Acontecimentos histórias e história íntima marcam drama que arrebatou o público em Cannes.
por Aline PereiraNo último minuto, A Terra do Meu Pai me fez derramar lágrimas inesperadas - e ali percebi que havia passado quase uma hora e meia sem me mover, sem desgrudar os olhos da tela e imersa em uma trama tão íntima, quanto global; tão atemporal, quanto contemporânea. Não à o filme assinado pelo diretor polonês Paweł Pawlikowski foi um dos grandes destaques do Festival de Cannes 2026 e rendeu ao cineasta o prêmio de Melhor Direção. É um grande filme mesmo.
A Terra do Meu Pai é um filme biográfico baseado na história do escritor alemão Thomas Mann, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1929 e considerado um dos melhores autores da história. Acompanhamos parte importante trajetória do escritor, interpretado por Hanns Zischler (Munique) ao lado da filha, Erika, em mais um grande trabalho de Sandra Hüller, que ganhou projeção em Anatomia de Uma Queda e, em 2026, co-estrelou Devoradores de Estrelas e Digger.
Nascido na Alemanhã, Thomas Mann saiu do país no início do regime nazista e viveu por mais de uma década nos Estados Unidos. Ao retornar à terra natal, no final da década de 40, poucos anos após a morte de Hitler, o escritor sofre uma dura rejeição por grande parte de seus compatriotas, que o consideravam traidor por ter deixado o país e se posicionar claramente contra o ditador.
Costura entre história de íntima de família e acontecimentos históricos constrói filme magnético
MUBI
Ao mesmo tempo em que fatos históricos amplamente conhecidos – e acredito que o conhecimento básico do período dê conta de situar o espectador – dão o tom de tensão ao plano geral da história, algo muito mais melancólico acontece entre a família Mann. A relação entre Thomas e Erika é complexa e ao mesmo tempo em que formam uma dupla de pai e filha fria e distante, existe uma compreensão silenciosa entre os dois, fundamentada, especialmente, em uma aura de tristeza que praticamente sai da tela e atinge quem assiste. Penso que é o tipo de filme para terminar de assistir em silêncio, reflexão e introspecção.
Erika é quem está próxima do pai no retorno a uma terra que, agora, parece estranha. “Onde moro é uma coisa, o lugar a que pertenço é uma questão muito mais difícil”, diz Thomas em um momento que nos expõe uma das grandes questões propostas no filme: diante da desconfiguração de seu país durante o holocausto e a saída para uma terra estrangeira, fica, para a família, uma sensação de desconexão tanto física quanto emocional em relação aqueles que ficaram.
Aqui, vale destacar a construção magnética da química entre os atores: Sandra Hüller e Hanns Zischler têm uma troca impressionante em cena. A profundidade e o estranhamento na relação entre os personagens são minuciosamente contrapostas a momentos de afeto que também são esquisitos. Há uma sensação de incômodo permanente, mas fica clara também a ligação da família – e vejo esses sentimentos provocados em grande parte pela construção sensível, sutil e bem elaborada das atuações.
Estética de A Terra do Meu Pai é um ponto alto para o entretenimento
MUBI
Enquanto a história melancólica faz sua parte em provocar reflexão, o entretenimento (no sentido de captura de atenção à imagem) fica por conta das escolhas estéticas de Pawlikowski. Preciso, antes, dizer que tenho uma resistência particular a filmes atuais em preto e branco porque acho difícil me convencerem que é um recurso que torna a experiência mais interessante e não apenas uma “firula”. Fui convencida.
Com a sensação de acompanhar uma série de quadros com significados que tornaram a história mais viva, as escolhas em relação às imagens – além da cor, os ângulos, o design de produção e a fotografia –, tornaram A Terra do Meu Pai uma experiência marcante também na memória visual. Nos últimos minutos, como citei no início, há uma amarra na história da família Mann que completa o círculo íntimo, simbólico e, mais do que eu esperaria, emocionante.
Filme assistido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
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