50ª Mostra de SP: Se Eu Fosse Vivo… Vivia quebra expectativas com a história de amor mais linda do ano
por Bruno Botelho dos Santos

Novo filme de André Novais Oliveira, Se Eu Fosse Vivo… Vivia conquista com sua história de amor e também pela coragem ao abraçar elementos fantásticos.

>

Se você já assistiu algum filme de André Novais Oliveira, diretor de Temporada e O Dia Que Te Conheci, sabe que sua obra é marcada pelo mergulho no cotidiano e vivências tipicamente brasileiras. A principio, Se Eu Fosse Vivo...Vivia segue essa tradição acompanhando décadas de uma história de amor, mas aos poucos revela camadas que abraçam o cinema fantástico e tornam esse um dos filmes mais interessantes do ano.

Qual é a história de Se Eu Fosse Vivo...Vivia?

Se Eu Fosse Vivo...Vivia acompanha as cinco décadas de vida compartilhada do casal Gilberto e Jacira. Os dois se conhecem nos anos 70 em Contagem, cidade de Minas Gerais, e, 50 anos depois, Gilberto e Jacira são a dupla carismática, carinhosa e gentil de sempre e vive uma vida feliz e animada, compartilhando a rotina e as atividades do dia a dia. Porém, quando Jacira é internada, Gilberto passa a vivenciar situações perturbadoras e fora do comum, experiências que o conduzem rumo ao desconhecido.

O dia a dia de uma história de amor

Temos o primeiro contato com Gilberto e Jacira na juventude. André Novais Oliveira nos transporta para os anos 70 e faz com que a gente se interesse pelos protagonistas desde o começo, naquele despertar da paixão, antes de saltar no tempo para o presente.

É aqui que se estabelece o coração da história: o cotidiano e o amor de Gilberto, interpretado por Norberto Novais Oliveira, e Jacira, interpretada por Conceição Evaristo. O relacionamento do casal é apresentada com tanta sensibilidade e a naturalidade a partir de situações do cotidiano e pequenos gestos – carinhos, brincadeiras e até mesmo implicâncias – que parece que estamos acompanhando pessoas conhecidas.

O mais impressionante está justamente na simplicidade e sensibilidade que essas atuações transmitem pela química natural dos protagonistas, entre momentos lindos e engraçados. Pai de André na vida real, Norberto Novais Oliveira já é uma figurinha carimbada de outros filmes do diretor, como Temporada e o curta Quintal. Mas Conceição Evaristo – autora de "Olhos d’Água" que faz sua estreia como atriz no cinema – é a grande força do filme, com sua presença encantadora que transmite tantos sentimentos só pelo olhar.

Não é coincidência que a ausência de Evaristo em tela é justamente o que transforma completamente a narrativa de Se Eu Fosse Vivo...Vivia na parte final.

Se Eu Fosse Vivo...Vivia quebra expectativas e abraça o cinema fantástico

Desde o começo do filme no passado é possível perceber uma certa estranheza com pitadas de elementos de fantasia e ficção científica, que tomam conta da produção a partir do momento que Jacira fica doente. Sem entrar em muitos detalhes, Se Eu Fosse Vivo...Vivia vira um novo filme depois disso e resolve abraçar sem vergonha o cinema fantástico.

Enquanto na primeira metade nos apaixonamos por Gilberto e sua história de amor, na parte final acompanhamos uma perda de rumo do protagonista, enfrentando a impossibilidade de voltar para casa, tanto literal quanto psicológica.

É a forma poética e criativa que o diretor de O Dia Que Te Conheci discute sobre luto, especialmente o impacto que a ausência causa em nossa percepção de mundo e realidade. E nada mais potente do que usar elementos fantásticos como catalisador do drama humano.

Essa quebra expectativa em Se Eu Fosse Vivo...Vivia provavelmente não vai agradar todo mundo, mas é sem dúvidas o grande diferencial do filme. Essa ousadia de André Novais Oliveira o coloca entre os nomes mais criativos do cinema nacional atualmente.

*O AdoroCinema assistiu ao filme durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Bruno Botelho dos Santos
-Subeditor | Crítico
Bruno é redator e crítico do AdoroCinema, que divide seu tempo na cultura pop entre tomar susto com os mais diversos filmes de terror, assistir os clássicos do cinema ou os grandes blockbusters e enaltecer o trabalho de David Lynch e Stanley Kubrick.
facebook Tweet
Leia também