A grande distopia da Apple TV finalmente revela quem construiu os silos. Você já imaginava, mas não sabia o motivo.
Existem séries que você assiste e séries nas quais você mergulha de cabeça. A 3ª temporada de Silo, que já assisti na íntegra, se encaixa perfeitamente na segunda categoria: esperei ter um fim de semana livre para poder dedicar 10 horas seguidas a assisti-la de uma vez só, e não me arrependo nem um minuto desse vício. Mas atenção: você vai ter que dosá-la, porque a Apple TV está lançando um episódio por vez todas as sextas-feiras até o início de setembro. Tive a sorte de assistir de uma vez só e, justamente por isso, posso dizer com toda a certeza que o vício é real do início ao fim.
AVISO DE SPOILER: a partir daqui, você encontrará alguns spoilers da temporada. Nada que estrague as grandes reviravoltas, mas se você preferir assistir sem saber de nada, já está avisado.
O início te deixa confuso de propósito, e funciona porque você está tão perdido quanto a protagonista
A primeira coisa que a temporada faz é negar a você uma recepção confortável. Em vez de retomar a ação de onde você parou, ela te deixa por alguns minutos como o meme do Travolta, se perguntando se você pulou um episódio. É que aconteceram tantas coisas na 2ª temporada que é bem provável que você nem se lembre: Juliette voltou do Silo 17, descobriu a existência de um mecanismo de segurança letal instalado em cada abrigo e tudo terminou com ela e Bernard presos entre as chamas de um incinerador.
A série aposta num começo em que você fique perdido na mesma névoa que sua protagonista, que acorda com sem memória após o incêndio. A amnésia é um recurso explorado excessivamente, mas aqui acaba funcionando, porque a perda das lembranças tem sido uma engrenagem essencial desse mundo desde o primeiro episódio.
Stephen King adora esta série da Netflix: Com avaliação de 4,5 estrelas, é uma obra-prima absolutaQuando você finalmente junta as peças, descobre que Juliette é agora a nova prefeita do Silo 18. O engraçado é o quão pouco ela exerce o cargo: ela começa a temporada presidindo a primeira sessão do comitê que governa o silo e, a partir daí, não volta a exercer o cargo nem por um minuto, levada por sua própria névoa interior.
Se eu não tivesse visto políticos de verdade viciados em Candy Crush bem no meio de uma sessão, diria que tal abandono das funções é um absurdo difícil de engolir. Mas a realidade vem nos mostrando há tempo que, nesse aspecto, a ficção fica aquém da realidade. Então você aceita a premissa, se acomoda e continua descendo.
Silo continua sendo um manual de política
Esta série é, desde o primeiro minuto, um tratado sobre como se administra o medo de uma população. O que muda na 3ª temporada é que esse subtexto vem à tona na vida social do Silo protagonista. Além disso, a narrativa se divide em duas linhas temporais e, junto com a vida subterrânea que você já conhece, leva você a um passado que é praticamente o nosso presente: uma Washington onde foram tomadas as decisões que enterrarão a humanidade. Lá você vê os de sempre espalhando o pânico para justificar um projeto secreto e tratar as pessoas como cobaias de laboratório. O drama do Silo não começou em um futuro distante: começou hoje, em nosso tempo.
E se tirarmos toda essa aparência de ficção científica, o que é, na verdade, um silo? É a sua mochila de sobrevivência ampliada a uma escala grotesca, tão enorme que cabem milhares de pessoas dentro dela. Mochilas gigantescas escavadas no solo. A ideia não é nova: é a do abrigo antinuclear da época da Cortina de Ferro, o bunker de luxo que hoje quem tem condições financeiras manda construir.
Há décadas fantasiamos em sobreviver no subsolo ao mundo que ajudamos a construir e que entrou em colapso por diversos motivos, desde uma guerra nuclear até invasões alienígenas. A 3ª temporada de Silo ajuda você a se colocar do lado de quem constrói esses abrigos, a aceitar que um mundo melhor é impossível e a assumir que estamos caminhando diretamente para uma época muito sombria — algo que começa a parecer assustadoramente plausível.
Se formos procurar uma semelhança, a mais óbvia já foi apontada até mesmo pelos próprios críticos: isso é o que aconteceria se Fallout se levasse a sério. A diferença, e aí está a chave, é que Fallout nunca deveria se levar a sério, pois sua ironia retrofuturista é a sua essência; Silo, por outro lado, ganha esse luxo de solenidade justamente porque nunca é gentil com o espectador.
O fato é que, nessa série, nem toda a sua interpretação geopolítica é sutil. O enredo do passado se baseia em um clichê enorme: uma bomba suja em Washington, o Irã apontado como inimigo, um ataque americano em resposta e comitês com nomes de operações que parecem tirados de um filme da Cannon. Em alguns momentos, lembra Comando Delta em pleno 1986. Mas a série tem um trunfo na manga que vira o jogo, e achei isso muito bem feito: o atentado não é tanto o que o Irã fez, mas o que o governo decide atribuir ao Irã, e os verdadeiros vilões acabam ficando deste lado da linha divisória, nos gabinetes que fabricam o inimigo externo para encobrir seus próprios planos.
Os fãs estão preocupados com a série de ficção científica mais longa do mundo: A sequência anunciada já foi canceladaO mais inquietante é o quanto tudo isso se aproximou das manchetes reais: escrita e filmada antes, a temporada terminou beirando a atualidade de uma forma que dá arrepios. O próprio showrunner contou em uma entrevista como a operação militar que inventaram para a ficção chegou a compartilhar o mesmo estilo de nome-código com fatos reais, obrigando-os a renomear missões na hora. Basta dar uma olhada no que está acontecendo lá fora para constatar que a realidade supera a ficção, e depois de dez horas de sobrevivência em um silo, é isso que realmente deveria nos assustar.
Quem controla o algoritmo?
A nova temporada muda o foco do poder de maneira muito inteligente: Camille Sims, como chefe da seção de TI, controla publicamente o silo. Mas, na verdade, ela apenas segue as diretrizes que recebe da misteriosa voz do Algoritmo. E o que há por trás do Algoritmo? Na 2ª temporada, descobrimos que essa entidade dita as regras nas sombras e que, a essa altura, já escolhe seus agentes humanos dentro do próprio comitê. A pergunta é: quem controla o algoritmo? Pois não devemos esquecer que as ferramentas sempre pertencem àqueles que as manejam. Um algoritmo não decide nada; quem decide são as mãos que o programam e o orientam.
É impossível não lembrar de Duna neste momento. Frank Herbert escreveu em 1965: “Certa vez, os homens entregaram seus pensamentos às máquinas na esperança de que isso os libertasse. Mas isso só permitiu que outros homens, com máquinas, os escravizassem”. Essa é exatamente a armadilha que Silo coloca em jogo, mas é uma armadilha dupla, como descobriremos no final da 3ª temporada… A máquina nunca é quem te escraviza; são as pessoas que estão por trás da máquina.
Você já percebe o que está por vir antes mesmo da metade do segundo episódio, e mesmo assim a série não te deixa escapar
Vamos ser sinceros: você nem vai ter chegado à metade do segundo episódio e já vai perceber o que está por vir, já vai intuir para que servem os silos. E o normal seria que isso tirasse o mistério. Aqui, porém, isso não acontece porque o que prende a atenção nunca foi apenas o “o quê”, mas o “como”, o “por quê” e o “para quê”.
A linha narrativa do passado, com Helen (a repórter da trama centrada no presente que conhecemos na 2ª temporada) investigando uma pista jornalística que não lhe cabe tocar, tem um toque à la Arquivo X que é muito legal. Não é à toa que a própria série recorre ao truque mais antigo do manual: o do mágico que acaba sendo apenas um homem atrás da cortina; essa referência ao Mágico de Oz que nunca sai de moda e que, aqui, continua funcionando, porque é disso que se trata: abrir a cortina e ver quem puxa os fios.
Nem Arquivo X, nem Jornada nas Estrelas: Esta saga de ficção científica cult de 32 anos realmente ganhará um reboot?Ao tentar orquestrar tantos momentos de impacto, a série, muito ocasionalmente, falha um pouco. Ao tentar manter o suspense em tantas tramas de conspiração ao mesmo tempo, a série, às vezes, força o ritmo e se permite alguns saltos narrativos um pouco rebuscados, confiando que o espectador em geral se deixe levar sem pensar muito nisso.
O clichê da amnésia, como já disse, soa forçado de vez em quando. Não é por acaso que em mais de uma crítica se tenha apontado que esta temporada, finalmente, corrige vários dos problemas estruturais que as duas anteriores arrastavam, embora, de passagem, traga algumas novas falhas. Mas é que há muitos personagens e muitas subtramas, embora a série seja forte o suficiente para continuar cativando os espectadores.
Um distribuidor de balas em forma de pato
Uma das obsessões mais bonitas da temporada são as relíquias. Um distribuidor PEZ em forma de pato passa de um objeto do século XXI a se tornar, três séculos depois, um dos objetos quase sagrados de uma sociedade que já não se lembra de onde ele veio; os brinquedos de infância de Juliette são venerados como se fossem restos mortais de um santo. Não se trata de um capricho do roteiro, mas de uma intuição muito certeira dos criadores da série: quando um mundo desaparece, os poucos fragmentos que sobrevivem ficam carregados de mitos, tornando-se testemunhas de uma história que ninguém viveu.
Do relicário medieval à vitrine do museu, há milênios que sacralizamos o que sobrevive àqueles que o fabricaram. Silo entende que um objeto aparentemente sem valor pode ter um valor excepcional para uma civilização, como Bellob explicava a Indiana Jones em Os Caçadores da Arca Perdida sobre seu relógio, dizendo que atualmente ele não vale nada, mas que, se alguém o enterrar na areia por 1.000 anos, seu valor se torna incalculável porque se transforma em História.
E daí surge uma reflexão muito interessante sobre nós, sobre nossa cultura do “usar e jogar fora”: esquecemos de consertar as coisas porque é mais fácil comprar outra. Meu pai e meu avô eram capazes de consertar qualquer coisa com um elástico e uma arruela, e perdemos essa cultura de valorizar o que já temos. O silo, de certa forma, é uma civilização obrigada a valorizar o que possui, pois nada de novo chegará até ela, nunca. Dá o que pensar sobre ser necessário um apocalipse para recuperar o hábito de cuidar de um objeto em vez de substituí-lo. Talvez seja aí, nesse pequeno detalhe, que resida uma das ideias mais maduras de toda a série.
Uma das melhores séries do ano (mais uma vez)
Do ponto de vista técnico, a série é impecável, como praticamente todas as séries da Apple: o design de produção, o som, aquela maneira de fazer com que o silo pareça um lugar real e opressivo. Mas o que sustenta a série são as atuações. A cada vez que vejo Jessica Henwick, gosto mais dela como atriz; sua Helen é um dos pontos fortes da temporada.
E parabéns enormes para Ashley Zukerman, uma nova integrante do elenco e uma grande surpresa interpretativa: sua congressista, cheia de inteligência, ambição e inquietação, é uma das melhores coisas que esta temporada traz. Esse ritmo calculado e atmosférico, que já intuíamos no trailer, dá a ambas o espaço de que precisam para crescer. E sei que não me perdoariam se eu não destacasse a sempre interessante e carismática protagonista, Rebecca Ferguson.
Ao longo do caminho, você encontra surpresas e mais surpresas. O episódio 5 termina com um daqueles finais maravilhosos pelos quais a gente ama o mundo das séries, daqueles que te deixam na expectativa porque o episódio termina com um cliffhanger tão emocionante. O nono episódio esconde uma surpresa musical que não vou revelar, mas que vai te arrancar um sorriso de orelha a orelha. São detalhes, sim, mas são os detalhes que separam uma série boa de uma série incrível. E essa já está sendo incrível há três temporadas.
O capítulo 10, que encerra a temporada, faz parte de uma tradição que a série exibe com orgulho: ele te deixa com a mesma sensação daqueles finais de temporada de Lost, de quando ela era incrível e nos deixava de queixo caído. Seu início é a parte mais assustadora de toda a série, e dá ainda mais medo justamente por ser tão fácil imaginar uma versão disso acontecendo em uma cidade real. Não vou dar mais detalhes. O fato é que, como sempre, a boa ficção científica não existe para te consolar, mas para te fazer a pergunta certa, a mesma que Juliette não para de se perguntar: por quê? Por que os silos, por que a mentira, por que nós?
Me preocupa que a cultura pop tenha perdido a fé no futuro
Há uma preocupação que venho carregando há algum tempo e que Silo me fez relembrar: os canais que nos trazem a cultura pop parecem ter perdido a fé no futuro e, há alguns anos, estão empenhados em nos preparar para o pior, como se a única história que merecesse ser contada fosse a do desastre que está por vir. E, no entanto, a humanidade saiu da Idade Média, superou a peste, a fome e vários séculos de privações, e aqui continuamos, contando histórias.
Se sobrevivemos a tudo isso, também seremos capazes de superar o que nos dizem que está por vir, não é mesmo? Recuso-me a engolir inteiramente essa campanha de promoção do apocalipse. Apesar de tudo, Silo é exatamente o tipo de série que me faz assistir séries. Dez horas do meu fim de semana, que se esvaíram, e eu as dedicaria novamente sem pestanejar. Só por isso já valeu a pena. E agora o que vou fazer até o ano que vem? A temporada final de Silo.
Silo está disponível na Apple TV+.