Com Ultron, Jocasta e Billy Maximoff na trama, VisionQuest expande MCU e atinge 84% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes.
Há 5 anos, em 15 de janeiro de 2021, os fãs da Marvel nunca imaginariam que WandaVision seria considerada uma das melhores séries de todo o MCU e abriria precedentes para mais duas produções totalmente distintas: Agatha Desde Sempre e VisionQuest, que acaba de ganhar os dois primeiros episódios no catálogo do Disney+.
O AdoroCinema já assistiu a todos os 8 episódios da atração que conclui a história da família Maximoff (até o momento) e pode dizer que a produção entra para a lista das aventuras mais interessantes da Casa das Ideias, mesmo que não supere a obra original. Sem spoilers, saiba o que esperar.
O que é VisionQuest?
No fim de WandaVision, o Visão Branco chega a interagir com seu outro eu (o Visão do HEX) e recebe todas as memórias advindas das aventuras e dramas do super-herói. Após escapar daqueles que queriam transformá-lo em uma arma, ele permaneceu escondido em um pub onde se disfarça de ser humano.
A partir daí, logo nos primeiros episódios somos atingidos pela atmosfera criada por Jac Schaeffer e Matt Shakman há cinco anos e adentramos nos sistemas internos do Visão, onde encontramos as inteligências artificiais integradas à sua programação, incluindo F.R.I.D.A.Y., E.D.I.T.H., J.A.R.V.I.S. e o temido Ultron. Esse time funciona praticamente como uma versão robotizada de Divertida Mente.
Por onde anda a Capitã Marvel? Missão secreta da heroína pode impactar a trama de Vingadores: Doutor DestinoAs companhias do protagonista são apresentadas com estilo, como se os próprios personagens soubessem que estão em uma série, em uma vibe pop e dinâmica, com direito a lettering estilizado e uma descrição para cada um. Por serem seres digitais, o roteiro não poupa trejeitos de acordo com a programação de cada personagem e, neste momento, o trabalho do designer de produção Will Hughes-Jones (Bridgerton) passa a brilhar na tela. Com um ar retrô dentro da mansão-mente do Visão, são apresentados vários itens domésticos com nomes derivados do herói, como se estivéssemos vendo uma atração dos primórdios da televisão colorida.
É bonito ver como o apreço pela linguagem televisiva de WandaVision e teatral de Agatha Desde Sempre é refletido em VisionQuest, que tenta seguir por um caminho único. Ao decorrer dos capítulos, enquanto temos estes aspectos estéticos, do fogo pixelado aos produtos na estante de 5 IAs que não comem ou bebem, há também decisões de roteiro beneficiadas pela direção que colaboram todo esse espaço lúdico. E, sem dizer mais do que deviria, o encerramento da série faz uma grande homenagem à série que começou tudo isso.
Entre as referências perceptíveis à trama, há também algo visto recentemente em The Studio, no qual VisionQuest absorve um gênero ou uma inspiração de acordo com a trama de cada novo capítulo. Isso te lembra alguma coisa dentro da própria Marvel? Por exemplo, quando descobrimos mais sobre uma criatura antagonista, há momentos de tensão com clara base em O Exorcista e Poltergeist.
No trecho em que os personagens partem para uma investigação, a série adiciona uma linguagem voltada para filmes de detetive e até apresenta pontos do cinema noir. Se a premissa é mais leve e aventuresca, então a produção mergulha fundo em elementos cotidianos da internet - vai da luta contra uma invasão cibernética com Edith simulando uma pilota de avião, atirando contra os inimigos, à resolução de um captcha em tamanho real.
Fora os vários aspectos fascinantes da linguagem televisiva e cinematográfica, VisionQuest também estabelece muito bem que a trilogia sempre foi sobre amor, luto e identidade - e isso parte para uma das maiores ironias dessa narrativa.
VisionQuest é conclui trilogia de WandaVision com grandes ironias
Logo nos primeiros capítulos, VisionQuest envereda para Shakespeare ao fazer o protagonista recitar, em palavras próximas, o famoso "ser ou não ser, eis a questão". A premissa da produção se beneficia da busca do herói por propósito para focar na identidade de todos os personagens da trama. Nenhum deles, dos heróis aos vilões, é o mesmo quando o oitavo capítulo chega ao fim. Essa não é uma rebarba de WandaVision, que tinha Wanda tentando inventar um mundo para fugir da dor da perda, mas se encontra com a personagem quando pensamos que há alguns anos ela descobre parte de seu poder nessa jornada.
Neste aspecto, a nova série da Marvel tem mais laços com Agatha, no qual Billy Maximoff realmente cursa esse caminho da identidade e a bruxa que dá nome à produção também passa por uma transformação que, curiosamente, também parte do sofrimento do luto. Com a adição de Billy, interpretado por um ótimo Ruaridh Mollica, a trama consegue balancear todos esses temas - o amor, o luto, a família e a identidade - a partir da humanização. E isso é uma graça e uma ironia tremenda, afinal, a maior parte dos personagens são IAs.
Mesmo que sejam seres virtuais, estas IAs sentem e aprendem a amar - e isso é investigado a fundo na trama. Enquanto o mundo de todos desmorona, ainda temos os laços paternais que guiam a história em duas dinâmicas: Ultron e Visão, que se negam a aceitar sua relação de pai e filho; Visão e Billy, dois estranhos com dificuldade em aceitar a possibilidade dessa relação familiar.
A partir de tantas interações que mostram essas IAs sendo desesperadamente humanas, o roteiro de VisionQuest brinca com cada os relacionamentos de forma criativa. É como ver o namorico entre Jocasta e Ultron que, como o próprio James Spader citou em entrevista ao AdoroCinema, tem lá suas composições bem ousadas e estratégicas.
VisionQuest vale a pena?
Em 8 episódios, há grandes oportunidades para entender melhor sobre estes personagens rodeados por temas tão universais. VisionQuest nos lembra em diversos momentos de falas icônicas do passado de Wanda e Visão, como "o que é o luto senão o amor que perdura?" e "família é para sempre". Essas declarações levam cada personagem a aceitar algumas verdades sobre si mesmos e a se encontrarem (pelo menos um pouquinho).
Sendo uma série do Universo Cinematográfico da Marvel, a comédia é claramente parte do roteiro, existem alguns capítulos mais interessantes do que outros e, claro, há um encerramento que opta por um pouco de megalomania (e uma cena verdadeiramente hilária envolvendo Tommy e outra com um aceno muito bacana ao mundo de WandaVision). Há surpresas, algumas revelações um tanto óbvias e performances excelentes de Paul Bettany com as possibilidades do sintozóide, James Spader sempre excelente como Ultron, uma ótima entrada de Ruaridh Mollica no MCU e T'Nia Miller hipnotizante como Jocasta.
Por fim, VisionQuest é uma série divertida que vai além da superfície e funciona perfeitamente como um encerramento da trilogia WandaVision adicionando reflexões filosóficas a partir de um grupo de inteligências artificiais que querem ser pessoas de verdade, tal qual Pinóquio. E agora, Marvel, nos dê uma adaptação de Vingadores: A Cruzada das Crianças e os Jovens Vingadores. Parece que o momento chegou!