como se o nosso próprio tempo fosse "relativamente" distorcido). É sim recheado de explicações teóricas a respeito dos temas abordados (relatividade e física quântica), mas absolutamente necessárias para que 99,9% dos espectadores compreendam-no;
4. Um espetáculo visual absolutamente deslumbrante. A nova película é uma profusão de cores, formas e texturas envolventes e surrealisticamente belas;
5. Boa trilha sonora, a contrário do que li em alguns comentários e resenhas. Talvez não seja o melhor trabalho de Hans Zimmer, mas o mesmo não prescindiu de brilho.
Mas todas essas considerações são aquelas tipicamente esperadas quando comenta-se a respeito de um filme. Contudo, como reflexo da ambição cinematográfica de Nolan, Interstellar não é apenas mais uma excelente obra da Sétima Arte. O filme transcende essa barreira e seu conteúdo visual passou a ser encarado como objeto de interesse da comunidade científica.
Sabe-se que o resultado visual observado não é fruto da criativa imaginação da equipe de efeitos visuais ou do próprio Nolan. Não é algo aleatoriamente pensado apenas como componente para o deleite visual do espectador. Em Interstellar nada é aleatório. Interstellar é, além de arte, ciência.
Reforçando o comentário que McConaughey já havia feito em entrevistas - afirmou que Interstellar é o mais ambicioso projeto de Nolan -, o Dr. Kip Thorne, respeitadíssimo ícone no campo da astrofísica, participou incisivamente do filme. E de que forma? O cientista simplesmente concebeu e entregou à produção resmas de cálculos que foram utilizados na concepção dos efeitos especiais. Para tal, foi especialmente desenvolvido um programa a fim de simular os cálculos do Dr. Kips. As equações e cálculos foram rodados pelo programa, de modo que os resultados vistos (sobretudo no Buraco de Minhoca e no Buraco Negro) são frutos diretos desses estudos.
Mais do que isso, a simulação daquilo que seria a representação visual de um Buraco Negro foi tida como a mais precisa já criada, tendo o Dr. Thorne afirmado que poderia ter no mínimo dois artigos científicos publicados exclusivamente a respeito das imagens conquistadas por Nolan. A riqueza e complexidade das imagens é tamanha que a renderização de apenas alguns frames individuais chegaram a consumir nada mais nada menos do que 100 horas de trabalhos. Interstellar, ao final, chegou a acumular aproximadamente 800 terabytes de dados, ou seja, é algo de proporções homéricas.
Aí surge, a meu ver, mais um grande feito de Interstellar: entregar ciência rigorosamente ancorada em postulados teóricos e, ao mesmo tempo, ser prazeroso, envolvente e sedutor para qualquer cinéfilo.
O roteiro lança mão de alguns clichês exaustivamente explorados - quase todos ligados à fração emocional do enredo -, mas não vejo tal "recurso" como algo necessariamente deletério ou pejorativo. Quando bem encaixado no contexto (de um jogo, filme ou obra literária), acaba por somar em vez de subtrair. É o caso do filme de Nolan.
Em suma, Interstellar é o melhor filme de ficção científica dos últimos 10 anos (sim, achei-o superior a Gravidade, embora sejam filmes de propostas claramente distantes) e, permito-me dizer, sem nenhuma pretensão, o único que até hoje poderia afirmar-se como digno sucessor espiritual do clássico 2001.
Chris Nolan há anos vem firmando-se como um dos melhores diretores da nova safra e, com Interstellar, robustece ainda mais a sua já consistente filmografia. Obrigatório para apreciadores do cinema.