Após receber 144 processos por tweet crítico à relação entre Igreja e Estado, escritor produziu documentário que parte da ofensiva jurídica e acaba em curioso retrato do Brasil contemporâneo.
Figuras controversas sempre foram um prato cheio para o cinema documental. Enquanto Tudo Pode Ser Visto ganha os olhos de todo o mundo por registrar dias que antecipam a prisão de Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, existem histórias nossas que também precisam ser exaltadas. Este é o caso de 144 - Apocalipse Não, um registro tão íntimo quanto universal da experiência de ser brasileiro em tempo de ódio, polarização e desafios ao Estado Laico.
Assistido durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, embora o filme de João Paulo Cuenca acompanhe um relato que engloba alguns anos atrás, o projeto se comunica diretamente com o período eleitoral de 2026. Curiosamente, achei que vê-lo neste momento em que o bolsonarismo tenta mais uma vez ganhar as rédeas do país seria mais doloroso, mas a experiência foi tão esclarecedora quanto libertadora (não pelos motivos óbvios).
Do tweet iluminista à tempestade judicial
Assim como muitas outras grandes aventuras da vida contemporânea, tudo começou com um tweet. Motivado por uma indignação pelo momento crítico da pandemia e com críticas à gestão do ex-presidente, o escritor e cineasta João Paulo Cuenca fez sua própria versão de um pensamento do Iluminismo francês sobre a separação entre Igreja e Estado no qual escreveu: "O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal."
A partir daí, uma ofensiva judicial coordenada com 144 ações por danos morais movida por pastores espalhados por diversas partes do país, acompanhada por milhares de ameaças de morte, mudou a vida do escritor para sempre. Embora em muitos momentos ele se sinta patético com o que fez a partir daí, no seu limão se tornando limonada, o processo o levou a criar este documentário que revela um Brasil distante das vilanias mais extremas do fascismo, mas também expõe parte da faísca dessa perseguição: o laço entre o Estado e a Igreja estão enraizados nas fundações do nosso país.
10 mil quilômetros no coração da fé e da política
Em uma jornada documental que começa lúdica, com a lírica de Cuenca guiando a narração, entendemos brevemente o seu intuito: visitar algumas das regiões onde recebeu números expressivos de processos e dialogar com estes religiosos que se juntaram para a ação judicial. É, inclusive, engraçado como as ironias deixadas bem claras pelo cineasta acabam costurando a realidade como se o roteiro da vida fosse perfeito.
Foram 144 processos, um número cabalístico para a comunidade cristã. Aprendizado que perpetuou parte dessa viagem pelo Brasil, enquanto João nos mostra as influências cristãs do país majoritariamente vinculadas - e aparentemente cooptadas - pelo discurso da extrema-direita de "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".
50ª Mostra de SP: Uma das obras mais delicadas do ano, O Sentido da Vida nos lembra o que realmente importa diante das pressões do capitalismoNão há grandes antagonistas nesse labirinto que começa jurídico e acaba florescendo no campo teológico e social. Ao conhecer as pessoas que orbitam os templos da Universal, ele conhece mais sobre "o famoso apocalipse", como "o pecado é o caminho do precipício" e na já conhecida comercialização da fé - seja pela requisição financeira direta, pela música góspel que rejeita o que vem do mundo ou simplesmente na promessa de, ao deixar tudo nas mãos da Igreja, o paraíso se abrirá à frente.
As engrenagens da desesperança e a comercialização da fé
Ainda que entre em contato com as mais diferentes pessoas, há um padrão que as coloca nesse lugar. Assim, monta-se o mesmo teatro da promessa de salvação com atores diferentes a cada nova região visitada. Há um senso de desesperança por muitos desses moradores, uma preocupação crescente pela violência e a intromissão da política nesses assuntos seculares que acabam por confundir o que é o que - mais uma manifestação da paráfrase Iluminista do tweet.
Apesar de que para muitos essas ideias pareçam "chover no molhado", não acredito que o documentário seja tão óbvio quanto possa soar à primeira vista. A direção colabora para construções às vezes psicodélicas, às vezes melancólicas. Esses abraços a atmosferas lúdicas surgem sempre pela voz de Cuenca, que também faz uma autoavaliação enquanto trava essa viagem por mais de 10 mil quilômetros pelas cinco regiões do Brasil.
"Nosso poder está no local de trabalho": Em meio às eleições 2026 e ao debate da escala 6x1, Boots Riley mostra como I Love Boosters aborda a luta de classesEnquanto sentamos no banco de trás dessa jornada, 144 - Apocalipse Não cria um retrato gentil e triste ao país do que a superfície poderia propor. É agridoce por ver como a pobreza e a fé sempre foram pratos cheios para que manobras políticas sejam muito bem executadas por todo o canto, mas não deixa de mostrar como essas pessoas normalmente vinculadas a discursos conservadores são apenas uma parte de engrenagens maiores.
Um retrato humano do Brasil
Como qualquer documentário, cria-se a partir do bruto. Por isso, e até mesmo por algumas rimas narrativas dadas pela própria vida, há uma breve sensação de repetição aqui ou ali. Longe de ser um problema, é parte do registro de quem somos. E quanto a essa busca, quero destacar a importância de ouvir um grupo indígena sobre uma tribo que resiste à evangelização, à xenofobia e ao racismo. Já pelos momentos derradeiros do filme, ainda há espaço para essa perspectiva tão importante. Mais uma fatia de um país tão plural.
João Paulo compartilha um pouco de suas crenças, a maioria advinda dessa crise dada após uma enxurrada de processos por 140 caracteres, e fala de algo que parece íntimo, mas permeia a vida de boa parte da população: "Tenho saudade de quando delirávamos pelo amor e não pelo futuro da humanidade."
*O AdoroCinema assistiu ao filme durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.