Fui assistir A Própria Carne com o coração aberto — especialmente por admirar o trabalho do Jovem Nerd e a coragem de investir em cinema de gênero no Brasil. No entanto, a experiência acabou decepcionando.
Desde os primeiros minutos, o filme tenta impor tensão através de uma paleta escura e uma trilha constante, mas o efeito soa forçado. A atmosfera é criada por artifício, não por narrativa. Falta densidade, falta história — e o resultado é um suspense que quer ser opressivo, mas acaba vazio.
As personagens não despertam empatia nem provocam interesse. Falta humanidade, e o espectador permanece distante. Os diálogos, por sua vez, são monótonos — sempre no mesmo tom e intensidade, sem ritmo ou variação emocional. Além disso, a mixagem de som é incômoda: as vozes soam excessivamente próximas do espectador, sem qualquer ambiência. Em muitos momentos, parece que foram dubladas em estúdio, e não gravadas no ambiente da cena, o que quebra totalmente a imersão. Por algum motivo, as vozes e os espaços do filme simplesmente não pertencem um ao outro.
Outro problema grave está na espacialidade. Mesmo com um cenário reduzido, o filme não consegue nos situar. Não entendemos como os cômodos da casa se conectam, nem onde o celeiro está em relação à residência. Essa desorientação geográfica não é intencional — é resultado de uma direção que não domina a mise-en-scène. Num filme de terror, o espaço é um personagem; aqui, ele é apenas um borrão.
Percy entrega uma boa atuação, talvez a mais consistente do elenco, mas sua performance parece limitada por uma direção que não sabe como valorizá-la. Os diálogos são engessados e a direção de atores carece de naturalidade, transformando o que poderia ser tensão em artificialidade.
No fim, o que mais incomoda em A Própria Carne é a insistência em parecer um filme tenso, mesmo sem ser. Tudo é montado para impor peso e gravidade, mas sem nunca construir de fato essa sensação. Faltam momentos de respiro, de humanidade, de contraste. O início, por exemplo, poderia ter mostrado os guerreiros em um ambiente mais realista — com luz natural, cores abertas e um pouco de vida — antes que a escuridão se instaurasse. Esse contraste daria contexto, criaria vínculos e tornaria o horror genuíno. Sem isso, o filme permanece fechado em sua própria estética, tentando ser denso sem nunca realmente sentir.