Conhecido como "filme de terror do DCU", Cara-de-Barro encontra na audácia a sua principal potência
por Rafael FelizardoEm 2013, Zack Snyder colocou a primeira pedra do que viria a ser o Universo Estendido DC, também conhecido como DCEU. Na época, o cineasta dirigiu O Homem de Aço, um filme que, confesso, fui uma das poucas pessoas que conheço a gostar. A partir daí, uma série de fracassos derrubaram o universo de Snyder - e projetos como Aquaman 2 e The Flash serviram para jogar a pá de cal. Foi então que a Warner Bros. olhou para a rival, Marvel, e contratou um diretor que por lá fazia sucesso: James Gunn.
Ao lado de Peter Safran, Gunn assumiu comando e logo instaurou o chamado DCU, com a proposta de revitalizar o DC Studios. Superman, Comando das Criaturas, Lanternas e mais foram algumas das produções dessa nova fase, e é nesse contexto que chegamos a Cara-de-Barro.
Lançado em 2026, Cara-de-Barro aposta em uma vertente mais sombria do universo dos super-heróis. Dirigido por James Watkins, o longa-metragem é centrado em um dos personagens mais marcantes da galeria de vilões do Batman, interpretado pelo ator Tom Rhys Harries.
Cara-de-Barro tem na coragem um grande aliado
No enredo, acompanhamos a história de Matt Hagen, um ator em ascensão que parece estar com a vida perfeita. Entretanto, tudo muda quando ele se envolve com a namorada de um poderoso mafioso, principalmente após ser brutalmente atacado e ter seu rosto desfigurado. Desesperado para recuperar a aparência e retomar a carreira, Hagen recorre a uma substância experimental que promete regenerar tecidos danificados. Porém, o tratamento provoca uma transformação inesperada, e dá a ele a capacidade de alterar a própria forma e assumir diferentes identidades.
Warner Bros. Pictures
Uma das coisas que mais me agrada em Cara-de-Barro é a sua ousadia. Sem participações especiais, sem cenas pós-créditos, o filme se preocupa majoritariamente com o seu objetivo textual, sem a necessidade de conectá-lo a outros títulos. Aqui, há espaço para que Matt Hagen exista por conta própria, e isso confere ao projeto uma autonomia rara dentro de um universo compartilhado.
Se em momentos anteriores - principalmente com a Marvel - discutia-se uma certa fadiga em relação a filmes de super-heróis, o DCU parece ter entendido o recado, e tem apostado em produções que ao menos tentam fugir do convencional. Recentemente, o estúdio lançou a ótima Lanternas, uma série que se encaixa perfeitamente nessa proposta.
Cara-de-Barro é um filme de terror?
Durante a campanha de divulgação, Cara-de-Barro foi alçado quase à condição de um filme de terror, embora, particularmente, não o enxergue dessa maneira. O longa, de fato, flerta com o body horror em diversas tomadas, mas incorpora também nuances de comédia e se ancora muito mais nas convenções do suspense do que propriamente no terror.
Com uma classificação para maiores de 18 anos, Cara-de-Barro não economiza na violência gráfica, e apresenta sequências carregadas de gore que exploram tanto a deterioração física quanto a desintegração psicológica de Matt Hagen. Ainda assim, a produção não abandona certas particularidades das histórias em quadrinhos, como as explicações pseudocientíficas que, por vezes, desafiam a lógica, mas que sempre deixamos passar.
Assinado por Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill) e Hossein Amini, o roteiro de Cara-de-Barro está longe de ser um primor, e tem um excesso de exposição que incomoda. Entretanto, há um aspecto interessante na forma com que ele antecipa o destino de Hagen por meio de pequenos indícios disseminados ao longo da trama, seja na forma de uma imagem distorcida no espelho ou até mesmo na estampa despretensiosa de uma camiseta.
No fim das contas, até existe um investimento que ultrapassa o superficial no texto de Cara-de-Barro, mesmo que nem todas as ideias alcancem a profundidade desejada.
Filme tem efeitos práticos de destaque, mas atuações insossas
Warner Bros. Pictures
Outro mérito de Cara-de-Barro está no uso de efeitos práticos. Em uma época onde o CGI frequentemente domina as grandes produções de Hollywood, James Watkins opta por conferir materialidade às transformações de Matt Hagen, e recorre a próteses e maquiagem - muito bem feitas - para construir boa parte de seu terror corporal. Não que não haja computação gráfica no projeto, mas existe uma preocupação em fazer com que os efeitos digitais atuem como complemento. O resultado é uma fisicalidade que torna as mutações do protagonista mais incômodas, e garantem verossimilhança em um universo amplamente fantasioso.
Há algo genuinamente desconfortável em observar o corpo de Hagen se deformar diante das câmeras. Em uma das cenas mais interessantes do longa - bastante divulgada em teasers e trailers - vemos nosso protagonista levar uma tesoura ao olho, o que cria uma tensão palpável. Frequentemente, o grotesco de Cara-de-Barro não é apenas um recurso estético, mas parte fundamental da construção dramática de um personagem.
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Em termos de atuações, Tom Rhys Harries entrega uma performance sem brilho, enquanto Naomi Ackie está bem abaixo. Já Eddie Marsan encontra-se naquela categoria de personagem pelo qual ficou famoso: um homem de moral duvidosa e definitivamente pouco confiável. No conjunto, o elenco não compromete tanto a experiência, embora tampouco consiga elevar o material a um patamar acima.
Vale a pena assistir a Cara-de-Barro?
Com um ritmo rápido que me incomoda um pouco, cenas de grande apelo estético e bem-vinda coragem, Cara-de-Barro vale sim a ida ao cinema. Há no filme uma clara influência de Sam Raimi, principalmente na ridicularidade - no bom sentido - de alguns momentos.
Embora esteja longe de ser impecável, a produção demonstra que ainda há espaço para experimentação dentro do gênero de super-heróis. Entre efeitos práticos bem executados, escolhas visuais interessantes e uma narrativa que nem sempre consegue acompanhar as próprias ambições, Cara-de-Barro encontra méritos suficientes para justificar sua existência - o que, convenhamos, já é mais do que se pode dizer de boa parte dos filmes de super-heróis lançados nos últimos anos.
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