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Kamila A.
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816 críticas
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5,0
Enviada em 21 de julho de 2025
O Censo 2024 revelou o crescimento da religião evangélica no país. Atualmente, no Brasil, os evangélicos representam 26,9% da nossa população - um aumento de 5,2 pontos percentuais comparado com o Censo 2010.
O documentário “Apocalipse nos Trópicos”, dirigido e co-escrito por Petra Costa, tem como objetivo principal investigar o aumento do controle exercido por lideranças evangélicas sobre a política brasileira.
Da mesma forma que houve um aumento expressivo da população evangélica no Brasil, podemos perceber o crescimento da bancada evangélica no Congresso Nacional, bem como a ampliação dos evangélicos eleitos para cargos de chefia de governo, em todas as suas esferas.
Para tanto, Petra Costa estuda, em seu documentário, a ascensão do governo Bolsonaro. Para a diretora, foi neste momento em que tivemos a instauração de uma teocracia no Brasil - um sistema de governo em que o poder político se encontra fundamentado no poder religioso, pela representação do governante como a própria entidade, como se ele tivesse sido ungido para o poder.
Em sua tese, Petra dialoga com autoridades políticas, com autoridades religiosas (notadamente o Pastor Silas Malafaia - ele mesmo um vértice importante para a ascensão da extrema direita no Brasil) e com evangélicos, de forma a tentar compreender como este fenômeno se instaurou em nosso país.
O documentário termina com o ocaso do governo Bolsonaro, os atos antidemocráticos de 2023, em que os admiradores do ex-Presidente, influenciados pelo quê ou por quem, tentaram efetuar um Golpe de Estado em nosso país.
Interessante perceber que, para Petra, a visão sobre o conceito de apocalipse não inclui o seu comum significado como “o fim do mundo”. A diretora se agarra ao significado grego que a palavra possui: descobrir ou revelar algo que estava oculto.
Com “Apocalipse nos Trópicos”, o que Petra Costa nos revela é que o adversário tem armas poderosas em prol de seus próprios interesses. O que precisamos entender é que a estrutura milimetricamente calculada de Brasília representa algo que nos foi revelado no pós 08 de janeiro de 2023: aquelas instituições, travestidas de instrumentos de poder, são responsáveis pela garantia de nossos direitos e daquilo no qual a nossa frágil democracia está construída.
Este é um documentário que estreia num timing perfeito, para nos relembrar de tudo isso.
Petra Costa consolida em "Apocalipse nos Trópicos" (2024) uma assinatura cinematográfica distintamente marcada pela fusão do íntimo com o político. Se em "Elena" (2012) explorava o luto familiar e em "Democracia em Vertigem" (2019) vinculava a crise brasileira à sua própria biografia, aqui sua narração em off reconhece uma anterior ignorância sobre as escrituras bíblicas. Ao assumir-se como outsider decifrando os códigos do evangelicalismo, Costa posiciona-se como mediadora entre universos antagônicos. Contudo, revela certa miopia de classe ao expressar surpresa diante da "importância da religião no século XXI". Sua voz poética, outrora criticada como desconexa, transforma-se em dispositivo de estranhamento, convidando o público urbano e secularizado a adentrar um Brasil sistematicamente invisibilizado.
Anatomia de uma Teocracia: Malafaia como Estratégia
O cerne do documentário reside no acesso privilegiado a Silas Malafaia, retratado não como caricatura, mas como estrategista político-religioso cujos métodos ecoam o marketing neoliberal:
- Teologia da Prosperidade como Commodity: Malafaia comercializa bênçãos e vitórias eleitorais, atrelando fé ascensão material; - Apocalipse como Instrumento de Controle: A retórica do "fim dos tempos" serve para justificar alianças com a bancada da bala e discursos autoritários ("precisamos de homens fortes"); - A Conquista dos Sete Montes: O projeto transnacional de dominar instituições-chave (política, mídia, educação) é exposto em sua vinculação com redes evangélicas norte-americanas.
Costa evita confrontos diretos, optando por uma exposição dialética: enquanto Malafaia defende armamento e ataques a minorias, imagens de corpos durante a pandemia desmentem sua retórica de "defesa da vida". Essa montagem construtivista constitui um acerto ético: a violência do projeto revela-se na contradição entre palavra e realidade.
Limites da Ambição Narrativa
Sob uma perspectiva agnóstica, o documentário expõe falhas estruturais relevantes:
1. A Ilusão da Neutralidade Científica: Embora registre líderes evangélicos deslegitimando a ciência (como na promoção da cloroquina), o filme negligencia as raízes epistemológicas do anti-intelectualismo. A fé como resistência à secularização permanece tema ausente, reduzindo o fenômeno à "manipulação".
2. A Esquerda como Cúmplice Inconsciente: Em cena reveladora, Lula admite: "O erro da esquerda foi negar a religião". Demonstra-se como o PT, ao secularizar seu discurso, alienou periferias religiosas, facilitando sua cooptação pelo neopentecostalismo – uma autocrítica velada à esquerda brasileira.
3. O Capitalismo Religioso Invisibilizado: A simbiose entre mercado e fé é apenas tangenciada. Malafaia opera como estrategista à frente de um conglomerado midiático, mas fluxos financeiros e parcerias corporativas não são detalhados. Para uma análise realista, tal lacuna é significativa: as igrejas revelam-se antes empresas do que meros agentes políticos.
Lições para Tempos de Vertigem
Para espectadores céticos, o filme oferece reflexões incisivas: - Fé como Tecnologia de Poder: Narrativas bíblicas (como o Apocalipse) são descontextualizadas para servir agendas terrenas. A religião transforma-se menos em "ópio do povo" que em software de controle; - Vulnerabilidade como Combustível: Fiéis são humanizados não como "idiotas", mas como vítimas de um projeto que explora carências materiais e afetivas. A lição é contundente: o desamparo estatal alimenta messianismos; - Democracia como Farsa: Ao expor pastores e políticos articulando acordos em jatinhos, Costa sugere que a vontade popular é sequestrada por elites teocráticas. O voto perde sentido quando o púlpito dita escolhas.
Alerta Imperfeito, Porém Necessário
"Apocalipse nos Trópicos" não é isento: reproduz assimetrias (Lula questionado; Bolsonaro apenas exposto) e padece de certa superficialidade pela amplitude excessiva. Seu valor primordial, contudo, reside em documentar a erosão democrática a partir de sua engrenagem mais insidiosa: a sacralização da política. Para o espectador cético, a obra serve de antídoto contra análises simplistas. Ao recusar o maniqueísmo, Costa demonstra que o perigo maior não reside na fé, mas em sua instrumentalização por projetos autoritários.
Como registro histórico, o filme atesta a evolução de Petra Costa: do "cinema-resumo" (como criticado em 2019) para o "cinema-interrogação". Se as respostas permanecem incompletas, as perguntas ecoam como alerta urgente: num país onde religião e Estado se confundem, o apocalipse não é profecia – é projeto de poder em execução.
Essencial, mostra como a mescla de religião e política criou e alimento a seita bolsonarista até a tentativa de golpe de estado em 2022. Viva a democracia, mesmo não sendo perfeito ainda é o melhor caminho.
Haja estômago para assistir esse documentário. A maior parte do doc é apenas as falas nuas e cruas dos "profetas" e do seu projeto medonho de alienação em massa. O evangelistão é real e em 2018 chegou ao posto máximo do executivo, agora almeja dominar o legislativo e judiciário. Capitalismo, onde tudo se vende, é a ideologia por trás do crescimento de certas religiões, se unindo em causa e consequência: quem tem dinheiro dita as regras, seja do mundo material, seja do espiritual. Deus me proteja dos religiosos.
Um prisma que, se analisado com isenção, reflete o ciclo de alternância dos poderes, com alegações e insinuações que trocam de braço, de lado, de livro, de culto e credo de maneira cíclica... onde o menor dos interesses é o bem estar do povo. Triste e duradouro.
Sou evangélica e .amei o documentário, foi muito importante mostrar como o Brasil tá se tornando um Afeganistão evangelico. Nao quero um Brasil cristao, pq lá na frente entrara um governo islâmico e tbm não vou querer país muçulmano.
Excelente documentário! Demonstra bem como a vinculação entre Estado e Religião pode ser perigosa, contrariando o princípio constitucional do Estado Laico!
"Cinema tendencioso"?? Que cinema não o é? Documentário fundamental para que o Brasil não se afunde mais na lama em que entramos há alguns anos. Que o Brasil não se transforme em uma teocracia baseada na exploração da ignorância alheia e no cinismo de quem só confirma a profecia do Homem: "Acautelai-vos dos falsos profetas". Cinema deste nível é essencial, porque deixará na História que alguém estava atento ao que pode ser um "The Handmaid's Tale" jeca. Petra e seu cinema são presentes e necessários, graças aos deuses.
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