O ano de 2025 já pode ser considerado um marco para o terror moderno. Depois de títulos impactantes como Nosferatu, Pecadores e A Hora do Mal, o gênero ganhou uma sobrevida criativa, mostrando que ainda há espaço para inovação, novos nomes e diferentes propostas narrativas. Nesse cenário, Faça Ela Voltar chega para reforçar essa tendência, trazendo novamente à cena os irmãos Danny e Michael Philippou, diretores do elogiado Fale Comigo (2022). Ao voltarem à parceria com a A24, os cineastas deixam claro que não estão interessados apenas em repetir fórmulas ou criar sustos fáceis, mas em reafirmar sua autoria dentro de um cinema de terror que sabe equilibrar impacto visual com densidade emocional.
O grande mérito dos Philippou neste novo projeto está na escolha de um terror mais sensorial do que explícito. Diferente de Fale Comigo, onde a experiência ritualística era a essência da narrativa, Faça Ela Voltar desloca o foco para a exploração de sentimentos universais como luto, perda e culpa. O horror não se apoia em uma mecânica sobrenatural detalhada, mas no sofrimento íntimo de sua protagonista, Laura (Sally Hawkins), que vive dilacerada pela morte da filha. Esse deslocamento é essencial para entender o filme: não se trata de acompanhar apenas aparições ou rituais misteriosos, mas de testemunhar até onde alguém pode ir movido pela dor da ausência e pelo desejo de reverter o irreversível.
Essa escolha narrativa já afasta parte do público que espera um terror clássico, baseado em sustos que perseguem a mente por dias. Aqui, a tensão nasce muito mais do desconforto psicológico do que do impacto físico. Ainda assim, quando os irmãos Philippou recorrem ao horror gráfico, fazem isso de maneira estratégica, em momentos específicos, e o efeito é imediato: são cenas capazes de embrulhar o estômago. O gore, quando surge, é desconfortável, mas jamais gratuito. Ele funciona como choque de realidade, lembrando que, por trás do drama emocional, ainda existe um terror palpável e visceral.
A ambientação é outro ponto de destaque. Quase toda a narrativa se passa dentro da casa de Laura, um espaço sufocante que, aos poucos, deixa de ser apenas cenário e se transforma em personagem. A reclusão reforça a sensação de aprisionamento e, quando a câmera nos insere naquele ambiente, o incômodo é inevitável. O filme nos prende nesse mesmo espaço emocional e físico em que a protagonista está enclausurada, criando uma atmosfera densa e difícil de escapar.
Nesse sentido, Sally Hawkins é o coração pulsante do longa. Conhecida por papéis luminosos e carismáticos, a atriz surge aqui irreconhecível. Sua Laura é abatida, frágil, mas também consumida por uma determinação perigosa de trazer a filha de volta, custe o que custar. É uma atuação cheia de nuances, que vai da dor silenciosa à obsessão devastadora. Hawkins entrega uma performance tão intensa que apaga a imagem de delicadeza que o público associa à atriz, revelando uma personagem cega pelo próprio sofrimento. É um dos melhores trabalhos de sua carreira e o maior pilar do filme.
O elenco mirim também surpreende. Jonah Wren Phillips, com apenas 12 anos, encara um papel de grande peso, interpretando o garoto que acaba possuído pela entidade. Seu desempenho é perturbador e cheio de impacto, demonstrando uma maturidade impressionante para a idade. Billy Barratt e Sora Wong, que vivem irmãos na trama, também cumprem papéis fundamentais, criando química e funcionando como a ligação emocional que sustenta o senso de urgência da narrativa. Cada personagem carrega um fardo: Laura é consumida pelo luto, Oliver sofre pela entidade que o domina, Piper enfrenta uma deficiência visual, e Andy lida com traumas e dúvidas do passado. Essa estratégia narrativa, de atribuir camadas individuais a cada figura, enriquece o filme, mas também acaba se tornando uma faca de dois gumes.
E aqui entra a maior contradição de Faça Ela Voltar. Se, por um lado, a multiplicidade de temas e conflitos dá profundidade, por outro, faz com que a narrativa se disperse em alguns momentos. Os diretores parecem querer abraçar muitas frentes ao mesmo tempo, e isso dilui parte do impacto emocional. Há instantes em que o drama central de Laura perde força diante da necessidade de explorar outros núcleos, o que pode deixar a experiência menos coesa. Essa ambição de criar um filme multifacetado, ao mesmo tempo que engrandece, prejudica a intensidade do mergulho psicológico que parecia ser o grande diferencial da obra.
Outro ponto que reforça essa sensação é a transição brusca no meio da trama. O longa começa como um drama intimista, com foco nas relações e na dor de cada personagem, mas, a partir da metade, o terror ganha protagonismo e o ritmo se altera significativamente. Essa mudança não é exatamente um defeito, já que está dentro da proposta dos Philippou de gerar desconforto, mas exige do público uma adaptação repentina que pode causar certo estranhamento. Ainda assim, o resultado final se mantém coerente com a ideia de que o filme não tem intenção de oferecer alívio ou soluções fáceis. O arco dos personagens é fechado de maneira firme, embora nem sempre feliz, e isso reforça o tom sombrio e implacável que os diretores quiseram imprimir.
No fim das contas, Faça Ela Voltar não é um terror revolucionário, mas é um filme consistente, que reafirma os irmãos Philippou como dois dos nomes mais promissores do gênero ao lado de Zach Cregger (A Hora do Mal). O longa se destaca por retirar o terror de objetos, figuras e rituais e transformá-lo em algo humano, íntimo e profundamente doloroso. Ao lidar com temas como luto e culpa, ele mostra que o medo mais paralisante não vem do sobrenatural, mas daquilo que carregamos dentro de nós. Hawkins brilha intensamente em uma de suas melhores performances, e o conjunto, mesmo com alguns tropeços de foco, entrega uma experiência incômoda, angustiante e memorável.
Se o cinema de terror de 2025 já pode ser considerado um dos mais ricos e ousados dos últimos anos, Faça Ela Voltar é uma peça essencial desse mosaico. Um filme que não se contenta em assustar, mas que prefere nos fazer refletir sobre até onde estamos dispostos a ir para enganar a morte — e sobre o preço que estamos dispostos a pagar para fazer alguém voltar.