A morte do autor, nesta terça-feira, 7, relembra que o criador de O Rei do Gado sofreu forte pressão ao retratar os conflitos pela reforma agrária na trama.
Benedito Ruy Barbosa, um dos grandes autores da teledramaturgia brasileira, faleceu nesta terça-feira, 7, por complicações relacionadas a uma insuficiência renal crônica. Ao longo da carreira, escreveu novelas de grande sucesso nas principais emissoras do país, como Cabocla (1979), Pantanal (1990), Sinhá Moça (1986) e Terra Nostra (1999).
Após o fenômeno de Pantanal, produzida e exibida na extinta Manchete, a Globo decidiu convocar o autor para escrever para o horário nobre da emissora. Primeiro veio Renascer (1993) e depois O Rei do Gado (1996), novela que se transformaria em um dos maiores clássicos da televisão brasileira, mas também na obra mais polêmica de sua carreira!
Morte de Benedito Ruy Barbosa é lamentada por Tony Ramos e outros atores: "Um dos maiores gênios da dramaturgia brasileira"Uma novela que não foi fácil
Muito além do romance entre o poderoso latifundiário Bruno Mezenga (Antonio Fagundes) e a boia-fria Luana (Patrícia Pillar), O Rei do Gado abriu espaço para discutir um tema delicado na televisão brasileira: a luta pela reforma agrária e a realidade dos trabalhadores sem-terra.
A abordagem do assunto provocou forte repercussão nos bastidores da Globo. Em entrevista à Folha de S.Paulo, concedida em 1997, Benedito Ruy Barbosa classificou a experiência como a mais difícil de toda a sua trajetória profissional, especialmente por causa da pressão que sofreu de diferentes setores por abordar o conflito no campo.
Foi a novela mais tensa que já fiz. Primeiro, adoeci, tive problemas de coluna, e atrasei os capítulos. E, por estar mexendo com os sem-terra, sempre andei na corda bamba, tentando conduzir a trama sem criar atritos.
O autor contou que a trama dividiu opiniões: "Houve muita incompreensão. Eu recebi cartas de sem-terra elogiando a novela, dizendo que iria ajudar a causa deles. E recebi também cartas de sem-terra achando ruim, porque estava pregando a não-invasão de propriedades produtivas."
Segundo Benedito, a tensão começou durante a produção. Em depoimento ao livro Biografia da Televisão Brasileira (2007), ele revelou que recebeu uma ligação de Boni, então um dos principais executivos da Globo, questionando a inclusão dos trabalhadores sem-terra na história: "Um dia, o Boni me ligou muito bravo porque eu coloquei os sem-terra na trama. Ele queria saber por que essa informação não aparecia na sinopse", recordou o autor.
O novelista explicou que preferiu não destacar esse núcleo inicialmente porque sabia que o assunto despertaria resistência. Ainda assim, decidiu manter o enredo por acreditar que a novela precisava retratar um problema real vivido no campo brasileiro.
As críticas, a pressão política e as ameaças
A reação veio rapidamente! À medida que os capítulos de O Rei do Gado iam ao ar, setores ligados ao agronegócio e parlamentares passaram a acusar a novela e, consequentemente, o autor de defender o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Uma das cenas que mais repercutiu no meio político mostrava o senador Roberto Caxias, interpretado pelo ator Carlos Vereza, fazendo um discurso apaixonado em defesa da reforma agrária para um plenário praticamente vazio.
No dia seguinte à exibição da sequência, o então senador Ney Suassuna criticou a cena, afirmando que a novela passava ao público uma imagem distorcida do Congresso Nacional. De acordo com o Memória Globo, o parlamentar paraibano afirmou que a sequência poderia induzir a população a acreditar que não havia senadores honestos no Brasil.
As críticas também vieram dos proprietários rurais, que acusavam a novela de incentivar a invasão de terras. Em depoimento ao livro, Benedito Ruy Barbosa revelou que recebeu cartas e ameaças de fazendeiros, sem assinatura, incomodados com a abordagem da trama. Uma delas dizia: "Parabéns pelo que você arranjou. Sou fazendeiro e, se aparecer alguém aqui como os de sua novela, aumento o muro três metros para ninguém sair mais."
Mesmo diante da pressão, o autor nunca cogitou retirar o tema da trama. Pelo contrário: sempre afirmou que sua intenção era mostrar diferentes lados do conflito agrário brasileiro, sem transformar a novela em um manifesto político.
"A novela cumpriu a finalidade: pregou a mensagem de paz no campo ao mesmo tempo que mostrou que o problema é grave e tem de ser resolvido:, disse Benedito à Folha.
O legado de uma novela que fez história
Apesar das polêmicas, O Rei do Gado tornou-se um dos maiores sucessos da televisão brasileira. A novela registrou altos índices de audiência, conquistou diversas reprises e permanece como uma das obras mais lembradas de Benedito Ruy Barbosa.
Ao longo de sua trajetória, o autor fez da televisão um espaço para discutir temas como desigualdade, disputa por terras, imigração, coronelismo e a vida no campo, sempre tendo o Brasil rural como pano de fundo.
A tensão vivida durante O Rei do Gado acabou se transformando em um dos capítulos mais emblemáticos de sua carreira e ajuda a explicar por que sua obra permanece tão atual mesmo décadas depois de sua exibição.