O Primata inaugura o terror de 2026 apostando em um slasher que tenta se diferenciar pelo antagonista: um chimpanzé. A ideia chama atenção logo de cara e, por si só, já desperta curiosidade, principalmente entre fãs do gênero que buscam algo fora do lugar-comum. Ainda assim, apesar dessa escolha incomum, o filme segue quase à risca as fórmulas e clichês que o terror já repete há décadas. O resultado é um longa que funciona como entretenimento rápido e direto, mas que dificilmente deixa uma marca mais duradoura além de sua premissa curiosa.
A história acompanha Lucy, que retorna da faculdade para passar alguns dias na casa da família no Havaí. Lá, ela reencontra o pai, a irmã mais nova e Ben, um chimpanzé criado como membro da família pela mãe falecida, uma cientista que acolheu o animal ainda filhote. O clima de férias e reencontro não dura muito: após ser mordido por um animal silvestre, Ben contrai raiva e passa a representar uma ameaça mortal. Presos dentro da própria casa, os personagens precisam se refugiar no único lugar que o chimpanzé teme, a piscina, enquanto o terror se instala.
A decisão de transformar um chimpanzé no vilão é, sem dúvida, o maior diferencial do filme. Inicialmente, a ideia era usar um cachorro como antagonista, mas Johannes Roberts opta por um animal que desperta um medo mais instintivo. O chimpanzé, por ser tão próximo dos humanos, carrega uma sensação de ameaça mais desconfortável, quase primitiva. Existe algo inquietante nessa proximidade, nesse espelho distorcido entre o humano e o animal, e o filme sabe usar isso como chamariz.
Nos primeiros momentos, o roteiro até ensaia levantar questões interessantes, como os limites da domesticação de animais silvestres e os riscos reais do vírus da raiva. Há um terreno fértil para discutir até que ponto o ser humano projeta afeto onde existe instinto, e como isso pode gerar consequências trágicas. No entanto, essas ideias nunca passam da superfície. Elas estão ali mais para justificar a situação do que para provocar qualquer reflexão mais profunda. Isso não chega a ser surpreendente, já que o filme claramente se posiciona como um slasher interessado em impacto e ritmo, não em debates. Ainda assim, fica a sensação de oportunidade desperdiçada.
Quando o assunto é entretenimento, O Primata cumpre bem sua função. O filme tem um ritmo constante e dificilmente se arrasta. A sensação de confinamento funciona, e o uso repetido dos mesmos espaços reforça a claustrofobia e a tensão. A casa isolada, o perigo circulando pelos corredores e a impossibilidade de fuga criam um cenário simples, mas eficaz. Colocar um chimpanzé infectado em um ambiente fechado pode parecer clichê, mas dentro da proposta do filme, funciona boa parte do tempo.
Visualmente, o longa também acerta em pontos importantes. O uso de efeitos práticos e animatrônicos para dar vida a Ben é um dos grandes destaques. O chimpanzé é convincente, assustador e, em vários momentos, realmente impressiona. Há um cuidado evidente com maquiagem e efeitos, o que ajuda muito na imersão e evita que o filme caia no ridículo completo, algo que poderia acontecer facilmente com uma proposta dessas.
No entanto, quando o filme tenta assustar de forma mais direta, ele começa a tropeçar. Os sustos raramente funcionam, e existe um problema claro de tom. Em alguns momentos, o filme parece buscar um terror mais sério e opressor, mas logo em seguida escorrega para cenas que acabam soando involuntariamente cômicas. Essa oscilação prejudica bastante a experiência. O espectador não sabe exatamente como reagir: se deve sentir medo ou rir do absurdo da situação. Essa indecisão tonal enfraquece o impacto de várias cenas que poderiam ser muito mais eficazes.
No campo do slasher, o filme tem momentos que funcionam, especialmente quando aposta em violência mais direta e efeitos práticos bem executados. Ainda assim, fica a sensação de que poderia ter ido além. Considerando que o antagonista é um animal selvagem e extremamente perigoso, era possível explorar esse lado com mais criatividade e intensidade. Há competência ali, mas ela é usada com moderação excessiva.
Inevitavelmente, O Primata acaba caindo nos mesmos vícios do gênero. Os personagens são pouco desenvolvidos, cheios de estereótipos e tomam decisões absurdas, muitas vezes apenas para que a história avance. O roteiro segue à risca a cartilha do slasher: personagens descartáveis, situações previsíveis e aquela velha lógica em que o vilão elimina vários personagens com facilidade, mas encontra dificuldades inexplicáveis quando chega a vez dos protagonistas. Tudo isso já foi visto inúmeras vezes, inclusive em outros filmes com animais como ameaça central.
Johannes Roberts parece pouco interessado em subverter essas regras. Sua prioridade claramente está no impacto visual e na entrega de um produto direto para o público fiel do terror. Em alguns momentos, essa escolha funciona. Em outros, especialmente no desfecho, os clichês se acumulam a ponto de tirar parte do impacto. O final é previsível, e quem já conhece o gênero sabe exatamente onde o filme vai chegar muito antes disso acontecer.
No fim das contas, O Primata é um filme que cumpre o básico do entretenimento de terror, mas não vai muito além disso. Ele se sustenta pelo ritmo, pela ambientação claustrofóbica e, principalmente, pela curiosidade de ver um chimpanzé como vilão. As ideias sobre o conflito entre o primitivo e a domesticação, assim como a temática da raiva, existem, mas nunca se aprofundam. O filme prefere chocar pelo visual e apostar no apelo imediato do conceito.
Para os fãs do gênero, é uma experiência válida, rápida e direta. Para quem busca algo mais inventivo ou memorável, O Primata provavelmente será lembrado mais pelo rosto do chimpanzé do que pela história que tenta contar. É um slasher funcional, mas preso às próprias fórmulas: eficiente no momento, esquecível depois.